Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2012
REVISTA LUSOFONIA
João Alves das Neves
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Artes Plásticas: EU, O MEU PAI E O PADRE NUNES PEREIRA

Por Nuno Mata (*)

O quase abismo etário afastou-nos do que poderia ser um contacto profícuo. Porque, na essência do nosso trabalho emocional, o desenho e a investigação histórica, teríamos muito que conversar e eu muito que aprender.

Conheci-o na sua casa da Portela, no início dos idos anos noventa, quando ali me desloquei com um amigo em busca de esclarecimentos e informações acerca do Convento de Santo António de Vila Cova de Alva.

Aquela figura frágil e terna recebeu-nos no seu ateliê, como se da sua principal sala se tratasse. Madeira, papeis, instrumentos de trabalho, tudo num caótico amontoado organizado. A íngreme escadaria já lhe custava a subir. E às visitas também, confidenciou-nos. Por isso decidiu-se a riscar no xisto algumas imagens que, posteriormente, fixou nas paredes. “Servem para atenuar do cansaço”, disse. E ali, minuto a minuto, fomos descobrindo um pouco da grandeza do Homem, residente num corpo de baixa estatura e já curvado pelo tempo. Pena que não tivesse, anos antes, apreciado a sua companhia quando o vi pela primeira vez junto à Igreja de S. Bartolomeu, em Coimbra.

O Padre Nunes Pereira faz parte do meu imaginário desde criança. O meu pai habituou-me às suas histórias: como desenhava (e bem) nas aulas de catequese, em guardanapos na hora do almoço, esculpindo a madeira sobretudo motivado pela religião que lhe deu o mister. Embevecido, a cada domingo por ocasião da Eucaristia, apreciava os tectos da Matriz de Coja e, saído dela, os frescos da Casa Paroquial da qual foi o primeiro residente, depois de ter habitado na Casa do Pombal, onde antes, tínhamos em comum a residência na mesma rua de Coja, a que hoje justamente ostenta o seu nome. Em frente daquela casa, passei a infância a ouvir o meu pai, e depois outros, acerca da famosa trempe cojense, da qual Nunes Pereira fazia parte, conjuntamente com o médico Alfredo Rodrigues dos Santos Júnior e o professor José Alves dos Santos. Cativava-se, à época, uma juventude desprovida de televisão, internet e telemóvel.

Naquela casa, hoje desaparecida, respirava-se arte. Embrião dos actuais ATL’s, mas decerto mais humanizada e criativa. E assim nascia uma admiração que, como a sua obra, se prolonga nos anos e insiste em não se deixar levar pelo carcomido das páginas de um livro que se esquece na prateleira dos séculos.

Há quem diga, o que me apraz, que a forma como desenho é idêntica à de Nunes Pereira. O traço, a cor, o minimalismo da linha, a objectividade do plano. Comparo os nossos trabalhos. Eu vejo as diferenças, mas só eu… Contudo, coincidimos no autodidactismo com que riscamos o intocável papel, ou porventura na sensibilidade e na paixão pelas notícias das pedras e das vontades da Beira Serra, ele herdeiro da habilidade de seu pai, eu nem sei muito bem porquê.

Em 1993 iniciei a minha obra monográfica. O meu pai colocou-me nas mãos um pequeno livro: Coja, Princeza do Alva, editado pela Casa do Trabalhador que Nunes Pereira (também) fundou, continuada mais tarde pela Casa do Povo actual. E depressa percebi que se tornaria impossível falar da História desta região sem que se falasse de Nunes Pereira.

O Padre Nunes Pereira deixou um importantíssimo legado que, por hora, apenas os mais interessados valorizam, mas que a História colocará no seu devido posto. Os seus escritos, a sua preocupação na investigação e inventariação do património colectivo é, ainda hoje, o início de qualquer monografia que se preze. E são tantos e tão importantes, cada qual versando o seu tema, a sua terra, as suas gentes, os seus usos e os seus costumes. Daí que qualquer forma de homenagem, de reconhecimento ou de mera lembrança assume uma relevância única.

Também por isso, em conjunto com o Professor João Alves das Neves, ele que é um indefectível apaixonado pela obra do Padre-Artista, decidimos dar corpo a um projecto que traga ao público os artistas da Beira Serra (pintores, desenhadores, …) e nada melhor, no nosso entender, do que começar com um álbum acerca do trabalho do Padre Nunes Pereira, criador transversal a toda a área geográfica destes esquecidos concelhos do interior de Portugal, álbum esse que esperamos possa ser digno do seu legado e cuja saída se prevê para o início do Verão (1).

O Padre Nunes Pereira passou pelas nossas vidas de levezinho, de sorriso sincero e de palavra sossegada. Mas fixou-se na nossa admiração, independentemente da idade. E perdurará, estou certo.

Tal como nos ainda povos primitivos, o principal legado civilizacional passa de pais para filhos, de boca em boca. Eu aprendi com o meu pai a admirar o Padre Nunes Pereira. O tempo fez o resto!

(*) Licenciado em Geografia. Autor de monografias de diversas localidades da Beira Serra e outros escritos.

(1) – A pré-reserva do álbum pode ser feita através do email livros.nunomata@gmail.com ou via CTT, para a morada: Nuno Mata – Rua José Luís Nunes, 3305-151 COJA.

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