Dilson Lages Monteiro Quinta-feira, 23 de maio de 2013
PÉ DE PÁGINA
Dílson Lages
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Antônio Sampaio, Joaquim Pires e as memórias de um tempo

[Dílson Lages Monteiro]

Faz alguns anos li O velho Samuel, obra regionalista, ao modo de Zé Lins do Rêgo, escrita por Antônio Sampaio Pereira. Agora a releio,  depois de  me chegar  às mãos, ofertadas pelo autor, Obras Reunidas - reunião de estudos historiográficos, poemas, causos e o romance aludido, sobre o qual em breve comentarei.

Li quase todos os livros na semana em que os recebi. Adentrei  até a madrugada, para conciliar a leitura com as imposições dos compromissos profissionais. É um autor impulsionado pela força da memória – os fatos e circunstâncias que viveu adquirem expressividade, filtrados pela habilidade em selecionar o que apresenta relevância para a posteridade, quer como documento histórico, quer como matéria literária no seu sentido mais específico.

Alguns dias depois da oferta recebida, falei ao telefone com o autor. Muito me emocionei durante os trinta minutos em que pude dialogar com sua lúcida e empolgante sabedoria de 89 anos. Ressaltei de inicio as impressões sobre “Esperantina à luz da história” e a conversa veio natural, como naturais os diálogos de gente afim. Por instantes, quero aqui dizer em expressões gastas, ocorreu-me  “a impressão  de que o conhecia de várias décadas”.

Meu parente Antônio Sampaio Pereira antecipou-se em afirmar que sua avó,  Laudelina Borges Sampaio, era prima de primeiro grau de Custódio Borges Alves, meu ascendente; disse-me isso,  supondo acertadamente, como me revelou, que eu era bisneto de Nelson Pires Alves, filho do velho Custódio, da Fazenda Monte Alegre, de Batalha-PI.

Nossa conversa acabou se dirigindo para a convivência que tivera com o senador Joaquim Pires Ferreira, seu compadre, figura alvo de algumas  de minhas anotações, vindas de memória oral, de pesquisa bibliográfica ou fontes primárias. A propósito do parentesco, recordou-se A. Sampaio de que um dia o senador lhe dissera: “Sangue puxa mais do que cem bois de carro”.

A fala de Joaquim Pires ainda ressoava em sua memória como a repetir-se circularmente. Sampaio frequentara a casa do senador e com ele  convivera, inclusive indo ao Senado, onde possuía  trânsito livre para ao homem público se dirigir sem obstáculos. A estima se confirmava, por exemplo, em 1951; em uma das poucas visitas ao Piauí, Joaquim  encaminhara-se a Esperantina, ao encontro de  A. Sampaio e família.

O senador era, segundo relatou afetuosamente, homem de fino trato. Generoso, amigo, indistintamente, dos piauienses que a ele recorressem. Em certa ocasião, pedira-lhe Pires Ferreira que  propusesse a compra da propriedade Buritis, em Barras, denominada hoje Buritis dos Britos, onde nascera, a fim de ali instalar uma fazenda experimental. Os donos, para tristeza do proponente, não aceitaram a venda.

Entre as diversas recordações das muitas lembranças acerca do senador Joaquim Pires, contou-me A. Sampaio que Pires nutria apreço extremado pelo cunhado e primo  Manuel Rodrigues Lages, de quem conservo fotografias e algumas anotações, um dia a ilustrar livro sobre a Vila de Barras do Marataoã; Lages, antigo dono da fazenda Esperança, berço de uma de minhas raízes no Norte do Piauí, e tronco de toda a família Lages do Piauí. Referindo-se a ele, dizia tratar-se de “Ínclito cidadão”. Certa vez, Joaquim, meninote, na lua da cela da montaria do cunhado, dirigia-se para Boa Esperança, hoje Esperantina, quando no riacho do Bebedouro, a viagem se interrompeu momentaneamente.  Uma sucuri tentava vencer ali as forças de um garote.

Encerramos a conversa ansiosos para que pudéssemos falar mais – ele a ensinar por meio  de suas memórias; eu, com a curiosidade que não cabia em cada anotação, à espera de estender a palavra para data breve. Como combinado.

 

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