Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2012
VIRAGENS
Francisco Miguel de Moura
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Biblioteca, com quem deixar?

[Francisco Miguel de Moura}

BIBLIOTECA, COM QUEM DEIXAR?
 “Só o livro, na sua pequenez, é capaz de abranger o infinito”. – Ascendino Leite
 
*Francisco Miguel de Moura
Membro da APL e da IWA
           

            Livro é uma mercadoria preciosa e difícil: para fazer, transportar, guardar, ler e mais difícil para interpretá-lo. Quem acumula seu tesouro todo em livros, quando morrer vai decepcionar a família: é uma herança pesada, quase maldita. Eis a dificuldade das bibliotecas particulares. 

 
Biblioteca! Lugar onde se guarda livro, ordenadamente para o seu uso em pesquisa, estudo ou leitura. Em recente trabalho da escritora Teresinka Pereira sobre “Bibliotecas”, a digníssima Presidente da IWA - International Writers and Artists Association – queixa-se de não saber com quem vai deixar a biblioteca da instituição, com cerca de 15.000 volumes, visto que o Vice-Presidente da IWA faleceu recentemente. Acredita que Luis Carlos Pereira, jovem poeta e advogado, cuidará bem desse patrimônio institucional que presta enormes serviços aos escritores e guarda a memória da literatura e das artes de muitos países. No caso não é um bem que deixará para a família: – Pode-se crer que o Luís Carlos Pereira seja o sucessor da mãe, no governo da instituição.

Ao contrário dos Estados Unidos, onde o costume é cada bairro ter sua grande biblioteca pública – cujo espaço serve também para lançamento de livros e conferências, no Brasil, há muitas bibliotecas particulares e pouquíssimas públicas. Para as pessoas de posse e com tinta de saber e intelectualidade, aqui é chique ter uma boa biblioteca em casa. Tradição brasileira, Monteiro Lobato já dizia que “Uma casa sem biblioteca é como um corpo sem alma.” Mas, quando o dono desaparece, quem estaria apto a aceitá-la intacta? E serviria para que, se muitas vezes o herdeiro (de posses) não é dado aos livros e, em sendo particular, o acesso ao público, muito restrito? Para que serviria tal biblioteca? Para nada. E, fatalmente, o cupim tomará conta, rapidamente transformando-a em pó. Aliás, todos seremos pó, daqui a algum tempo. Mas os livros são feitos para durarem a vida inteira, para gerações e gerações. E assim é, temos a história por testemunha, a partir da mais conhecida e famosa, a Biblioteca de Alexandria.
  
Teresinka Pereira disse-me que tomei uma resolução saudável, ao saber que minha biblioteca particular teria que mudar de endereço, pois vou morar em apartamento: - “Vai para a cidade de Francisco Santos – PI, onde nasci há 77 anos”. Congratulou-se comigo, comungando com a idéia de que as pessoas da hinterlândia têm mais necessidade de livros do que nós das grandes cidades. A criação de uma biblioteca municipal para abrigar meu acervo foi acolhida prontamente pelo prefeito de minha terra. Antes de mim, já havia acudido ao escritor Manoel Paulo Nunes, Presidente do Conselho Estadual de Cultura, a luminosa ideia de transportar seus livros para a cidade natal, onde fundaram uma biblioteca municipal com seu nome. Quem viu o “Jornal do Enéas”, edição do mês passado, deve ter lido o depoimento sentimental do próprio doador: “Será cumprida a heróica aventura do desfazimento, sem maiores traumas, de um patrimônio que a gente incorpora ao seu acervo de bens materiais e no momento de desfazer-se dele é como se a nossa alma se partisse em pedaços.”.

Seria maravilhoso se o Brasil imitasse os Estados Unidos naquilo que este tem de bom. A criação e manutenção da biblioteca pública em cada bairro é barato e  democrático. Afinal, democracia não é só voto e eleição. É também a repartição da cultura. Livros não lidos são frutos que apodrecem.  Aliás, a gente sempre diz, quando lança um livro, que o publicou (entregou-o ao povo). O povo lê e julga. O que fica é a história E a história também é o povo quem faz. E, como tudo que é humano, tem seus limites. Não têm limite é o saber, a arte, a emoção que o livro oferece, como está na epígrafe do grande escritor brasileiro, Ascendino Leite, recentemente falecido (*21-6-1915 / +13-6-2010).
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Crédito: A imagem que encima este artigo é uma foto da Biblioteca do Congressos, Estados Unidos da América do Norte - uma das maiores bibioteclas, senão a maior, do mundo moderno (internete).
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*Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, autor de cerca de 30  livros, inclusive  a biografia de seu pai  ("Miguel Guarani, Mestre e Vileiro", Edições  Cirandinha/FUNCOR, Teresina, 2005) é membro da Academia Piauiense de Letras, da Academia de Letras da Região de Picos e da Associação Internacional de Escritores e Artistas(IWA), com sede nos Estados Unidos.

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