Dilson Lages Monteiro Quinta-feira, 23 de maio de 2013
PARADOXO
Margarete  Varela Centeno Hülsendeger
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Luzes e névoa

Luzes e névoa

 

Acredito que estou no inferno, portanto estou nele.
Arthur Rimbaud
Quando abri os olhos senti o chão duro e frio debaixo do corpo. Minha cabeça dava voltas e não conseguia lembrar nada. “Ah, meu Deus! Como fui me perder?”, na hora pensei. Sim, eu me perdera e, de alguma maneira absurda, tinha tropeçado e batido com a cabeça no chão. Esse era o motivo mais lógico para a perda de memória e para o fato de estar caída em um lugar desconhecido.
O certo era que não podia permanecer deitada esperando por ajuda. Assim, me forcei a levantar. Enquanto limpava a poeira da roupa, percebi uma estranha neblina me envolvendo. Úmida, fria e tão densa que enxergar através dela era quase impossível. No entanto, para meu alívio, consegui ver dois pontos de luz atravessando-a. Talvez fossem pessoas que, assim como eu, haviam se perdido e tentavam encontrar um caminho de volta para casa. Ignorando um vago sentimento de desconforto, decidi seguir naquela direção.
Estranho. Apesar de perceber o cascalho debaixo das solas dos tênis o silêncio era absoluto. Nenhum som, por menor que fosse. Nada. De repente, os dois pontos de luz oscilaram. Não tive mais dúvidas: esquecendo o cascalho, o tênis e, principalmente, o silêncio, me concentrei em ir até eles.
Mal tinha recomeçado a me mover quando senti algo roçando o meu rosto. Um toque sutil, mas suficiente para me deixar apavorada. “Um inseto noturno”, pensei. Eles ficavam voando de lá para cá e, em noites como essa, com as nuvens encobrindo a luz da lua e das estrelas, nada conseguia pará-los. “Bichinhos. Só bichinhos!”, repeti em voz alta, tentando preencher o vazio deixado pelo silêncio.
Continuei a andar. Insegura, tateava, usando mãos e pés, em busca de obstáculos que pudessem me ferir. Nada. Agora nem mesmo os insetos me incomodavam. Os dois pontos de luz eram meus únicos guias nesse lugar onde as cores e os sons pareciam não existir. Como se respondessem aos meus pensamentos, as luzes voltaram a oscilar. Com medo, acelerei o passo. Se elas se apagassem, a névoa, com certeza, me engoliria.
Cada vez mais ansiosa, percebi que os pensamentos se tornavam vagos, desconexos. Era o nevoeiro. Ele embotava a mente, intensificando o medo do desconhecido. Lágrimas de frustração começaram a escorrer pelo meu rosto.
Novos toques. Um puxão no cabelo solto e emaranhado. Algo agarrando a manga da minha camiseta e depois a bainha da calça. Os toques estavam em todas as partes do meu corpo. Quem ou o quê me tocava, eu não sabia e nem desejava saber.
Gritei desesperada. Nesse momento, compreendi que apenas aqueles dois pontos de luz se interpunham entre a razão, a muito custo mantida, e a insanidade completa. Precisava alcançá-los antes que eles se apagassem, antes que eu ficasse ali, sozinha.
Sem parar de correr notei que as luzes estavam cada vez mais próximas. Um enorme e abençoado alívio me dominou. Onde as luzes estivessem eu encontraria pessoas e elas, não tinha dúvidas, explicariam o que estava acontecendo, dando um fim a toda aquela loucura.
Sem fôlego, cheguei até uma clareira. O silêncio era absoluto. Nada de risos ou frases interrompidas pela surpresa de ver uma mulher desconhecida e desgrenhada sair do nevoeiro. Ninguém correu na minha direção. Parei, avaliando, com o pouco de racionalidade que ainda me restava, a cena diante de mim. No espaço vazio de pessoas apenas um carro parado, era dali que vinham as luzes, dos faróis acessos.
Lentamente, me aproximei. Uma sensação angustiante de reconhecimento tornava o aperto no meu coração ainda mais doloroso. A simples ideia de me aproximar fazia com que um suor frio escorresse pelas minhas costas. Mesmo assim segui em frente.
O carro não parecia batido, no entanto, o motor parara de funcionar. As janelas fechadas impediam a visão do interior. Nos vidros, o ar condensado transformara-se em uma espécie de cortina. Bati. Não houve resposta.
Cansada de sentir medo não esperei mais. Com um puxão abri a porta.
Uma mulher jazia no banco do motorista. Os olhos abertos fitavam o vazio. Ao seu lado uma seringa. Não pude suportar mais. Com o som de um grito em meus ouvidos, senti que o chão me puxava. Caí.
As luzes dos faróis do carro abandonado voltaram a oscilar e, finalmente, se apagaram. Na clareira, o silêncio era completo.

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