Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 21 de maio de 2013
PARADOXO
Margarete  Varela Centeno Hülsendeger
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TRIPLO X - PARTE I

TRIPLO X - PARTE I

 

- Para, Roberto! Já chega! – pedia a mulher.
- Parar? Você quer que eu pare? Essa é muito boa! – retorquiu o homem furioso.
A discussão que começara aos sussurros tinha tomado um rumo totalmente diferente. O homem, descontrolado, gritava, enquanto a mulher permanecia passiva e calma, como se aquela briga nada tivesse a ver com ela.
- Você é quem tem parar! – continuou Roberto – Você! Será que ainda não entendeu que essa sua ânsia de parecer alguém que não é vai ser a nossa ruína?
Cláudia tentava não ouvir. Roberto estava sendo injusto. Ele não conseguia compreender que para ser bem recebida precisava se vestir a altura. Tratava-se de um investimento. Afinal, como iria arranjar um emprego se fosse às entrevistas mal vestida?
- Cláudia, pelo amor de Deus, você está me ouvindo? – voltou a perguntar o marido. – Você se dá conta do que tem feito? Vamos, fale alguma coisa! – pediu irritado com o silêncio.
- Sinceramente acho que você está sendo exagerado. Comprei apenas algumas roupas novas e vou pagar assim que estiver trabalhando
- Você vai pagar?! Desde quando, mulher?! Você não trabalha há mais de 20 anos. Quem você acha que a essa altura da vida vai lhe dar um emprego?
- Roberto, não seja grosseiro. Eu não sou nenhuma velha. Tenho formação universitária e, com alguns cursos de aperfeiçoamento e atualização, logo estarei pronta para o mercado de trabalho. Você vai ver – disse Cláudia confiante.
Esgotado, Roberto se jogou na poltrona. Não sabia mais o que falar. Ficou sentado, simplesmente olhando para a esposa, tentando entender como os dois haviam chegado àquela situação. Casado há quase 22 anos, continuava apaixonado. No entanto, nos últimos tempos ela o estava enlouquecendo com essas despesas absurdas. Não havia dia que não encontrasse uma conta nova e agora até empréstimos em agiotas ela andava fazendo. Ele não conseguia entender.
- Cláudia, querida, por favor, tenha dó – ele voltou a argumentar, mudando o tom da voz. – Prometa que isso não vai mais acontecer. Prometa que você vai se controlar.
Cláudia estava cansada de toda aquela conversa. Roberto não a entendia e jamais a entenderia. Além disso, tinha planos para aquela tarde e não tencionava ficar ali ouvindo sermões de um marido que não lhe dava o devido valor.
- Claro, Roberto, se isso vai deixá-lo mais tranquilo. Prometo não fazer mais nenhuma despesa sem antes avisá-lo. Mas, por favor, podemos encerrar esse assunto? A hora do almoço já passou e tenho um compromisso à tarde ao qual não posso faltar – disse fingindo uma calma que estava longe de sentir.
- Claro, meu amor, eu também preciso voltar ao trabalho. Mas que compromisso é esse? – perguntou Roberto, temeroso que ela estivesse programando uma nova ida ao shopping.
- Nada de mais. Um encontro com algumas amigas.
- Quer uma carona? Posso levar você até lá.
- Não precisa – ela se apressou em responder – vou de ônibus. Afinal, não é assim tão longe.
Quando Roberto finalmente saiu, Cláudia pôde respirar aliviada. Com pressa, foi para o quarto e, depois de trancar a porta, digitou no celular o número que já sabia de cor. Seu corpo só relaxou quando ouviu a voz do outro lado da linha.
- Estou saindo em meia hora – disse ansiosa.
******
- Obrigada – disse à moça que gentilmente ficou segurando a porta para que ele passasse.
Gabriel sempre se esforçava para parecer educado quando as pessoas eram gentis com ele. Afinal, era preciso reconhecer que nem todas eram grosseiras e mal educadas.
Ajeitando melhor os livros debaixo do braço, começou a andar em direção à sala de aula. Desde que voltara a estudar, seu ânimo havia melhorado bastante. O estudo propiciava momentos de desligamento que nenhuma outra atividade era capaz de lhe proporcionar. Embora Pedagogia não tenha sido a sua primeira opção – já havia tentado Psicologia, Direito e até Jornalismo – tinha esperança que desta vez tudo desse certo.
Chegando à sala, logo percebeu que ela já estava cheia. Sobravam poucos lugares onde ele pudesse sentar. Isso o deixou nervoso. Não gostava de espaços apertados. Gotas de suor se formaram em sua testa. Respirando fundo e com calma, como lhe havia ensinado a psicóloga, entrou na sala, fingindo não ver os olhares que alguns dos colegas lhe lançavam.
Sentando-se, perto de uma janela, arrumou o material da melhor maneira que pôde.
- Oi! Posso sentar aqui do lado?
Gabriel levou um susto. Olhando para cima viu um rapaz parado bem diante dele com uma expressão de contentamento que beirava a idiotia. De imediato um sinal de alerta soou em sua mente. O que era aquilo? Por que aquele tipo havia se aproximado dele? Decidiu ignorá-lo.
- Posso sentar do seu lado? – repetiu o rapaz e sem esperar uma resposta foi sentando ao lado de Gabriel.
Os suores frios voltaram e dessa vez com força redobrada. Gabriel recusava-se a olhar diretamente para o jovem. Não queria lhe dirigir a palavra. Queria que ele fosse embora e o deixasse em paz. O colega, no entanto, insistiu:
- Eu tenho observado você nas aulas. Sempre quieto, sem participar muito das discussões. É timidez? – Como Gabriel não respondesse, ele continuou – Pode não parecer, mas eu também sou muito tímido. Aliás, meus amigos dizem que não existe pessoa mais tímida do que eu. Segundo eles, eu sou o rei dos tímidos. Dá para acreditar?
- Não – respondeu lacônico Gabriel. – E se você me dá licença, eu prefiro ficar sozinho.
- Típico. É assim mesmo com os tímidos – respondeu satisfeito o jovem, como se essa resposta mal educada confirmasse todas as suas suspeitas. – Mas, você precisa superar. Isso não pode lhe fazer bem. A timidez atrapalha muito a vida da gente. Quem sabe depois da aula não saímos para tomar um café? Assim, você...
Com um salto Gabriel levantou e atabalhoado saiu da sala sem nem mesmo recolher o seu material. Nervoso foi se esconder no banheiro. Dessa vez nem mesmo o exercício de respiração ajudou a diminuir a ansiedade.
“Quem ele pensa que é? Não posso acreditar que aquela aberração veio falar comigo”, pensava indignado. Seus sentimentos eram confusos. Aquele indivíduo não tinha o direito de se aproximar dele para lhe fazer uma proposta odiosa daquelas. Imagina se ele ia querer sair com aquele sujeito. Talvez estivesse sofrendo algum tipo de punição divina.
Ainda nervoso, verificou se as chaves do carro estavam no seu bolso. Precisava sair dali o mais rápido possível. Precisava se purificar. Ele sabia para onde deveria ir. O único lugar no qual se sentia bem. O único lugar onde receberia a palavra certa para espantar os demônios que o estavam rondando. Sim. Com certeza, o pastor Anselmo saberia aconselhá-lo.
Cauteloso saiu do banheiro olhando para os lados. As aulas já tinham começado. Ninguém a vista. Rápido, seguiu pelo corredor em direção ao estacionamento.
Continua...

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