Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 27 de maio de 2016
TODAS AS ARTES
Atualização diária
Tamanho da letra A +A

Terra dos Homens, Antoine de Saint Exupéry

Terra dos Homens, Antoine de Saint Exupéry

PDF

Imprimir

E-mail

 

Saint Exupéry pilotava aviões nos tempos heróicos da aviação comercial - tempo em que os aviões voavam a mil, dois mil metros e, nos dias de céu limpo, podia-se admirar a paisagem lá em baixo. Foi ele um dos primeiros pilotos da Air France a estabelecer a rota do correio aéreo para a África e a América Latina, enfrentando, com instrumentos rudimentares, as travessias do oceano, Sahara, Patagônia e Cordilheira dos Andes.

Pilotando os pequenos aviões na quietude de noites estreladas ou sobrevoando durante horas de um dia interminável a imensidão de desertos e de planícies despovoadas, Saint Exupéry perscrutava agudamente a alma humana. Surge dessa reflexão uma proposta humanista muito peculiar, que entusiasmou muita gente nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial.

Panes eram comuns nos tempos heróicos da aviação comercial e nem sempre tinham conseqüências fatais. Os aviões eram menores, menos velozes e planavam com facilidade. Porém, escapando da morte na queda do avião, pilotos e mecânicos tinham de lutar pela vida na caminhada em busca de socorro. Terra dos Homens narra vários desses episódios nos quais foram os valores morais que levaram esses homens a fazer enormes sacrifícios e a encontrar insuspeitadas reservas de energia para vencer desertos, neves eternas, hostilidades de beduinos sublevados.

  livro_terradoshomens_pq.jpgNão se trata, porém, de livro de aventuras ou de explorações. Terra dos Homens é, na verdade, uma amorosa meditação sobre o senso de responsabilidade; o valor do coleguismo, o prazer de uma conversa solta numa roda alegre após um dia duro de trabalho; a emoção de ver o sol se pôr na imensidão do mar, a alegria do aceno da menina aos pilotos que, na rota para o Chile, sobrevoavam um rincão perdido da Patagônia - episódios de um poema em prosa que celebra a natureza, o sentido da vida, a dignidade do trabalhador.

  Não falta, porém, no humanismo de Saint Exupéry, a condenação enérgica do sistema que "tem jardineiros para fazer lindos jardins, mas não tem jardineiros para cuidar dos homens". Ao passar por um vagão de segunda classe de um trem que levava pobres imigrantes poloneses para trabalhar na França, ele clama: "O que me atormenta, não são nem a magreza famélica nem as costas encurvadas, nem a feitura dessa gente. É ver um pouco, em cada um desses homens, Mozart assassinado".

  Terra dos Homens: um livro importante, que faz apelo ao melhor que existe dentro de cada um de nós.

 Publicado originalmente no Correio da Cidadania 



Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna
Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

26.05.2016 - HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo VII

Não sabia Marcos ao certo de que Évora seria invicta, pois não lhe constava que ela tivesse participado de alguma guerra ou batalha.

25.05.2016 - Biblioteca pessoana

Fernando Pessoa, como todos sabem, tinha uma boa biblioteca.

25.05.2016 - Os detalhes da narrativa

Manuais de escrita nos dão o tempo todo conselhos nessa praia.

25.05.2016 - LUIZ FILHO DE OLIVEIRA: POESIA, SÁTIRA E ENIGMAS DA LINGUAGEM

tERCEIRO LIVRO DE POESIA DO AUTOR

25.05.2016 - EM BUSCA DA POÉTICA DE J. G. DE ARAÚJO JORGE

Faço aqui uma breve tentativa de ensaio crítico sobre este grande poeta

23.05.2016 - O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL

Um obscuro deus dorme

21.05.2016 - O vice no ostracismo

Ao menos nesse ponto Temer está coberto de razão. Vamos ver agora como ele se sairá... e que Deus o ilumine.

20.05.2016 - Substativos abstratos e concretos

--- Muita gente me pergunta o seguinte: calor, frio e vento são substantivos concretos ou abstratos? O que responder?

20.05.2016 - LEMBRANÇAS DE RUI BARBOSA

Não sou especialisa das obras de Rui Barbosa

19.05.2016 - HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo VI

Com invulgar atenção leu Tomei um Ita no Norte, do escritor parnaibano Renato Castelo Branco, que num estilo elegante, conciso e cristalino contou muitos fatos interessantes e pitorescos da pequenina Parnaíba de sua meninice

16.05.2016 - QUE NÃO VENHA MAIS UMA TRAGICOMÉDIA NACIONAL

É claro que a permanência

16.05.2016 - A máscara de Sailor Vênus

Resenha do primeiro dos dois célebres mangás da Sailor Vênus, criada por Naoko Takeushi.

15.05.2016 - ENGAJAMENTO E POLIFONIA DE VOZES EM “FILHOS DA MÃE GENTIL”, de José Ribamar Garcia

O livro de José Ribamar Garcia, “Filhos da mãe Gentil”, longe de ameaçar o poder e as instituições, inscreve em suas páginas a mensagem de um escritor engajado, sob a visão sartreana

15.05.2016 - A representação da violência em Teresina

O livro Sabor de Vingança, de autoria do escritor Milton Borges, reúne 28 contos, narrados em 3ª pessoa

14.05.2016 - SEM PAI, NEM MÃE

Sem pai nem mãe, nem parente algum de que tivesse notícia”

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br