Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 07 de setembro de 2010
VIRAGENS  
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Ascendino Leite: o jogo das ilusões

Ascendino Leite: o jogo das ilusões

Por Francisco Miguel de Moura

A juventude de outrora era cheia de ilusões, generosa e sadia. Boas ilusões! Os jovens d’agora são escrachados, não apenas na linguagem falada ou escrita (orkuts, etc.), mas também nos atos e costumes. Não são ouvidos os mais velhos, ninguém obedece, ninguém lê, ninguém quer nada com nada. Cecília Meireles escreveu: “Liberdade, esta palavra / que o sonho humano alimenta / não há ninguém que a explique / e ninguém que a não entenda.” Não adianta falar em democracia e liberdade e não respeitá-las sequer diante de um simples sinal de trânsito, dizemos todos. E ninguém escuta.

Ouço uma notícia na tevê: um preso, agraciado com um dia de soltura em casa para comemorar “o dia dos pais”, acaba de assinar alguém e deixar outros feridos. Cansei-me de dizer e escrever que não adianta agraciar presos comuns por ocasião de datas festivas, nem por qualquer pretexto. O que é um princípio de humanidade da lei e da Justiça passa a expressar uma desumanidade imediata. Mesmo que o criminoso tenha bom comportamento no xadrez, apresentá-lo em soltura vigiada é sempre um grande perigo: de fuga, de novos crimes.

É oportuno citar Ascendino Leite sobre ilusão e desilusão: “As verdadeiras desilusões são generalizadas e se processam no coração de qualquer homem. São as que investem contra as paredes da vida e a plenitude dos seus fenômenos.”.

Creio que, com reação aos dois itens: – a falta de obediência às leis do trânsito em nossa sociedade (Brasil) e a generosidade da justiça ao conceder licenças vigiadas a presos comuns – a desilusão já bateu ao coração de qualquer homem simples, como diz Ascendino Leite. Eu confesso que gostaria de ser melhor do que sou, mas vejo, sinto, vivo as injustiças que se praticam com os inocentes. Não posso ficar preocupado com as “injustiças” que por acaso aconteçam aos criminosos. Quem merece mais? Não sou falso, nem mesmo para apresentar modéstia. Tudo tem limites, até a bondade. Como é que vou aplaudir quem desrespeita a lei? Ao contrário, desejo que seja castigado severamente – isto é, que as leis sejam justas e cumpridas. Assim se evitará morte ou invalidez de quem, ao contrário, sempre respeitou, sempre andou com a lei. Enquanto isto não acontece, como falar em democracia, justiça, liberdade, direitos humanos, todos? Cidadania é respeitar as leis, trabalhar para que sejam bem feitas, lutar pelos desafortunados, mas de maneira não personalista, não “política”, não por aparecer. Neste sentido é que minhas desilusões não resistem às minhas ilusões da juventude, românticas, tão boas, sem limites, por uma democracia que não veio, uma liberdade que não existe, direitos totalmente desrespeitados em nome de quê? Da liberdade. Ora, isto não é liberdade. É libertinagem.

Ascendino Leite, no livro “O Jogo das Ilusões”, conclui que “a desilusão de ser homem e ter paixões foi a mais triste, talvez porque a que mais distante me manteve do infinito.” Apegar-se às coisas menores, particulares (ilusões), em detrimento dos princípios que Deus e a natureza ditam em benefício do ser humano e do ser social, não só entristece – faz-nos mais brutos do que os brutos. Por que não temos o direito nem a necessidade de agirmos como feras. E parte da humanidade age. Não são maus, são insensatos, tornam-se objetos de massa, mercadorias manejadas pelas ideologias de quem não tem ideologia senão a de si próprio.

Mas é preciso ter coragem para que não cheguemos à desilusão total.

_____________
*Membro da Academia Piauiense de Letras, da União Brasileira de Escritores e da IWA (Associação Intrnacional de Escritores e Artistas), sede nos Estados Unidos - E-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br

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