Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
VIRAGENS
Francisco Miguel de Moura
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A atomização da persona



Francisco Miguel
de Moura*




Primeiro vamos ver o que entendemos por persona (ou pessoa): É o ser humano socializado, consciente, embora carregando no fundo de si o indivíduo. Indivíduo, de onde se deriva o individualismo, seria o homem fora da sociedade ou sem a devida sociabilidade. A criatura é por natureza e essência incomunicável, embora sinta o desejo da troca, da comunicação. O homem duplo. Daí que é muito difícil, senão impossível, uma sociedade de indivíduos. É necessário que os homens se associem a outros através de alguma coisa em comum, pois é aí onde eles se encontram. A natureza é excelência, mas os desejos também. Então vem a organização e o “não faças a outros aquilo que não gostaria que lhe fizessem”. Depois dessas pequenas explicações, estamos mais ou menos concordes em que o indivíduo não terá vinculo sustentável antes de transformar-se em persona.

Estamos falando filosoficamente, porém numa filosofia de base lingüística, o que vem a dar na prática. A sociedade é muito complexa porque composta de muitas cabeças, muitos indivíduos, e com a complexidade dos meios de comunicação (artificiais) mais difícil ficou. Não há sociedade sem o poder, mesmo que simbolicamente. E enquanto o poder ou o sistema lhe dita regras, não apenas dita como impõe, lhe dá o correspondente sedativo para que você não perceba. É a sociedade moderna, o mundo globalizado, neoliberal de mentirinha. Enquanto você é despersonalizado, vai substituindo seu poder de decisão por prazeres fúteis e enganosos: velocidade, fuga do tempo e de si. E com isto o indivíduo sofre por dois lados: por um, vê, perdidos, os seus traços pessoais de desejos e criatividade; por outro, o poder lhe tira seu individualismo, a fim de que você se entregue à multidão, à massa. Uma espécie de atomização. Foi nisto que se tornou o homem ocidental: atomizado, dividido, despersonalizado. Por quê? No cipoal de coisas e solicitações no fundo iguais, mas com cara de diferenças, o homem nada sabe e volta-se para a religião, buscando o que há de ilusório: um paraíso na terra ou no outro mundo (depois da morte). Vive essa dualidade artificial: Deus.


Pela pertinência do assunto, cito aqui Leonardo Boff, num artigo sobre a crise da cultura do Ocidente, o “zen” e o “zen-budismo”, com suas sábias observações, num diálogo imaginado por ele, mas possível na realidade:

– “Que é o “zen”? pergunta um discípulo a seu mestre.

E o mestre respondeu:

– “São as coisas quotidianas; quando tiver fome, coma; quando tiver sono, durma”.

O discípulo, então, lhe disse que era o que fazia todos os dias.

- “Sim, respondeu o mestre. Mas”...

– “Mas o quê, mestre”?

– “Os seres humanos normais, neste mundo ocidental, quando comem pensam noutra coisa; e quando dormem, o fazem cheios de preocupação e têm seus pesadelos”.


Bastam estes exemplos para sentir-se que, aqui, o indivíduo se desintegra da natureza, passa a viver uma vida artificial. Torna-se um átomo, uma partícula e não uma parte. No mundo em que vive o homem está sempre querendo impor uma lógica fora de si, fora da natureza. Leonardo Boff explica que o “zenbudismo” não é uma religião, é uma atitude do homem perante si e a natureza.

Conclusão: Lógica ocidental: quanto mais longe da natureza, mais desintegrado e melhor. Lógica oriental: a natureza é mãe, premia e castiga, dependendo de sua posição nela e diante dela. A persona do oriente não desaparece, fica mais concorde com o indivíduo. É como se o corpo e o espírito se unissem para chegar a uma vida mais humana, pacífica, civilizada, plena. O certo é que a cultura ocidental, atomizada e globalizada, só pode ter seus dias contados. Pois pretende, depois de acabar com o indivíduo, atomizar a pessoa e liquidar com as condições de vida natural no planeta Terra.


Crédito da imagem:
http://portugaldospequeninos.blogspot.com
 

___________
Francisco Miguel de Moura - Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, mora em Teresina,

 

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Comentários (1)

Ainda bem meu amigo Cirandinha que esse indivíduo duplo e egoísta, em alguns, há o equilíbrio da vida artistica. Bela página filosófica.

João Pinto
postado:
10-11-2009 02:29:54

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