Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2012
VIRAGENS
Francisco Miguel de Moura
Tamanho da letra A +A

A ética e a moral de todos os tempos

[Francisco Miguel de Moura]


 
               Diz-se que a história é a mestra da vida, não podemos esquecer. Através dela, me veio a frase: “Ó tempore, ó mores”, do orador Marcus Tullius Cícero esbravejando contra a corrupção e a canalhice do Senado Romano (106 a.C. – 43 a. C.), especialmente contra Catilina, que queria subverter a ordem da República.  E ao referir-me à frase de Cícero, lembro uma anedota de nossa política que com ela faz trocadilho: Um candidato estava discursando na praça, pedindo o voto, prometendo mundos e fundos... E criticava o governo, seu adversário.  No fogo da palavra, apela para os seus conhecimentos de latim decorado na escola e exclama:

             – Ó termpore, ó mores!   

            Naquele momento, um dos seus ouvintes atento e seu possível eleitor, logo traduz o dictório para o amigo que estava a seu lado:

             – Viu, colega! Ou temperas ou morres.

            Qual o sentido da palavra “temperas”, na boca do eleitor?  - pergunto e fico imaginando. Aqui já estamos no domínio da interpretação, da filosofia (do pensar e do agir humanos).

             Marilena Chauí, em “Convite à Filosofia”, tratando da ética e da moral, começa por explicar as origens das duas palavras: Moral é mors-mores (latim), como está na frase citada, e significa costumes. Já a ética é ethos (grego), que significa “o conjunto de costumes instituídos por uma sociedade para formar, regular e controlar a conduta de seus valores”.  A ética refere-se especialmente a normas estabelecidas por leis, decretos, códigos, etc. e sua interpretação. A moral se volta mais à consciência, às avaliações pessoais, às decisões e atos que pesem na consciência = (saber + sentimento) de cada agente, no convívio social e em plena liberdade. Sei que a maioria dos teóricos tem a mesma opinião de Chauí. Cabe lembrar, de antemão, que nem sempre o ético (a lei) é justo e bom, assim como nem todos os costumes de uma determinada sociedade, em determinado tempo, vão virar lei, posto que a sociedade seja primária, não tem escrita, baseia-se na tradição, enquanto a lei é codificada, escrita, fiscalizada, cobrada e julgada eis que a sociedade é muito complexa e quanto mais moderna mais complicada. 

               Essas considerações me trazem a pelo, um caso que se levantou em minha vida de escritor, ao aceitar responder a uma entrevista a dois estudantes de jornalismo, do quais um é meu neto. Escritor não é profissão. Se não é profissão, que pode ele fazer de danoso contra alguém ou contra si mesmo? Que bem ou benefício poderá proporcionar aos entrevistadores, por ser amigo ou parente? Nenhum. Escritor não é profissão e não tem poder senão o da opinião que todo ser humano tem: a liberdade de pensar e falar.  Há uma grande diferença entre um político e um escritor. O político tem poder ou o aspira, o poder do Estado, o poder público. Poder que talvez possa beneficiar alguém, amigos, parentes... Seria o tal do nepotismo, tão praticado na política brasileira. Uma entrevista concedida por um escritor sobre sua vida e obra não repercute além dos limites da literatura. Não li em nenhum código, ou mesmo estatuto de sindicatos e associações de jornalistas, nenhuma restrição quanto a isto. Tudo dependerá da opção de entrevistado e entrevistador. O caso da entrevista ao escritor está no domínio da moral. Quanto ao do político, é a ética, naturalmente, que preside.  O filósofo Emanuel Kant, em seus profundos estudos, estabeleceu que a norma correta, universal da ação é “agir de tal maneira que esse comportamento sirva de padrão para todos os homens”.  Esta seria uma regra universal do bom costume.

               Deduza-se, finalmente, que os costumes resultam, em primeiro lugar dos exemplos da educação doméstica, da família, da escola, da igreja e na comunidade de amigos, enquanto que a lei é aprendida e percebida depois, na rua, no trabalho, na sociedade. Entre uma e outra existem espaços enormes que devem ser preenchidos pela consciência e pela educação, devendo haver o julgamento do que é certo e do que é errado pessoalmente, nunca por uma lei ou decreto que o estado tenha impingido.
 
Acesse também:

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

14.05.2011 - Entrevista com Francisco Miguel de Moura

06.04.2011 - Acidente nuclear, o que é isto?

28.01.2011 - A ética e a moral de todos os tempos

09.01.2011 - Hierarquia dos valores humanos

16.09.2010 - Biblioteca, com quem deixar?

01.08.2010 - Leituras: do papiro à internet

19.07.2010 - O povo brasileiro, o que é isto?

30.05.2010 - Manhã e poema

07.04.2010 - O morro da casa-grande

11.02.2010 - IWA (INTERNATIONAL WRITERS AND ARTISTS ASSOCIATION)

14.01.2010 - Baby, linguagem moderna

06.01.2010 - Livros, pessoas e coisas

25.11.2009 - A felicidade sem segredos

09.11.2009 - A atomização da persona

04.11.2009 - O papel das academias na sociedade

Ver mais

Dicionário de Escritores Entretextos Editora On-line
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online
Últimas matérias

21.05.2012 - TRÊS MESES NO SÉCULO 81, de Jeronymo Monteiro

Quando será reeditado este clássico da ficção científica nacional?

21.05.2012 - Um poema de Matthew Arnold (1822-1888)

Come to me in my dreams

21.05.2012 - José despede-se

Um septuagenário incorrigível descobre que tem Alzheimer e recusa-se a deixar este mundo sem primeiro fazer as pazes com um velho amigo que em jovem lhe roubou a namorada

20.05.2012 - As aulas vão (re)começar

Carrossel, no SBT

20.05.2012 - ALVAL abre inscrições para preenchimento da cadeira 16

ALVAL abre inscrições para preenchimento da cadeira 16

19.05.2012 - João Bandeira Monte é eleito para ocupar a cadeira 36 da ALVAL

João Bandeira Monte é eleito para ocupar a cadeira 36 da ALVAL

19.05.2012 - XI Prêmio Literário Livraria Asabeça 2012

O prêmio de 2012 contemplará trabalhos inéditos nos gêneros literários POESIA e CONTO

19.05.2012 - Tentativa de golpe eleitoral

O estrago vai ser grande.

18.05.2012 - Ambientes

[Geraldo Lima]

18.05.2012 - Alexandre O’Neill

é um labirinto de vaidades rendilhadas

18.05.2012 - O GEDAM - Grupo Espaço de Dança do Amazonas

O que não falta aos artistas do GEDAM é talento e criatividade!

17.05.2012 - O VELHO CHALÉ DE JOSÉ DE FREITAS (PARTE 1)

..............................................................................................

17.05.2012 - Algumas faculdades europeias e estadunidenses de Jornalismo

Na Europa, uma excelente Faculdade de Jornalismo foi instalada na Universidade Autônoma de Madri, como fruto de um convênio com o conceituado jornal El País

17.05.2012 - NANA, um tratado sobre as relações humanas

Uma complexa e extensa novela gráfica japonesa

17.05.2012 - Terra do Gado

A história e as histórias que reuniu e redimensionou são, ao tempo em que lançam novas luzes sobre a identidade do Piauí, principalmente, um reflexo do ideal de projetar entendimento mais preciso das marcas da “piauiensidade”

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Loja 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br