Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
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Hora do almoço

HORA DO ALMOÇO

 

Conto de

 

Carlos José Tavares Gomes

 

Sexta-feira, 12h30. Hora do almoço.  Catedral da cidade do Rio de Janeiro.  Avenida Chile.  O suntuoso prédio da Petrobrás.  A   Catedral.  Um homem.   Lá em cima da Catedral...  Tentativa  em  curso de suicídio.   Na mão do anônimo suicida:  um livro,  sendo    desfolhado.  Os transeuntes param.  Olhos fitos.  Mas observam  apressados.  Uns minutos:   polícia, bombeiros, repórteres e o pároco    da Catedral.   Suas paredes:  escadas.  Fácil foi subir?   Como  chegou lá no alto?  O anônimo quase chegou ao céu.  Engarrafamento na Avenida Chile.  Até a Praça Tiradentes.   Mais um pouco:  Av. Passos, Av. Presidente Vargas.  A fita metálica quase na Central.  Dos carros, o insuportável calor.  O  sol.  O almoço.  Alguém comenta:

 

- Vai atrasar o almoço da gente, a sexta-feira...  Vai acabar não pulando...  Quer ver só?!

 

O Pároco:

- Meu filho!  Que coisa feia!  Aqui na Catedral...  Olha os     turistas!

Comentário  geral:

- Vai acabar não pulando.

- É!!  Já vi esse filme.

 

Todos os circunstantes concordam, desapontados. O anônimo continua a despetalar o livro.  Páginas no chão.  Para os espectadores   não  interessam  as  páginas.   Observam  das janelas dos  edifícios comerciais.  Páginas sobre o estacionamento da Catedral.  Os  pivetes agem na multidão: um relógio, uma carteira, uma bolsa...  As prostitutas ficam momentaneamente esquecidas.  Os mendigos não se interessam pelo espetáculo.  Camelôs vendem amendoim, balas, água mineral, picolés, etc.  Papel no chão.  Mais tarde os catadores colherão.  Eles precisam comer, certo?!  Os pedestres, de modo geral, não ligam para as folhas que o anônimo joga, lá de cima da Catedral.  O que eles querem é testemunhar o momento exato do desespero e o átimo do pulo.

Uma cidade-medusa.  Habitada por homens de pedra.

Sexta-feira, 12h55.  Todas as folhas amputadas do livro.  O anônimo só retém na mão direita a capa - parece! - verde.  Para  os espectadores não interessam as páginas, a capa ou o livro.

 

Uma jovem pergunta:

 

- Como é que é paraíba!...  Vai ou não vai?  A hora  do almoço tá terminando.

 

E o público bate palmas para a jovem.  Todos esperam.

Pulou...  A capa e o anônimo paraíba (?) atritam o ar, resvalam na parede íngreme da Catedral.   Em frente à Av. Chile.  Resvalam várias vezes... Um barulho abafado.  Acabou.  A capa do livro segura em sua mão direita.  O trânsito começa a fluir.  Todos abandonam as janelas dos prédios vizinhos.  Os transeuntes são transeuntes agora.   A hora do almoço acabou.  Os escritórios voltam a funcionar.  Negócios voltam a ser feitos.   A  sexta-feira segue.   Mais tarde, depois do expediente, tem hotel, pagode, ou rock, cerveja gelada (caríssima!), baralho, cachaça, michês, putas, esposas, filhos, livros, filmes, teatro, dominó, xadrez...  Depois: sábado, domingo.   Na segunda, alguém, gaiatamente, comentará para os colegas:

 

- Na sexta-feira, um paraíba pulou de cima da Catedral, depois de arrancar as páginas de um livro... 

 

 

 

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