Dilson Lages Monteiro Domingo, 21 de dezembro de 2014
TODAS AS ARTES
Atualização diária
Tamanho da letra A +A

Terra dos Homens, Antoine de Saint Exupéry

Terra dos Homens, Antoine de Saint Exupéry

PDF

Imprimir

E-mail

 

Saint Exupéry pilotava aviões nos tempos heróicos da aviação comercial - tempo em que os aviões voavam a mil, dois mil metros e, nos dias de céu limpo, podia-se admirar a paisagem lá em baixo. Foi ele um dos primeiros pilotos da Air France a estabelecer a rota do correio aéreo para a África e a América Latina, enfrentando, com instrumentos rudimentares, as travessias do oceano, Sahara, Patagônia e Cordilheira dos Andes.

Pilotando os pequenos aviões na quietude de noites estreladas ou sobrevoando durante horas de um dia interminável a imensidão de desertos e de planícies despovoadas, Saint Exupéry perscrutava agudamente a alma humana. Surge dessa reflexão uma proposta humanista muito peculiar, que entusiasmou muita gente nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial.

Panes eram comuns nos tempos heróicos da aviação comercial e nem sempre tinham conseqüências fatais. Os aviões eram menores, menos velozes e planavam com facilidade. Porém, escapando da morte na queda do avião, pilotos e mecânicos tinham de lutar pela vida na caminhada em busca de socorro. Terra dos Homens narra vários desses episódios nos quais foram os valores morais que levaram esses homens a fazer enormes sacrifícios e a encontrar insuspeitadas reservas de energia para vencer desertos, neves eternas, hostilidades de beduinos sublevados.

  livro_terradoshomens_pq.jpgNão se trata, porém, de livro de aventuras ou de explorações. Terra dos Homens é, na verdade, uma amorosa meditação sobre o senso de responsabilidade; o valor do coleguismo, o prazer de uma conversa solta numa roda alegre após um dia duro de trabalho; a emoção de ver o sol se pôr na imensidão do mar, a alegria do aceno da menina aos pilotos que, na rota para o Chile, sobrevoavam um rincão perdido da Patagônia - episódios de um poema em prosa que celebra a natureza, o sentido da vida, a dignidade do trabalhador.

  Não falta, porém, no humanismo de Saint Exupéry, a condenação enérgica do sistema que "tem jardineiros para fazer lindos jardins, mas não tem jardineiros para cuidar dos homens". Ao passar por um vagão de segunda classe de um trem que levava pobres imigrantes poloneses para trabalhar na França, ele clama: "O que me atormenta, não são nem a magreza famélica nem as costas encurvadas, nem a feitura dessa gente. É ver um pouco, em cada um desses homens, Mozart assassinado".

  Terra dos Homens: um livro importante, que faz apelo ao melhor que existe dentro de cada um de nós.

 Publicado originalmente no Correio da Cidadania 



Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna
Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


São Bernardo no olhar de Ricardo Ramos Filho


Listar todos
Últimas matérias

20.12.2014 - O TEMPLO QUE CONTEMPLO

O TEMPLO QUE CONTEMPLO

19.12.2014 - Brasília: a farra dos salários e o Natal dos neo-marajás

Quem me disser

18.12.2014 - BAQUAQUA

Que aqueles ‘indivíduos humanitários’ que são a favor da escravidão se coloquem no lugar do escravo no porão barulhento de um navio negreiro

18.12.2014 - NEUZA MACHADO: O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE

NEUZA MACHADO: O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE

18.12.2014 - CONFISSÕES DE UM JUIZ E OUTRAS (IN)CONFIDÊNCIAS

"Pois não é que, em poucos minutos, devorei mais de 20 páginas?"

18.12.2014 - A CATEDRAL

A CATEDRAL

16.12.2014 - Storytelling sugere Storyliving

A vida de cada um é uma estória sendo encenada

16.12.2014 - NOVA REIMPRESSÃO

NOVA REIMPRESSÃO

16.12.2014 - Rita Pavone: homenagem

Ela ainda está em atividade, com a mesma grandiosidade artística e humanista.

16.12.2014 - O DESERTO DA SOLIDÃO

O DESERTO DA SOLIDÃO

16.12.2014 - Tradução do poema

Beside the ungathered

15.12.2014 - Há um Davidson entre Rorty e Habermas.

Quatro perguntas, quatro afirmações e quatro histórias, mas um único Habermas.

15.12.2014 - Casos raros

A nossa literatura foi, ao longo de décadas, contida e envergonhada em matéria de sexo e corpo.

15.12.2014 - Um prefeito nunca erra

nem mesmo quando está errado...

15.12.2014 - O pai caçula

Quem escreveu a Compadecida, no entanto, foi um rapaz de 28 anos

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br