Dilson Lages Monteiro Sábado, 27 de agosto de 2016
TODAS AS ARTES
Atualização diária
Tamanho da letra A +A

Terra dos Homens, Antoine de Saint Exupéry

Terra dos Homens, Antoine de Saint Exupéry

PDF

Imprimir

E-mail

 

Saint Exupéry pilotava aviões nos tempos heróicos da aviação comercial - tempo em que os aviões voavam a mil, dois mil metros e, nos dias de céu limpo, podia-se admirar a paisagem lá em baixo. Foi ele um dos primeiros pilotos da Air France a estabelecer a rota do correio aéreo para a África e a América Latina, enfrentando, com instrumentos rudimentares, as travessias do oceano, Sahara, Patagônia e Cordilheira dos Andes.

Pilotando os pequenos aviões na quietude de noites estreladas ou sobrevoando durante horas de um dia interminável a imensidão de desertos e de planícies despovoadas, Saint Exupéry perscrutava agudamente a alma humana. Surge dessa reflexão uma proposta humanista muito peculiar, que entusiasmou muita gente nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial.

Panes eram comuns nos tempos heróicos da aviação comercial e nem sempre tinham conseqüências fatais. Os aviões eram menores, menos velozes e planavam com facilidade. Porém, escapando da morte na queda do avião, pilotos e mecânicos tinham de lutar pela vida na caminhada em busca de socorro. Terra dos Homens narra vários desses episódios nos quais foram os valores morais que levaram esses homens a fazer enormes sacrifícios e a encontrar insuspeitadas reservas de energia para vencer desertos, neves eternas, hostilidades de beduinos sublevados.

  livro_terradoshomens_pq.jpgNão se trata, porém, de livro de aventuras ou de explorações. Terra dos Homens é, na verdade, uma amorosa meditação sobre o senso de responsabilidade; o valor do coleguismo, o prazer de uma conversa solta numa roda alegre após um dia duro de trabalho; a emoção de ver o sol se pôr na imensidão do mar, a alegria do aceno da menina aos pilotos que, na rota para o Chile, sobrevoavam um rincão perdido da Patagônia - episódios de um poema em prosa que celebra a natureza, o sentido da vida, a dignidade do trabalhador.

  Não falta, porém, no humanismo de Saint Exupéry, a condenação enérgica do sistema que "tem jardineiros para fazer lindos jardins, mas não tem jardineiros para cuidar dos homens". Ao passar por um vagão de segunda classe de um trem que levava pobres imigrantes poloneses para trabalhar na França, ele clama: "O que me atormenta, não são nem a magreza famélica nem as costas encurvadas, nem a feitura dessa gente. É ver um pouco, em cada um desses homens, Mozart assassinado".

  Terra dos Homens: um livro importante, que faz apelo ao melhor que existe dentro de cada um de nós.

 Publicado originalmente no Correio da Cidadania 



Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna
Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

25.08.2016 - HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo XVIII

É um bicho muito malvado, perigoso, valente, feio, cabeludo e fedorento, mistura de lobo e homem.

25.08.2016 - COPACABANA, COPACABANA

COPACABANA, COPACABANA

24.08.2016 - A RUA DAS FLORES

A RUA DAS FLORES

24.08.2016 - O FUTURO DO PAÍS EM NOSSAS MÃOS

O FUTURO DO PAÍS EM NOSSAS MÃOS

23.08.2016 - A CRÍTICA NÃO PODE MORRER

Creio que o estado

22.08.2016 - The Gentlemen's Alliance 10: a chocante verdade

O penúltimo volume do mangá "The Gentlemen's Alliance" é o mais dramático de todos.

22.08.2016 - OS CARAMUJOS: POEMA DE MANOEL DE BARROS

poesia

22.08.2016 - FESTA

FESTA

20.08.2016 - A CASA ONÍRICA

A CASA ONÍRICA

20.08.2016 - Padroeira e Protetoa dos Ciganos.

Nossa Senhora da Esperança, querida e amada !

19.08.2016 - TURQUIA E SÍRIA: AUTORITARISMO A CAMINHO E PERSISTÊNCIA DA GUERRA CIVIL., RESPECTIVAMENTE

Tendo iniciado seu mandato

19.08.2016 - OS SONHOS COMO PRINCÍPIO DAS ESPERANÇAS ÀS VEZES PERDIDAS

OS SONHOS COMO PRINCÍPIO DAS ESPERANÇAS ÀS VEZES PERDIDAS

18.08.2016 - HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo XVII

Muitos chegavam a dizer que a filha “desonrada” era um “dedo cortado fora”. Não servia para nada.

17.08.2016 - A NOITE SOBRE A NOITE

Toda vez que se lê o poema se tem dele outro sentido, diferente lógica.

16.08.2016 - E SE DILMA ROUSSEFF, A PRESIDENTA, VOLTASSE?

Temer é interino

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br