Dilson Lages Monteiro Quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
PONTO DE VISTA
Halan Silva
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Os vivos e os mortos

            [Halan Kardeck Ferreira da Silva]

            Talvez o melhor conto de Os dublinenses (Dubliners-1914), do escritor irlandês James Joyce (1882-1941), seja Os mortos. O cineasta John Huston (1906-1987), já bastante debilitado, o transformou em filme: The dead (1987), que em português recebeu o título Os vivos e os mortos. Como no artigo anterior, volto ao universo literário de James Joyce para tratar de um assunto alheio à temática de Os dublinenses - a situação atual da literatura piauiense.

            Em 1952, ano do centenário de Teresina, o poeta H. Dobal (1927-2008) escreveu um livro de crônicas denominado Roteiro Sentimental e Pitoresco de Teresina. Com exceção do autor, ninguém àquela época se interessou pela obra. Após peregrinar por diversos Estados brasileiros, pela América do Norte e por alguns paises do continente europeu, o poeta retornou para Teresina. Na bagagem, trouxe os originais do Roteiro Sentimental e Pitoresco de Teresina, que guardou consigo durante cinqüenta anos. De posse desses originais, o professor Cineas Santos (1948), após acatar uma sugestão do cartunista Albert Piauí, os editou em folhetim no Jornal da Manhã (graças ao empenho incondicional do jornalista Kenard Kruel). Finalmente, em 1992, com o apoio do prefeito de Teresina, o ex-deputado Heráclito de Sousa Fortes (1950), o professor Cineas Santos conseguiu colocar o Roteiro Sentimental e Pitoresco de Teresina no pacote editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves.
            A sociedade é devedora insolvente dos escritores piauienses. O Estado e os Municípios, esses com raríssimas exceções, não adquirem livros de nossos escritores para o acervo das bibliotecas ou para as escolas da rede pública. As escolas privadas não costumam adotar obras de autores locais e as livrarias, salvo a Livraria Nova Aliança, mantêm sérias restrições para comercializá-las. No que concerne às edições, lamento informar que o Projeto Petrônio Portella, apesar do que esse nome representa, acabou. A Fundação Cultural Monsenhor Chaves anda claudicando, já não edita como nos tempos do professor Raimundo Wall Ferraz (1932-1995). No setor privado, após o fim da Editora Corisco, da morte do professor Marcílio Flávio Rangel de Farias (1956-2006) e da saída do professor R. N Monteiro de Santana (1925), as edições sofreram um baque. Recentemente apareceu por aqui um livreiro cearense, de Juazeiro do Norte, Leonardo Dias da Silva que, incentivado pelo romancista Assis Brasil (1930), fez um esforço tremendo e editou uma porção de escritores piauienses contemporâneos (além de tratar com respeito os nossos escritores). A ideia dele era levar os autores piauienses às escolas, mas elas se mostraram refratárias, apesar do currículo ser flexível. Tristeza: ele confessou que vai encerrar sua atividade de editor. A Academia Piauiense de Letras parece estar mergulhada num sono letárgico. Não publica a contento e não demonstra ter uma política definida em favor de nossa literatura. O conselho Estadual de Cultura, nesse quesito, especificamente, parece viver nos melhores dias de marasmo. As universidades, UFPI e UESPI, há anos estudam dois ou três autores e nada mais fazem. Nossos parlamentares são ocupados demais para perder tempo com cultura e educação. Por fim, como se não bastasse, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) desferiu o tiro de misericórdia na literatura piauiense, que foi banida do “vestibular”. Por outro lado, o ENEM deu um basta nos famigerados resumos que instrumentalizavam, banalizavam, negavam aos estudantes incautos a remota possibilidade conhecer de perto a literatura piauiense. Desamparados, os exploradores de resumos passaram a explorar os mortos publicando obras que caíram no domínio público, menos mal.

            No artigo anterior afirmei com pertinácia que o requisito primeiro ou último para ser um autor bem sucedido no Piauí era ser aclamado e/ou premiado nos grandes círculos literários do país. Desfaço em parte a assertiva, pois um dos nossos melhores contistas contemporâneos resta ignorado no Piauí (a situação está ficando pior). Refiro-me ao escritor parnaibano Carlos Alberto Castelo Branco (1944), autor de Essas abomináveis criaturas de Deus (1989); de A máquina de pensar bonito, contra o medo que o medo faz (1986), prêmio Instituto Nacional do Livro, de 1984, para literatura infantil; de O pai que virava bicho (1986), prêmio Monteiro Lobato, 1985, da Academia Brasileira de Letras. Portanto, o pior lugar para os escritores piauienses é o Piauí.   

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