Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 23 de junho de 2017
TRAVESSIAS - MIRIAN DE CARVALHO
Mirian de Carvalho
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DISTRAIDAMENTE

               

 

I

Tal aquele barqueiro distraído

que perdeu a isca e fisgou o remo ao pescar

a lua, eu queria  escrever distraidamente.

E encurvar o anzol até fechar-se um círculo

para que minhas palavras não caiam

em tentação.

 

Quando engulo abstrações, morro de tédio.  

Por isso, para sobreviver, meu devaneio

desce ao chão e distende-se numa caminhada.

E ao pisar na relva meus passos

estalam folhas secas.

 

Mas não é por maldade que piso

nas coisas da terra. A elas meus sapatos

irmanam-se no ímpeto que as faz

viver na simplicidade do cotidiano

a engendrar bichos de nuvem.

 

E distraidamente mantemos

o fôlego.

II

Eu queria saber escrever distraidamente.

Eu queria esquecer até o que já foi escrito.

E poder repetir a esmo:

 

Intumescido ventre guardando

cinzas em asas de sombras.

 

Extinto o fogo da manhã,

endurecidas águas de cristal

engolindo o olhar e o falo

de Narciso.

 

Neste casulo se esconde 

a linguagem fechada em si

a pressentir o sono

do tempo.

 

Flores a pulsar.

 

 

 

 

 

 

III

De modo espontâneo, eu queria saber

guardar nestes versos as cores do calor,

sob esquiva seara de argila fecundada

pelo sêmen do mundo.

 

Distraidamente, eu queria seguir a ascese

do tempo aos Ramos de Domingo

para consultar o oráculo

das palmas verdes.

 

Distraído tempo de meditação,

preparando meu alimento.

 

De violetas.

De orações.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

IV

Eu queria saber segurar o tempo.

Eu queria saber segurar o tempo

que se vai. Que retorna. Porém

aprendi que ele também morre.

Retê-lo vivo em minhas mãos,

só por distração. Minha.

Ou dele.

 

Eu queria saber segurar

o tempo. Mas não sei.

 

Senti-lo eu posso.

 

Sentindo que a memória não enxuga

lenços e lágrimas, ponho a roupa na corda.

E percebo que, imitando o vento, o tempo

vem. E vai. Livre. Feito balão de festa junina.

E quando o tempo vai e vem, sei que ele

está vivo. Vivinho. Nos meios-tons

da pele. Nas meias palavras,

desvelando-se à vida.

 

Segurar o tempo vivo

é quase impossível.

V

Distraidamente, eu começo a fazer

o doce de laranja com açúcar mascavo.

E preparo a infusão de rosas que

na licoreira fica da cor das cerejas.

 

Longe, muito longe, ainda me lembro.

Tinha goiaba. Tinha pitanga.

Tinha amora.

 

Mas no quintal daquela casa, não havia

lugar para dispersões. Os dias carregavam

as horas ante o mato a crescer

em direção ao fim do mundo.

 

Naquele lugar ninguém andava distraído.

Mas já se vai muito tempo. Quero agora

preparar a sobremesa de maçã.

E o licor de ameixas.

 

Era isso mesmo que

eu estava fazendo?

 

 

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