Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2012
PARADOXO
Margarete  Varela Centeno Hülsendeger
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A CORTINA BRANCA - PARTE FINAL

A CORTINA BRANCA - PARTE FINAL

 

No recreio, professores, divididos em pequenos grupos, conversavam e brincavam, aproveitando a pausa antes do último turno de aula. De repente, uma das alunas, aos gritos, irrompeu na sala avisando que um dos meninos estava armado de uma faca e prometia matar um colega. Na mesma hora, a maioria dos professores saiu correndo em direção ao pátio, enquanto alguém foi avisar a diretora. Assustada, Marta sentiu o seu coração bater mais rápido.
No meio do pátio, descontrolado, Luis apontava uma faca para o peito de um colega e aos gritos dizia que se ele se mexesse iria furá-lo. Os demais alunos, sem saber o que fazer, permaneciam imóveis, observando apavorados a cena.
Quando teve as suas suspeitas confirmadas, Marta, finalmente, percebeu que aquela simples frase na prova de Luis fora, na verdade, um pedido desesperado de socorro. O outro menino também era seu conhecido. Tratava-se de um valentão, que estava sempre arranjando briga e molestando os colegas mais fracos. Contudo, nem nos seus piores pesadelos ela poderia imaginar que a situação tivesse chegado ao ponto de Luis se sentir forçado a ameaçar a vida do colega.
Lentamente, dois professores começaram a se aproximar de Luis, pedindo que ele depusesse a faca e procurasse se acalmar. Algumas das meninas choravam e as professoras, aparentando uma calma que estavam longe de sentir, as abraçavam tentando tranquiliza-las. Marta aproveitou o momento para também se acercar de Luis.
- Luis, querido, por favor, vamos conversar – ela pediu.
- NÃO! CHEGA DE CONVERSA! ELE AGORA VAI VER! – gritou o menino.
- Luis, pensa na tua mãe, o que ela vai sentir quando souber. Você quer que ela sofra? – perguntou Marta.
- NÃO COLOCA A MINHA MÃE NESSA HISTÓRIA! O MEU NEGÓCIO É COM ESSE MERDA! – voltou a gritar Luis, enquanto se aproximava mais do colega.
À medida que o diálogo prosseguia, um dos professores chegou mais perto do menino. Sua intenção era óbvia, contê-lo antes que ele machucasse alguém. No entanto, Luis percebendo a manobra, ameaçou:
- PODE PARAR! SE CHEGAR MAIS PERTO, EU CORTO ELE!
Enquanto isso o outro menino olhava apavorado para todos, pedindo socorro. Marta fez uma nova tentativa:
- Luis vamos conversar. Tenho certeza que conversando tudo se esclarece e você vai ver que ninguém mais vai te incomodar. Larga essa faca, por favor!
Sem parar de chorar, Luis olhou para a professora e suplicante perguntou:
- A senhora tem certeza, profa? Ele vai me deixar em paz? Tudo vai ficar bem?
Esperançosa, Marta respondeu:
- Tenho, querido. Ele não vai mais perturbar você. Eu prometo.
Devagar, bem devagar, Luis começou a baixar a faca. O alívio foi geral, pois, parecia que o incidente estava encerrado. No entanto, inesperadamente, com um grito, Luis avançou contra o colega e antes que alguém pudesse detê-lo, ele o esfaqueou. Depois num rompante, para horror de todos, enfiou a faca no próprio corpo.
Os gritos de alunos e professores tomaram conta de toda a escola. Enquanto seus colegas socorriam o menino agredido, Marta correu para segurar Luis. Chorando, ela o apertava junto ao peito. Ele, quieto, nada dizia.
Sílvia estava na enfermaria, ajudando a colocar um gesso na perna de uma criança, quando ouviu seu nome sendo chamado pelo alto falante do hospital. Estranhou que estivessem pedindo sua presença na emergência, pois era o seu dia de atender na sala da ortopedia. No entanto, já trabalhava há muito tempo no hospital para saber que se a estavam chamando era por que algo sério havia acontecido. Provavelmente, algum acidente de trânsito, com feridos graves.
Com calma, após concluir o seu trabalho, foi em direção à sala da emergência. Assim que abriu as portas se deparou com a cena de sempre: médicos e enfermeiros correndo de um lado para outro, doentes sentados em macas, cadeiras e alguns até mesmo escorados nas paredes esperando atendimento. O ruído era ensurdecedor, com todos falando ao mesmo tempo e aos gritos.
Tranquila em meio ao caos, Sílvia foi avançando pelo corredor extremamente cheio. No posto de enfermagem quis saber da enfermeira de plantão para o que a tinham chamado. A colega a olhou de um modo estranho e sem dizer uma palavra apontou para um cubículo próximo ao posto. Ele estava separado do resto do ambiente apenas por uma cortina branca.
Sentada em uma cadeira, ao lado desse reservado, Sílvia viu uma jovem mulher chorando desconsoladamente. “Deve ser um familiar”, pensou. Eram tantas as tragédias que já havia testemunhado que não estranhava mais esse tipo de situação. O sofrimento fazia parte da rotina de um hospital. Portanto, mantendo a calma, dirigiu-se ao cubículo e ia abrir a cortina quando percebeu que a mulher tinha se levantado e estava vindo ao seu encontro.
- A senhora é a Dona Sílvia? – perguntou a desconhecida.
- Sim – respondeu, estranhando que a mulher a conhecesse.
- Por favor, me perdoe, eu não sabia. Juro que não sabia! – disse a moça aos prantos.
Sílvia olhou melhor para a mulher e depois para a cortina branca do reservado. Voltando-se para a pequena sala, Sílvia afastou lentamente o cortinado. Ao lado da maca um médico que ela não conhecia quis lhe dizer algo, mas ela não o ouviu. Como um autômato, foi se aproximando da cama, sem desviar os olhos do vulto que ali estava deitado. Alguém quis abraçá-la, mas ela o empurrou. Nada e nem ninguém iria impedi-la de chegar mais perto. Quando, finalmente, pode ver o rosto que se destacava nos lençóis, um grito agudo e desesperado escapou da sua boca.
Um pouco mais atrás, testemunha daquela cena, Marta, a professora, continuava, entre soluços, repetindo:
- Me perdoe. Me perdoe. Eu não sabia.

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