Dilson Lages Monteiro Quinta-feira, 25 de maio de 2017
PÉ DE PÁGINA - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Dílson Lages
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Apenas Memórias

[Dílson Lages Monteiro]

Para que servem livros de memórias? O que justificaria o interesse crescente pela produção e pela leitura desse gênero entre nós? O memorialismo tem-se anunciado como espaço para a avaliação da vida, como documento ou interpretação político-social, ultrapassando os limites dos gêneros e situando-se para além do narcisismo que dá origem a essa matiz de escritura. Trata-se de oportunidade para avaliar acontecimentos e figuras, representando-os, com o distanciamento e/ou o comprometimento necessário(s), a fim de que a isenção e/ou o compromisso afetivo, antagonicamente, construa(m) um olhar particular da existência, atirando o leitor para o fundo de situações em que a imaginação vale tal qual a representação da realidade.  

Nas memórias, reminiscências funcionam como pano de fundo para outras intenções. Lembrando, o memorialista relê-se: revive, denuncia, desculpa, silencia, documenta etc. e, enfim, emociona-se; emociona. Reminiscências deixam de ser apenas lembranças, para que aflorem as camadas mais subjacentes da linguagem, as quais dão ao gênero a tonalidade, a partir dos traços mais característicos da personalidade do narrador e da identidade dos tempos e dos espaços que relata, (re)cria ou revive. Compõe-se, assim, o gênero memorialístico de confissões e testemunhos, para condensar uma forma particular de enxergar o mundo e as relações sociais e humanas nele construídas.

Em Apenas memórias (Editora Quartika, 2016), Cunha e Silva Filho, piauiense radicado no Rio de Janeiro, elabora escritura que se impulsiona para adiante do simples relato de situações de foro pessoal e do retrato de pessoas com quem convive ou com quem conviveu; vai além das simples reminiscências e, por isso, a obra atinge dimensão estética. A dimensão estética de suas memórias se fundamenta em dois princípios subjacentes a cada fragmento do pensar e na tessitura circular que remete à própria elaboração do pensamento.  Situando as lembranças entre os acontecimentos vividos no Piauí e no Rio de Janeiro, a tônica da escritura foca-se ora no lirismo, ora na intenção didática subliminar, tônica com duas funções evidentes, respectivamente: recordar, para sentir saudades,  ou para  orientar e avaliar a formação humana, a partir de seu percurso individual nas relações sociais. Esta segunda vertente, linha central de todo o livro.

Ao Evocar a saudade, vê-se o hedonismo escapista do olhar romântico confundir-se com o idealismo não menos romântico, presentes em todo o texto: o prazer em simplesmente sentir saudades (a saudade da mãe, do pai, do quarto-biblioteca, da rua Arlindo Nogueira, da adolescência, da universidade, dos amigos, do subúrbio carioca, ou simplesmente, dos flertes e do amor em forma de contemplação); o idealismo expresso no domínio da língua estrangeira, na ampliação da cultura geral e na conquista da cidade grande em meio às incertezas (a busca por moradia, por trabalho, por novos amigos, pela cultura acadêmica, enfim, pela afirmação de uma nova identidade, alicerçada nos encantos  do saber e da paisagem carioca, nos desafios do magistério e nas novas e frutíferas amizade que conquistou).

Figuram na obra as lembranças da família, das escolas onde estudou, de Amarante de meados de 1940, da Teresina da infância e da adolescência e do Rio de Janeiro a partir de 1964. A mãe Ivone aparece em seus traços físicos; o pai Cunha e Silva, proprietário do Ateneu Rui Barbosa em Amarante, como  diligente professor e combativo jornalista. Teresina é principalmente a biblioteca do pai, onde descobriu o gosto pela leitura. Teresina é os Colégios Domício de Magalhães e, sobretudo, o Liceu Piauiense, onde se intensificou o estímulo para estudar a linguagem e conheceu grandes mestres,como A. Tito Filho, descrito com a pena inconfundível da emoção. Teresina é a lembrança da janela da rua Arlindo Nogueira e a imagem pitoresca dos transeuntes. Teresina é os carnavais de antigamente, especialmente, o último carnaval, em fevereiro de 1964, antes de rumar para o Rio de Janeiro

Figura também em Apenas Memórias o Rio de Janeiro dos espaços conquistados pela força do trabalho, dos livros e do estudo, alimentado pela grandeza do idealismo e da saudade. O idealismo e a saudade do que aprendeu na temporada de quatro anos como funcionário de banco, no estágio no Diário de Notícias, no bico no Diretório Acadêmico de Engenharia da PUC-Rio, na convivência no restaurante Calabouço e na universidade, na amizade de Ribamar Garcia, no casamento com sua amada Elza, nas leituras de sua formação docente, nos subúrbios cariocas etc.

Não poderia encerrar essas palavras sem me remeter a uma das principais estratégias de que se vale o escritor Cunha e Silva Filho para fisgar o leitor. Anota Perelmam e Olbrechts-Tyteca, no clássico Tratado da Argumentação, que toda analogia transforma-se espontaneamente em metáfora. Em Apenas memórias, o narrador, ao eleger os referentes de sua memória afetiva, intercala-os com digressões que funcionam como passagens para julgamentos ou avaliações nem sempre explicitados, mas que, ao modo da construção de uma metáfora, estabelecem novos sentidos ao tópico sobre o qual se detém.

Funcionam as digressões como termos comparantes, tal qual ocorre na metáfora mais convencional, e assim se transferem noções de sentido que dão mais dinamismo ao ato de recordar, estimulando o conhecimento prévio do leitor e seu maior envolvimento na formulação das hipóteses tão peculiares ao ato de ler. Ao utilizar essa estratégia, o narrador funde o memorialismo à crônica e subverte o relato, aspecto que se amplia na natureza alinear que perpassa todo o livro e que, paradoxalmente, dá-lhe unidade. Passado e presente se confundem e se transformam em tempo único, fortalecendo o memorialismo em um de seus traços temáticos valiosos, o não esquecimento.

Lendo Cunha e Silva Filho, surge uma pergunta pontual: “Que controle temos sobre nossas memórias?”. Elas costumam ser como um barco à deriva, que navega ao sabor de nossas percepções, ou um trem descarrilhado que não se sabe onde vai parar. Ao fluxo das lembranças, somos tomados de múltiplas sensações a tal ponto que a razão, não raro, é encontrada nos caminhos do afeto e da emoção.

Em Apenas Memórias, de Cunha e Silva Filho, para além do fundo moral, que comporta estudo detalhado, a lembrança tem sua feição primeira na satisfação de amar o passado, de querer fixar nas dobraduras do tempo o horizonte do olhar, referendando o que disse sobre a lírica Salvatore D’ Onófrio: “Operando na linha da similaridade, por meio de processo psíquico de associação, a lírica encontra relações surpreendentes entre o sentimento do presente, as recordações do passado e o pressentimento do futuro, entre os fenômenos da natureza cósmica e os atributos do ser humano”.

(*) Dílson Lages Monteiro é professor e membro da Academia Piauiense de Letras.

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