Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 23 de junho de 2017
TRIBUNA DA PALAVRA
Ronaldo Cagiano
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A poesia segundo Cassas

[Ronaldo Cagiano]

Já estava faltando à bibliografia brasileira uma edição à altura da qualidade e da importância da poesia do maranhense Luis Augusto Cassas, um escritor que vem fazendo de sua militância literária um profundo exercício de reflexão existencial e uma proclamação da necessidade da poesia nesse tempo em que há pouco espaço para a virtude do pensamento e do mergulho poético nos dilemas que nos rodeiam.

Com a recente edição de “A poesia sou eu – Poesia reunida”, em dois volumes (Ed. Imago, Rio, 2012, 1366 pgs, R$ 127,50), vêm a lume 16 títulos publicados e outros 4 inéditos. Nesse vasto percurso poético de Cassas, está mapeada sua incursão pelas diversas vertentes que a sua palavra-testamento e seu verbo-testemunho são capazes de comunicar, desde a relação lírico-sentimental do poeta com suas raízes afetiva e geográficas até a visão crítica e questionadora da realidade, sem contudo desviar-se pelo panfletarismo ou a apologia política.

Em Cassas, tanto o poema de viés  sentimental quanto a busca da razão crítica, convivem simbioticamente como expressão ou instâncias deflagradora de um olhar peculiar e cirúrgico, estabelecendo um modo de ver e sentir de um poeta antenado com as angústias humanas e as emergências do seu tempo.    Como diz em seus poemas  – “O homem / é animal poético/ em pleno verão”; “Embora o olho não perceba, sabe-o o coração” – Cassas é o ser da escritura em todas as estações, o homem da consciência inquiridora, o poeta que ausculta o íntimo para desvelar não apenas os segredos da alma, mas des(a)fiar o labirinto psicológico e as agruras sociais. Com sua voz aguerrida, não se constrange diante mazelas e do escalonamento de valores sociais, políticos e religiosos, nem das falta de armas, porque a sua – a palavra afiada e intimorata – está prestes a irromper como lâmina mordaz para combater o bom combate contra a mediocridade contemporânea:  “o dinheiro é um deu$ terrível/ que go$ta de $er adorado face a face/  e paga à vi$ta o$ seu$ milagre$/ condecorando o$ vivo$ com moeda$ na língua/ para ab$olvê-lo$ da ferrugem do $ol do$ mi$erávei$”.

Na produção de Cassas há um trânsito multifacético pelo universo formal, estamos diante de um poeta que não se prende a fórmulas, igrejas estéticas ou modismos, sua arquitetura verbal funde elementos de diversas escolas. Da tradição à vanguarda, do clássico ao moderno, seu artesanato funciona como ambiente propício à (re)criação, à renovação da linguagem, à busca de experimentações, no entanto, sem aquela sensação de provocação  gratuita e falsa invencionice muito em voga em certa poesia hoje em curso no Brasil, que se sustenta mais pelo contorcionismo do que pelo talento, criatividade ou versatilidade.

Neste poema – “Somos feitos de nós,/ nós na garganta,/ nós no peito,/ nós nas tripas,/ múltiplos nós,/ todos os nós,/ todos nós,/ nós todos.” – o poeta transcende o mero jogo de palavras e a intenção aliterativa para sustentar a crítica, em alto e bom som, em estilo peculiar e estilhaçador, do estágio a quem chegou não a humanidade, mas própria arte (ou a própria poesia), perdida no cipoal de contradições e nós que a inviabilizam, é símbolo ou metáfora da atmosfera (ou das contradições) em que estão mergulhadas a vida e a poesia nesse (vário) tempo de coisificação e etiqueta.

Em sua oficina criativa o recurso da intertextualidade e da metalinguagem estão muito presentes e funciona como reafirmação de que a poesia não é somente ele (contrariando o título da antologia pessoal) mas os poetas e o mundo de que somos feito, o talento povoado de outras leituras (do mundo e de autores). Luis Augusto Cassas deambula pelos livros, por autores antigos e contemporâneos, dialoga com outras artes e linguagens. Na busca irrefreável de matéria e circunstância para sua confissão poética, sua palavra implode a ordem das coisas, nada lhe escapa, tudo é fiel leitmotiv para uma tentativa de compreender o que aí está. Mesclando o ácido das constatações com o humor e a ironia,  flertando com idéias e sentimentos que guardam similitude com suas preocupações oníricas e filosóficas, com seu sentimento (do peso) do mundo, pois sabe que viver traz em si a mirada caleidoscópica, ao mesmo tempo a sensação de estarmos num eterno carrossel que nos liquidifica e transtorna, em que tudo é um jogo de antagonismos, um embate entre paradoxos e possibilidades, uma peleja entre realidades dicotômicas, e agente feito Sísifo: “girar girar/ como um pião/ girar girar/ no centro do furacão/ rumi girando anti-rotação/ dissolvendo os hemisférios/ no sol do coração/ Hegel / redemoinhando/ ascendendo ao reino/ das aparências em união/ davi — velocidade da pomba —/ dançando ao redor da arca/ enlouquecendo a tradição/ girar girar/ como um pião/ girar girar/ até a compaixão”.

Poeta por vocação, inspiração, dedicação e paixão, Luis Augusto Cassas vê agora seu nome e sua obra reconhecidas. Nesses dois volumes faz –se justiça e contempla-se a verdadeira dimensão humana de seu trabalho, além de consolidar uma safra da mais alta voltagem. Um poeta sem meias palavras, porque lavratura –  inteira e indomável! – traz no bojo a essência de sua luta, na mesma linha do que  nos dizia o saudoso poeta carioca-brasiliense Fernando Mendes Viana: “A função da poesia é brigar nas trevas.”

(Ronaldo Cagiano, escritor, reside em São Paulo)

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