Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2012
PARADOXO
Margarete  Varela Centeno Hülsendeger
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DAPHNE - CONTO

DAPHNE - CONTO

 

Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.
Friedrich Nietzsche
A Ovídio
Eu sou uma árvore. Um loureiro. Mas nem sempre fui assim. Na verdade, eu era uma ninfa. Um espírito da natureza. Meus cabelos eram longos e revoltos, meus lábios vermelhos, pequenos e delicados, meus braços, mãos, pés e ombros alvos como a neve. Enfim, eu era bela.
Durante muitos séculos percorri os bosques em paz e segurança. Meu alimento eram as frutas, o ar e a água cristalina dos rios e lagos. Nada me faltava, pois tinha tudo ao alcance das minhas mãos. Enfim, eu era feliz.
Meu pai, no entanto, acreditava que a minha felicidade só seria completa se eu me tornasse esposa e mãe.
- Deves me dar um genro e netos, minha filha – ele repetia sem cessar.
Contudo, para mim, a ideia do casamento era um crime. Um marido e filhos me tirariam a liberdade e me fariam tão comum como qualquer mulher mortal. Assim, um dia, joguei-me aos pés de meu pai e implorei que ele me permitisse desfrutar da eterna virgindade, como aconteceu com a divina Diana. Ele, apesar de relutante, concedeu-me o desejo, mesmo intuindo que a minha beleza seria o maior obstáculo a concretização dessa vontade.
Para as mulheres mortais deve parecer estranho uma moça linda e saudável optar pela virgindade, excluindo o casamento e, consequentemente, a maternidade da sua vida. No entanto, é preciso entender que na minha época quando uma mulher contraia o matrimônio tudo acabava para ela. Tudo! Nada mais de passeios solitários pelos bosques. Nada mais de flertes sem compromisso com outros deuses ou homens mortais. Nada mais de banhos em rios ou lagos de águas cristalinas. Nada mais de coisa nenhuma. Era um tédio ser uma mulher casada. Minhas irmãs ninfas, igualmente lindíssimas, acreditavam que eu era louca, pois para elas seria a glória encontrar um homem – mortal ou imortal – que as desposasse. A verdade é que todas me achavam um pouco esnobe.
Todavia, apesar das implicâncias de minhas irmãs, eu considerava a minha vida perfeita. Portanto, quando soube que havia sido objeto de uma briguinha ridícula entre dois deuses – Apolo e Cupido – fiquei não só surpresa, mas também temerosa. Quando se tratava de brigas entre deuses, tudo podia acontecer e, na maioria das vezes, a corda sempre arrebentava do lado mais fraco. Ou seja, eu.
Apolo havia ganho, recentemente, uma disputa com uma serpente horrível chamada Píton. Usando do seu arco ele cravou mil flechas no corpo do animal. Sentiu-se tão orgulhoso que instituiu os jogos Pítios, pois não queria que a sua façanha fosse esquecida por ninguém. Nesses jogos os jovens que alcançassem a vitória na luta, na corrida a pé ou na corrida de carros, recebiam uma coroa de folhas de carvalho. Enfim, Apolo era mais um daqueles deuses extremamente zelosos das suas capacidades divinas e, por conseguinte, cheio de vaidade e soberba.
No entanto, até esse momento tudo estava bem. Apolo, feliz com a sua vitória sobre Píton; todos aqueles lindos rapazes sendo coroados com folhas de carvalho; minhas irmãs felizes por estarem sendo cortejadas por inúmeros admiradores; e eu satisfeitíssima com a minha virgindade. E tudo teria continuado perfeito, se Apolo não tivesse flagrado Cupido recurvando um arco e retesando a sua corda. Sua indignação foi tão grande que ele resolveu passar uma descompostura no pobre rapaz:
- Que fazes, menino petulante, com arma tão poderosa? - perguntou furioso. – Quem deve trazê-la ao ombro sou eu, que sou capaz de abater uma fera com mão firme, capaz de ferir inimigos e matar a terrível e arrogante serpente Píton.
Segundo me contaram, ele chegou ao cúmulo de dizer a Cupido que ele deveria se contentar em seguir apenas as pistas de quaisquer amores, sem querer elogios que apenas ele, Apolo, seria merecedor. Foi uma baixaria, aliás, totalmente despropositada. Só mesmo alguém vaidoso como Apolo poderia crer que Cupido quisesse usar o arco para sair matando animais peçonhentos. Todos sabiam muito bem quais eram as suas reais aptidões.
Portanto, dá para imaginar o quanto Cupido ficou furioso com semelhante tratamento. Afinal, ele também era um deus, filho de deuses poderosos, e não ia admitir qualquer tipo de desrespeito ou humilhação. Assim, Cupido, enraivecido, jogou sobre Apolo uma praga terrível:
- O teu arco pode atingir tudo, mas o meu também te atingirá. Tanto quanto todos os seres vivos são superados por um deus, a tua glória é inferior a minha.
E dizendo isso ele voou até o alto do Parnaso e da sua aljava retirou duas flechas, com setas bem diferentes. Uma tinha a ponta curva e fina e provocava o amor. A outra era obtusa e feita de chumbo e fazia fugir o amor. Com as duas flechas em mãos mirou primeiro em Apolo, atingindo-o, direto na medula dos ossos, com a seta de ponta curva e fina. Depois procurou alguém contra a qual disparar a segunda flecha.
E adivinhem quem deu o azar de estar mais perto desses dois durante aquela malfadada briga? A linda ninfa de cabelos revoltos, lábios vermelhos e pele alva. Aquela que sonhava apenas em permanecer virgem. Eu, Dafne!
A partir daquele momento, minha vida virou um inferno. Seguindo a risca o destino traçado por Cupido, enquanto Apolo dizia me amar loucamente, eu não suportava estar nem a meio metro da sua “radiosa” presença. Não havia pedra, árvore, rio que pudesse me esconder, pois sempre tinha atrás de mim um Apolo apaixonadíssimo e muito, muito chato.
O pior era a sua forma horrível de conquista. Ele me perseguia como se eu fosse um daqueles animais que ele estava acostumado a caçar. Além disso, ele tinha a convicção que apenas a sua “luminosa” personalidade seria estímulo suficiente para me fazer cair de joelhos aos seus pés. Um dia, depois de a perseguição já durar várias horas, ele chegou ao cúmulo de gritar para quem quisesse ouvi-lo – e aí, é claro, incluída eu – todos os seus atributos divinos:
- Não sabes, imprudente, de quem foges e por isso foges. Reconhecem-me como senhor as terras délficas e Claros e Tenedos e o paço real de Patéria. Júpiter é meu pai. Graças a mim, desvendam-se o futuro, o passado e o presente. Graças a mim os cantos se unem com as notas da lira.
A vergonha era tanta que só queria colocar a maior distância possível entre nós. No entanto, o destino estava contra mim, pois durante a fuga minhas roupas se rasgaram e eu acabei ficando praticamente nua. Naquele momento, o desespero me dominou, pois Apolo ao ver-me quase sem roupa esqueceu o cavalheirismo. Estava claro que ele não iria mais se contentar com palavras. Apolo me queria e, se tivesse de me violar, não pensaria duas vezes em fazê-lo.
Fiquei com tanto medo que corri como nunca antes havia corrido. Contudo, lembrem-se: eu estava correndo de um deus que há séculos acostumara-se a perseguir e a conquistar as suas presas. Portanto, foi com pavor que senti seu hálito em minha nuca e suas mãos já roçando as minhas costas. Em minutos, minha virgindade seria de mim arrancada. Essa constatação levou-me às raias do desespero absoluto.
Assim, cai de joelhos e lancei uma súplica a meu pai, o deus dos rios:
- Socorre-me, pai! Se vós, os rios, tendes um poder divino, muda a minha aparência, culpada de muito agradar!
Não quero, de forma alguma, responsabilizar meu pai pelo o que ocorreu depois. Talvez ele estivesse nervoso. Talvez estivesse sob muita pressão. Talvez ele até tenha interpretado ou ouvido mal o meu pedido. Não sei exatamente o que se passou. No entanto, ao suplicar que ele transformasse a minha aparência, desejei apenas tornar-me um pouco mais feia, com lábios não tão vermelhos ou com uma pele menos alva, até uns quilos a mais estava disposta a aceitar. Enfim, quis somente que o meu aspecto mudasse de forma a não parecer tão atraente para Apolo. Em momento algum imaginei que meu próprio pai me transformaria em uma árvore!
Num piscar de olhos meu peito revestiu-se de uma fina casca, meus cabelos se transformaram em folhas, os braços em ramos e os pés, que há pouco corriam, em raízes presas ao chão. E o meu rosto? Bem, esse desapareceu.
Apolo, apesar de no início ter sofrido um grande abalo, adaptou-se rapidamente a nova situação. Mesmo não podendo mais me possuir, como esposa ou amante, resolveu usar de minhas partes para os seus próprios fins. Assim, meus ramos se tornaram material para suas flechas e minhas folhas passaram a enfeitar eternamente a sua divina cabeça. Agora Apolo podia me tocar a vontade, mas eu não tinha mais como fugir. Cupido conquistara a sua vingança.
Portanto, queria deixar claro o seguinte: mente o mito quando afirma que eu inclinei a copa como se concordasse com a cabeça. Na verdade, eu estava – e em muitos momentos ainda me sinto – furiosa! Afinal, sem desejar, meti-me em uma briga entre dois deuses cheios de vaidade. Sem querer, tornei-me marionete nas mãos de um menino enfurecido e o objeto de desejo de um deus cheio de testosterona. Nunca fui ouvida. Minha vontade jamais foi respeitada. Logo, como poderia concordar com semelhante situação?
Em momentos de profunda tristeza me pego pensando se tudo não teria sido diferente se eu não tivesse insistido tanto em manter a minha virgindade. O que eu ganhei com essa tolice? Nada! Ou melhor, ganhei folhas, raízes e um tronco horrível! Além disso, até hoje – e para sempre – sou obrigada a aguentar os risos e deboches de minhas irmãs, que ao contrário de mim há muito deixaram de ser virgens. Ninguém merece!

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