Our Town, poema de Álvaro Pacheco
Para H. Dobal
A rua mantém a placa da esquina
na parede refeita e despida das lembranças-
está deserta à noite
como suas outras companheiras paralelas:
já estiveram antes desertas,
mas em outras horas de gente viva
que hoje esta morta, gente
que se balançava em cadeiras nas calçadas
no início da madrugada,
esperando a brisa fresca que vinha do rio.
A rua como era,
horizontalizava o coração da cidade
até a beira do rio onde
se desenhavam meninos na alma
que jamais iria crescer - e descia na praça
à procura das moças que também não cresceriam,
como aconteceu com a cidade. A rua
era como o sino da missa
e a música escondida nas janelas,
a mágica do circo e o cochilho dos velhos
em suas esquinas, segurando as placas
para que elas não mudassem.
A rua tinha suas pedras
irregularmente alinhadas
sem qualquer modernidade, lírica
desafiando o trôpego tráfego de um tempo
que custava a passar
entre a sesta e a sopa. Era estreita
mas bastava para seus transeuntes
que negociavam, porque tinham tempo,
com o entardecer e o dia nascendo
num mesmo período de solidão
e esperança.
A rua
não esperava o que aconteceu:
o desaparecimento de suas árvores
a verticalização dos horizontes
as pontes de concreto, e, sobretudo,
os novos edifícios
que substituíram suas memórias
e a todos os habitantes fiéis deixaram órfãos
dela e de outras ruas
que se tornaram grandes demais
e abandonaram a cidade.
A rua
está procurando sua infância
em pequenas e antigas
cidades estrangeiras.
Rio, 9 de julho de 95
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