Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 23 de junho de 2017
PARADOXO - MARGARETE HULSENDEGER
Margarete  Hülsendeger
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DIÁRIO DE UM SOBREVIVENTE - PARTE I

DIÁRIO DE UM SOBREVIVENTE - PARTE I

 Castelo de Benatek, 24 de outubro de 1601.

Nasci de sete meses numa fria manhã de dezembro. Até hoje me pergunto: se meu nascimento tivesse se dado no tempo certo, a minha vida seria diferente? Bobagem! Pensar nos “ses” não vai trazer nenhum alívio e nem alterar o caráter dos meus pais.

Heinrich era um mercenário cruel e nojento que só voltava para casa por dois motivos: para engravidar e bater na minha mãe. Agradeço a Deus não termos convivido por muito tempo. Quando eu tinha apenas seis anos, ele saiu da minha vida para nunca mais voltar. Katharina, no entanto, continua viva. Não é correto dizer isso; afinal, trata-se da mulher que me trouxe ao mundo, mas ela é uma daquelas mulheres que jamais poderia ter concebido. Pequena, magra e malvada, só tem me causado problemas.

Contudo, não pensem que guardo rancores. Na verdade, meus pais não têm culpa. Quando pude estudar mais a fundo seus mapas astrológicos, as respostas estavam todas ali. A violência de Heinrich e a maldade de Katharina foram determinadas pelas suas datas de nascimento. Ambos nasceram sob uma má estrela.

Sou, portanto, um sobrevivente. E como tal tenho vivido.

Ao contrário de três de meus irmãos, que morreram ainda quando crianças, eu sobrevivi. Nunca fui uma cruz pesada para minha mãe e posso dizer, sem falsa modéstia, que graças a mim a família não se transformou em um desastre total. Todavia, precisei pagar um preço alto, pois minha saúde nunca foi perfeita. Sempre padeci de dores de cabeça insuportáveis, febres intermitentes, feridas, pústulas e até mesmo sarna. Meu sofrimento parecia nunca ter fim.

Sim, com certeza, sou um sobrevivente.

Meu único refúgio era a escola. Lá eu estava protegido da loucura da minha família. Os professores gostavam de mim e eu deles. Eles sabiam valorizar meus talentos e nunca demonstraram desprezo ou tentaram me ridicularizar. Tenho uma dívida especial para com o professor Mästlin. Foi graças a ele que aprendi a analisar os fenômenos celestes e a entender as diferenças entre os modelos de Ptolomeu e de Copérnico. Michael foi mais que um professor, ele se tornou o pai que eu nunca tive.

Ao rever minha vida percebo sempre ter estado em busca da harmonia e do equilíbrio. Ao não encontrá-los dentro da família, voltei-me para os estudos. E que conhecimento carrega mais harmonia e significado do que a Matemática? Acredito seriamente que ela é um poderoso meio para estarmos perto de Deus. Meu sonho sempre foi servi-lo e a forma que encontrei foi unir meus dois temas de estudo preferidos, a Matemática e a Teologia.

No entanto, não pensem que sou um covarde. O corpo pode ser frágil, mas o espírito não o é.

Quando aceitei deixar meus estudos no seminário de Tübingen para assumir o cargo de professor em Graz, mergulhei em um mundo cheio de sangue, ignorância, ódio e morte. Católicos e protestantes enfrentavam-se todos os dias, não só nos campos de batalha, mas dentro dos muros das cidades. Minha viagem entre Wurtemburg e Graz transformou-se em uma aventura terrível da qual demorei a me recuperar.

Como foi difícil a adaptação a esse novo ambiente. Eu havia estudado para ser um sacerdote, não um professor. Pela primeira vez senti que não era apreciado pelos meus colegas. E os alunos? Esses me detestavam! Minhas aulas eram penosas, confusas e pouco inteligíveis.

Todavia, apesar de viver angustiado, eu continuava a minha busca pelo que me acostumei a chamar de a “música das estrelas”. Nada se comparava a essa necessidade de sentir, mais do que saber, a verdadeira harmonia do Cosmos. Eu precisava ler a vontade de Deus nas páginas da Criação! E essa leitura só seria possível se o modelo cosmológico mudasse. Precisava abandonar o modelo ptolomaico, entregando-me de corpo e alma ao estudo das ideias de Copérnico.

Agora você deve estar pensando: “Esse homem é um louco!”. Sim! Sou um sobrevivente e um louco.

Quando terminei meu primeiro livro, estabeleci as bases do meu pensamento em torno de três questões fundamentais: Por que existe um número determinado de planetas? Por que estão dispostos a essas distâncias do Sol? Por que se deslocam a essas velocidades?

Com a sua publicação conquistei muitos inimigos entre católicos e protestantes, pois nenhum deles aceitava o modelo copernicano. Talvez minhas respostas torpes tenham contribuído para essa rejeição; contudo, senti que era meu dever levantar essas questões.

Foi mais um período difícil. Meus colegas riam de mim pelas costas, ridicularizando-me. Apesar de nada entenderem, se achavam no direito de criticar como se fossem grandes conhecedores. Sempre me espanto com a crueldade dos ignorantes, ela não tem limites e muito menos piedade.

E agora aqui estou. Encerrado dentro deste castelo, marido de uma mulher detestável e servindo a um homem grosseiro e arrogante.

Bárbara é uma megera gorda e uma simplória reclamona. É como se as estrelas tivessem conspirado contra mim trazendo-me uma mulher em tudo semelhante a minha mãe. Ela me perturba todos os dias, reclamando da nossa situação de “servos” dentro do castelo, quer que eu tome uma atitude, arranjando mais dinheiro e melhorando nossa posição social. A harpia esquece que quando a conheci era uma viúva com um filho pequeno para criar. Eu lhe dei casa, comida e um nome, mas mesmo assim ela nunca está satisfeita.

Para tornar minha vida ainda pior meu empregador é um homem rude, mal-educado e dono, infelizmente, de riquezas que não sabe explorar. Tycho Brahe é o seu nome.

Ele me contratou para analisar e interpretar os milhares de dados que tem coletado dos céus ao longo dos anos. O castelo está equipado com os melhores instrumentos de medida, no entanto, por medo que eu roube suas informações, Brahe até agora não se dispôs a compartilhá-las comigo. Ele apenas me entrega tarefas tediosas, desprezando minhas qualidades como matemático e astrônomo. Essa situação tem deixado meus nervos à flor da pele. Barbara e Tycho conseguem despertar o pior de mim. Meus pensamentos estão sempre cheios de imagens nas quais os vejo mortos.

Preciso encerrar essas anotações (e escondê-las), pois Tycho está oferecendo mais um de seus jantares prolongados e copiosos. Um dia desses, ele irá estourar de tanto comer. Bem que esse dia podia ser hoje.

 

Continua...

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