Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2012
PARADOXO
Margarete  Varela Centeno Hülsendeger
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A DESPEDIDA - CONTO

A DESPEDIDA - CONTO

 

A vida me ensinou a dizer adeus às pessoas que amo, sem tirá-las do meu coração.
Charles Chaplin
Tudo começou, quando no corredor do hospital, o médico, em um tom grave, deu o seu veredicto:
- Lamento, ela só tem poucos meses de vida.
O silêncio foi total. Ninguém tinha coragem de se olhar. O tempo pareceu ficar em suspenso.
- Tem certeza, doutor? – perguntou um deles.
- Sim, os exames, infelizmente, foram conclusivos. Porém, vocês não devem perder a esperança, com o tratamento adequado é possível que ela tenha um pouco mais de tempo, quem sabe, até um ano.
Finalmente, os olhos de todos se cruzaram e o que se pode ler neles foi uma mistura de descrença, desespero e uma profunda tristeza.
- O que vamos fazer? – perguntou Pedro, o mais velho.
- Vamos contar a ela? – quis saber Paulo, o caçula.
- Eu não sei se tenho coragem. Por favor, vamos pensar um pouco mais antes de decidirmos – gemeu Plínio, o do meio.
Eles se afastaram, precisavam de um tempo. Era preciso absorver o impacto daquela notícia, a fim de encontrar o melhor modo de agir.
Enquanto isso, no quarto ela esperava.
Tudo ainda estava muito confuso. As coisas aconteceram muito rápido: o mal estar, as dores que chegaram sem aviso, os médicos, os exames e, acima de tudo, os silêncios e os olhares de todos.
Ela não era boba. Sabia que algo muito sério estava ocorrendo. Sentia-se assustada, não podia negar, mas precisava manter a calma e a tranquilidade. Não podia, por causa de uma bobagem, fraquejar. Querendo ou não, ela sempre havia sido a força de todos eles.
No corredor os irmãos, finalmente, decidiram o que fazer.
Depois daquele dia horrível, seis meses já haviam se passado e ela ainda lembrava-se das palavras que lhe foram ditas naquele quarto de hospital:
- Mãe – disse Pedro, visivelmente perturbado – a situação é séria. O médico explicou que a doença é grave, mas pode ser tratada. Precisas ter forças, o tratamento não será fácil, mas se fizeres tudo direito, podes te curar. Vamos estar junto contigo o tempo todo.
Ao olhar para os três, ela percebeu que essa não era toda a verdade. No entanto, naquele momento, não quis saber mais. A única coisa importante era que havia uma chance de conseguir se curar. E foi a essa esperança que ela se agarrou.
Contudo, apesar de toda a confiança e otimismo iniciais, o tratamento tinha superado todas as suas expectativas. Ele não era difícil: era desumano, brutal. No princípio não quis acreditar que aquilo pudesse estar acontecendo com ela. Afinal, nunca havia feito mal a ninguém.
Passou por todos os estágios que constituíam a trajetória dessa terrível doença: negação, raiva, tristeza e, finalmente, aceitação. Contudo, a pior parte era ver-se tão dependente e fragilizada. Afinal, sempre fora ela que tinha levado a todos pela mão, afastando os problemas e as dificuldades dos seus caminhos. Agora eram eles que se esforçavam em lhe dar consolo e apoio.
Entretanto, a dependência e a fragilidade não eram as suas únicas companheiras. Havia, também, o medo. Tinha receio de expressá-lo em palavras, porém, entendia o seu significado: era o medo da morte. Ela não sabia o que esperar. E se tudo em que acreditara até agora – céu, inferno, anjos e demônios – fosse uma mentira? “E, se, quando chegasse “lá” não encontrasse nada?”,pensava aflita.
Quando deitava à noite, rezava para que tudo fosse um terrível pesadelo. Porém, quando a manhã chegava, logo compreendia que a sua realidade não tinha mudado. Esforçava-se para não pensar, mas havia momentos, principalmente, quando estava só, que era difícil não pensar. E aí o medo e a dor vinham como em ondas prontas para afogá-la. Era nessas horas, cada vez mais frequentes, que ela se escondia para chorar.
Imersa em seus pensamentos não viu quando Paulo se aproximou:
- Mãe, o que houve? Estás sentindo dor? – quis saber ele, assustado, vendo o sofrimento em seu rosto.
Ela rapidamente se recompôs e respirando fundo respondeu:
- Não é nada. Não te preocupa, filho. Estou bem, foi só uma bobagem, logo passa.
Paulo sabia que não era verdade, mas preferiu calar. Não lhe restavam muitas palavras de conforto para oferecer.
- Hoje só estou mais cansada do que o normal – ela explicou, oferecendo consolo a quem devia consolar.
Paulo, como todos os outros, vinha se esforçando para manter o otimismo e o ânimo em alta. No entanto, a verdade era que todos andavam muito cansados. Mesmo que não quisessem alimentar falsas esperanças, sabiam que o tempo estava se escoando rapidamente.
- Agora tudo é lucro. Cada dia, cada hora, cada segundo. Tudo é lucro. – pensava Paulo, lembrando das palavras do médico, ditas há seis meses.
Afastando esses pensamentos, ele voltou a se concentrar na mãe.
- Mãe, precisas de alguma coisa?
- Preciso sim! Gostaria que alguém me levasse para cortar o cabelo. Não quero mais prolongar o inevitável. Se não posso mais me pentear sem ver chumaços de cabelo caindo da minha cabeça, o melhor, então, é raspar tudo e assumir de vez a minha condição.
Paulo não soube o que dizer. Há algum tempo todos estavam percebendo a queda do cabelo, mas não queriam falar nada, para não magoá-la ainda mais. “Nessas horas – pensou ele – é que gostaria de ter uma irmã e não dois irmãos”.
- Tem certeza? Quem sabe a gente espera um pouco mais, pode ser que depois do tratamento ele pare de cair.
- Não. Quero cortar logo, mesmo que ele não caia mais, do jeito que está só me sinto pior. Quero raspar tudo – respondeu categórica.
- Tudo bem. Vou ver se a Lúcia pode te levar.
Uma semana depois, ela estava completamente careca. Seu lindo cabelo havia desaparecido. Era difícil olhar para ela e não sentir vontade de chorar. No entanto, ninguém chorou, pelo menos, não na frente dela. A falta do cabelo foi o primeiro sinal visível de que nada mais seria como antes.
A batalha continuou até que conseguiram completar um ano. Durante esse tempo procuraram não pensar no futuro, o importante era o aqui e o agora. Houve dias muito ruins, mas, para compensar, compartilharam outros muito bons. E de dias ruins e bons lá estavam todos comemorando um ano de vida.
- Se o médico errou uma vez, porque não pode errar novamente? – pensavam todos, tentando se convencer de que um milagre poderia se realizar.
Uma semana depois de terem comemorado um ano de luta contra a doença, notaram que ela estava mais abatida que o normal. Mal comia, ficava na cama a maior parte do tempo e quando tentavam conversar, ela respondia com monossílabos. No início pensaram se tratar de outra crise, no entanto, logo perceberam, que, dessa vez, a situação era mais séria do que queriam acreditar.
Entretanto, eles continuavam agindo como se estivesse tudo bem.
- Mãe! Vamos lá! Mais um pouco de sopa. Lembra de quanto caldo de galinha tu nos obrigavas a comer quando ficávamos doentes? – brincavam eles. Mas ela não comia.
- Mãe! Vamos dar um passeio, o dia está tão lindo! Vem ver o Sol e olha o céu como está bonito, completamente azul! – Ela cansada, sem forças, não queria levantar.
O momento se aproximava, eles sabiam.
Há algum tempo, ela já tinha compreendido que a “cura” era uma ilusão, uma fantasia para fazê-la viver um pouco mais. A luta fora intensa e ocupara todos os dias desse longo ano. No entanto, apesar de sentir uma tristeza profunda por todos aqueles que deixaria para trás, ela precisava continuar em frente.
O medo de morrer havia diminuído. Não que ela quisesse morrer, mas é que agora tudo lhe parecia tão distante, tão sem importância, que a possibilidade da morte não a assustava mais. Nesses últimos dias havia refletido muito sobre a sua vida. Lembrou, com carinho, dos filhos.
Pedro, durante esse período, havia sido a sua rocha. Quando todos fraquejavam, inclusive ela, lá estava ele firme, sustentando-os e apoiando-os. E Plínio? Tão sensível. Sempre disposto a ajudar, mas nem sempre tendo a coragem necessária para fazê-lo. Paulo, o caçula, o único que ainda não havia assentado a cabeça. Tinha esperanças que ele e Lúcia pudessem se acertar, formando, quem sabe, uma família. De qualquer maneira, no final, os três ficariam bem. Um apoiaria o outro e juntos superariam os piores momentos.
Ela suspirou. Estava cansada e todos esses pensamentos só a haviam esgotado ainda mais. Abriu os olhos e viu que estavam todos lá, esperando...
Pedro, Plínio e Paulo aproximaram-se da cama. Pedro sentou-se ao seu lado, Paulo na sua cabeceira e Plínio aos seus pés. Todos esperavam...
Ela não queria os deixar esperando. Ela queria ir, mas ainda precisava fazer uma última coisa. Fechando, então, os olhos, rezou:
- Deus. Sou uma mulher simples, de pouca sabedoria, mas agora diante da minha morte, peço a Vossa ajuda e orientação. Ajuda-me a entender tudo o que aconteceu. Perdoa-me, pois sei que na minha vida, em muitos momentos, deixei-me levar por ações e sentimentos dos quais hoje me arrependo profundamente. Ajuda-me a perdoar todos aqueles que, por ignorância, tentaram fazer-me mal. Ajuda-me a ver o caminho que agora me espera e, principalmente, ajuda-me a aceitá-lo. E, Deus, por favor, protege meus filhos, pois todos, a sua maneira, são bons meninos.
Todos a observaram mexendo os lábios, mas nenhum deles conseguiu entendê-la. A única coisa que conseguiram ouvir foi um longo e último suspiro. Pedro, nessa hora, ficou firme segurando a mão da mãe. Paulo debruçou-se sobre ela e lhe deu um beijo na testa. Plínio, com lágrimas escorrendo pelo rosto, limitou-se a olhá-la sem ter coragem de fazer aquilo que tanto desejava; abraçá-la. E, novamente, como naquele dia no hospital, todos evitaram se olhar, mas no silêncio que se impôs compreenderam que, enfim, o sofrimento havia terminado. Despediram-se, então, e a deixaram partir.

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