Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 29 de maio de 2017
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Zezinho das Contendas

Existem pessoas que são dotadas de carisma por tudo o que fizeram ou pelo que lhes foi feito. Mestre Zé Fernando ou “Zezinho das Contendas” é uma dessas pessoas que entraram definitivamente para o folclore do povo remedoense.

       De Nossa Senhora dos Remédios todos já devem ter ouvido falar, pois foi manchete na Rede Globo de Televisão e em inúmeros outros veículos de comunicação, como sendo a cidade mais pobre do Brasil. Rapidamente, a farsa foi desfeita; já se sabe de onde partiu a infâmia e quais  pessoas tiraram proveito de tão pejorativa campanha.

       Mestre Zé Fernando nasceu no Povoado Santo Antônio, município de Nossa Senhora dos Remédios, em 1917, tendo sido o primogênito de uma família de cinco irmãos. Quando criança, era do tipo briguento, e, talvez, por esta razão, tenha recebido a alcunha de “Zezinho das Contendas”. Mulherengo e festeiro, noivou dentro de um carrossel nos festejos da padroeira da cidade de Miguel Alves e lembra que gastou a quantia de cinco tostões no primeiro baile do qual participou, ainda criança, ludibriando seus pais.

       Há poucos anos, antes de falecer, era um pacato cidadão de fala mansa, tendo a cabeça branca e apoiando-se num cajado feito a seu modo. Lembra a figura de Sua Santidade o Papa João Paulo II. A caneta bic no bolso da camisa, com a tampa entortada no calor de um palito de fósforo, como faz com todas as que adquire e uma cerveja gelada para animar um bom papo, principalmente se for referente a mulher, o seu prato predileto, são suas “marcas registradas”.

       Inúmeros são os casos protagonizados  por essa figura impar; alguns podem ser contados em público e outros ficam restritos às rodinhas de cochichos.

       Tantas foram as armadilhas preparadas por seus adversários políticos para pegá-lo em flagrante, que chegou a hora com a notícia do defloramento de uma jovem de menor idade, conhecida como Neta. O caso tomou tamanha dimensão que foi preciso trazer um delegado especial para instaurar o inquérito policial; maior foi a surpresa quando, inesperadamente, a moça inocentou seu Zé Fernando e apontou para um tipo caracterizado pela feiura, chamado Valdeck, que, de pronto, confessou sua culpa, propondo o seu casamento com a difamada jovem que, logicamente, não aceitou. Tudo previamente combinado.

       De outra feita, Mestre Zé Fernando foi intimado a comparecer ao Fórum de Barras, para uma audiência. Lá esperava-o como testemunha de acusação o “Velho Fortes”, com sua maneira inconfundível de se expressar. Interrogado pelo Meritíssimo se conhecia Francisca das Chagas Fortes, apelidada de “Lourinha”, seu Fortes de pronto respondeu que a conhecia e que fora deflorada pelo acusado (Zé Fernando). Após uma pausa, o Juiz recomeçou o interrogatório perguntando ao seu Fortes se conhecia também Francisco das Chagas Fortes, vulgo Chico Viana, e ele, mais que de repente, respondeu que o conhecia também e que fora deflorado pelo acusado. O Fórum quase veio abaixo com a barulho das gargalhadas, fazendo com que a audiência fosse suspensa e o Juiz confessar-se temeroso pela presença daquele tarado em sua comarca. Tempos depois, o Juiz e o acusado tornaram-se compadres.

       Recentemente, ele decidiu passar o sábado de carnaval em Luiz Correia, tomar um banho de mar e retornar no mesmo dia; no primeiro mergulho a dentadura ficou perdida no mar. Quase perdeu também o calção, e sem os dentes, ficou sem graça. Desolado, já estava decidido a retornar quando encontrou o Gadelhão, outra pitoresca, boêmio de carteirinha e mestre em reanimar os abatidos. Mestre Zé Fernandes caiu na gandaia e só deu conta da falta dos dentes na quarta-feira de cinzas.

       No dia seguinte, mandou fazer uma dezena de próteses dentárias e espalhou por todos os lugares que costumava freqüentar.

       A última do Mestre Zé Fernando aconteceu recentemente na porta giratória do Banco do Brasil, em Campo Maior, onde fora receber o dinheiro da aposentadoria, na companhia do genro Timtim. Barrado pelo alarme que detecta metal, teve esvaziados sua pasta e bolsos. Retornando à porta encontrou-a travada novamente e o alarme disparou. Desta feita foi revistado à procura de alguma arma que não fora encontrada. Foi sugerido por um gaiato que tirasse os dentes. Seu Zé cumpriu, cuspiu, mas não entrou. Neste instante o genro lembrou-se que Seu Zé Fernando fora submetido recentemente ao implante de uma prótese peniana à base de metal, ou seja: os médicos haviam colocado em seu pinto murcho um pedaço de platina, para mantê-lo sempre ereto, fato que o tornou conhecido como “Zezinho do Pau de Aço”, ou resumidamente, “O de Aço”. Como a remoção da peça era tarefa impossível, Mestre Zé Fernandes entrou pela porta destinada aos deficientes físicos e continuou, depois disso, tendo esta deferência especial.

       As presepadas de “Zezinho das Cotenhas” extrapolam os limites de sua terra natal e invadem os territórios circunvizinhos ou quer que haja uma roda de parceiros, jogando fora conversa fiada sobre política, sexo, bebida e mulher.

       Em janeiro de 2001, a genealogista e imortal da Academia de Letras do Vale do Longá, Daise Castelo Branco Rocha de Vasconcelos, escrevendo sobre Zé Fernando, assim disse: “Descendente de ilustres clãs de Nossa Senhora dos Remédios. Um dos líderes da emancipação do município que muito contribuiu para seu desenvolvimento sócio-político. Proprietário rural, agropecuarista, comerciante. Família tradicionalmente política na região. O pai, coronel Sargento Torres, e o irmão, médico João de Deus Torres, ambos falecidos, foram prefeitos de Porto e Campo Maior. Zéfernando, por sua vez, foi vereador, presidente da Câmara Municipal, vice-prefeito e prefeito em três mandatos, no município de Nossa Senhora dos Remédios. Responsável no trato com a coisa pública, devoto da Virgem dos Remédios, homem simples e popular. Respeitado e querido, houve época  em que o “zefernandismo” beirou à idolatria, principalmente no Povoado Santo Antônio, seu reduto eleitoral.

       Parente, amigo e conterrâneo, com meus irmãos, ex-prefeitos igualmente, Deusa, de saudosa lembrança, e Delson, alternou alianças e pelejas políticas. Essas, contudo, não conseguiram desfazer os laços de parentesco e amizade existentes entre eles e familiares.

       Casado com a prima Maria Íris Branca, o casal não teve filhos biológicos. Porém, adotou vários, tornando-os rebentos do coração, herdeiros dos seus bens materiais e espirituais que acumulou nos 50 anos de núpcias. Entre eles, a sobrinha Salvina, casa com o médico e acadêmico Gisleno Feitosa, e Silvânia, ex-vereadora de Nossa Senhora dos Remédios, consorciada com Antônio Pessoa de Brito, ex-vice-prefeito.

       Zefernando desapareceu aos 83 anos de idade, quando já não participava tanto dos conchavos políticos, em virtude da idade avançada e da saúde precária. Entretanto, até os últimos momentos, viveu saboreando os prazeres pelos quais optou. Morreu na véspera de Natal, quando os sinos da antiga Capelinha Branca, em vez de anunciarem alegria, repicaram reverenciando a memória do ilustre filho da cidade, a qual amou como poucos. José Fernando Rodrigues Torres – uma liderança nata.      

 *Gisleno Feitosa é médico e escritor

 

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