Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2012
PARADOXO
Margarete  Varela Centeno Hülsendeger
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QUANDO A FUTILIDADE É A NOTÍCIA

QUANDO A FUTILIDADE É A NOTÍCIA

 

Um balcão com 1,5 mil vidros de esmaltes importados, manicures ultra especializadas, designer de sobrancelhas, cadeiras de massagem. Tudo isso é muito mais pode ser encontrado em lugares onde “mulheres que gostam de transformar o ato de ir ao instituto de beleza em um programa com roteiro para durar a tarde inteira”.
Quando li essa matéria, publicada em um jornal de grande circulação, confesso, não sabia se ria ou chorava. Falar de marcas e cores de esmaltes quando estamos a beira de uma crise econômica?! Dizer que existem mulheres que gastam R$ 120,00 só para fazer as unhas quando muitas crianças não têm nem o que comer! Alardear que uma designer de sobrancelhas, responsável pelo look de algumas poucas famosas, dá expediente em um spa de luxo quando os hospitais encontram-se superlotados e as pessoas têm de esperar horas para conseguir atendimento?! Será esse o tipo de “notícia” que uma mulher espera encontrar quando abre um jornal?
Faço esse pergunta por que no mundo real, a maioria das mulheres não tem tempo – e muito menos dinheiro – para gastar em spas de luxo. Muito pelo contrário. As mulheres normais trabalham e, portanto, não podem fazer programas “com roteiro para durar a tarde inteira”. Além disso, elas têm assuntos mais importantes com que se preocupar, de modo que a cor ou marca do esmalte não se encontram entre as suas principais prioridades
Na tentativa de justificar a presença de matéria “tão interessante,” ocupando os espaços de um jornal, alguns poderão dizer que o jornalismo não é feito apenas de notícias tristes ou sombrias, sendo preciso oferecer ao leitor informações que também o divirtam e distraiam dos problemas do dia-a-dia. Certo, esse argumento eu até posso aceitar, no entanto, será que não é um pouco excessivo discorrer sobre spas, unhas, cabelos, plásticas e outras futilidades do mesmo nível quando existem tantos outros problemas – bem mais sérios – exigindo a nossa atenção?
Ao fazer essa pergunta não estou querendo dizer que as mulheres não se interessem por assuntos relacionados com a moda ou a estética. Sim, elas se interessam. O problema está em ocupar páginas e mais páginas de um jornal para divulgar “informações” que, além de serviram a uns poucos privilegiados, para mim, são desprovidas de qualquer interesse jornalístico. Parece que os donos de jornal ou os seus editores, ao darem tanto destaque a esse tipo de matéria, estão debochando de todos aqueles que vivem num mundo onde a marca do esmalte ou o tamanho da sobrancelha não tem nenhuma importância.
Para piorar, a superficialidade desses textos – pretensamente femininos – é tão grande que fica difícil, quase impossível, levá-los a sério. Ao lê-los sinto como se estivesse voltando aos anos 40 ou 50, período no qual as mulheres eram vistas como objetos de decoração servindo apenas para cuidar da casa e do bem estar do marido e dos filhos. É como se os jornais, ao investirem nesses temas, tivessem parado no tempo, pois tais pautas pouco diferem daquelas que eram publicadas há 60 anos. Aparentemente existe uma aposta na idiotização da mulher, como se ela não tivesse capacidade crítica e nem interesse em estar bem informada.
Julie de Lespinasse, escritora francesa do século XVIII, já dizia: “A mulher que se preocupa em evidenciar a sua beleza anuncia ela própria que não tem outro maior mérito”. Portanto, não nego que existam mulheres preocupadas apenas com o estado de seus cabelos ou de suas unhas. Contudo, elas não são a maioria. Ao contrário. As “patricinhas” e as “dondocas” são espécies em extinção. Alguns podem até se surpreender com essa notícia, mas atualmente a maior parte das mulheres está mais preocupada em debater temas relacionados com a economia e a política. A razão é bastante simples: elas sabem que são esses os assuntos que verdadeiramente interferirão sem suas vidas.
Investir de forma abusiva na superficialidade ou na futilidade dos temas voltados para o público feminino é uma estratégia que deve ser avaliada com atenção, pois os efeitos podem não ser os esperados. Há, por exemplo, o perigo de atrair sobre si a raiva das mulheres que não acreditam que a cor dos cabelos ou o formato das sobrancelhas podem vir a mudar a face do mundo. Nenhuma mulher, com um mínimo de bom senso – e consciência social – espera encontrar “notícias” sobre festas, dietas, unhas, cabelos, plásticas ocupando espaços importantes numa imprenssa que se considera séria e em sintonia com as necessidades femininas. E aqueles que ainda não entenderam isso estão, infelizmente, apostando em uma mulher que não existe mais e, como consequência, correndo o risco de vender menos jornais.

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