Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
PARADEIRO
Geovane Monteiro
Tamanho da letra A +A

OUTROS CARNAVAIS

OUTROS CARNAVAIS

 

A juventude engrossa o asfalto, inaugura meu lapso de carro alegórico ou de maizena. Liberto-me da cidade, quando tiro o pé entre barracas e ambulantes até romper, num hit de trio elétrico, o cordão de isolamento. Eis o sambódromo da Avenida João Ferreira. Eu água-branquense do tamanho do que há entre o antes e o depois.

 

De novo carnavalizado. O meu lugar se renova a cada passista, caso pouse despercebido de nós. Semelhante a um segredo consumado no seu abandono, vamos seguindo nada audíveis – em uníssono. Mas os companheiros somem, se durmo num sono que não vem?  Há tantos adereços a valer a pena amar nem bom, nem ruim. Simplesmente dizer: ”Carnaval, eu te amo!” Não é amor de verdade nem de mentira.  É amor. E de tal maneira tramado que a fantasia deixada no chão não é mais que a fantasia do chão. De resto, não há ausência. Há foliões ausentes, porque é preciso ir pegar mais cerveja.

 

Água Branca avança na comissão de frente já sem escola, mas com uma certa Marechal Castelo Branco, sempre quando me fragmento nas novas gerações. O cerrar dos olhos me atinge: estou de Piratas ou de Anjos negros numa tarde arrecadada de vida anterior ao fevereiro. Sim, a cidade natal avança neste peito cheio de Januárias e de Carolinas. Agora sou orgulhoso e a saudade de mim é o samba-enredo.

 

Logo mais, eu instantâneo sem a estranha beleza que comprime, sem o nodoso espetáculo de cores da extinta Avenida Neco Teixeira na fria mudança da iminência. Eis o percurso do bloco durando minha própria existência, quando, orgânico, sigo o esquecimento. Quem sabe outra Avenida numa embriaguez a invocar o novo endereço, sempre menor do que a sobra de mim. O que não me restará quem sabe tomará a vez, repetirá quem se espantou e esqueceu. Talvez, afinal, o samba na impessoalidade. 

 

E tudo assume uma alegoria. Uma latinha demitida no asfalto escoa uma história de paixão toda durante o carnaval. Mas o menino recolhendo as latinhas também possui seu abre-alas. Somado ao carnaval, sua acrobacia não me cabe; ele tem pressa de aurora. Quantos universos aos despojos se reúnem no saco? Quando cheio, também possui sua folia de momo. É minha mais alegre desistência de vida. Vazio é que não se segura em pé. E a forma de ser do saco vazio é minha quarta - feira de cinzas sem forma.

 

No frêmito de outros corpos, o envolvimento com uma repentina solidão a anunciar-me. Minha expressão se perde na multidão: eu encontrável. Eu pagão na festa da própria carne tão útil, enquanto a olho. O mutismo é o que o axé provoca nos outros. É o frevo novo nos prédios, que recolheram a cidade de outros carnavais. 

 

 

 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

22.01.2012 - Travessia

03.01.2012 - FELIZ ANO NOVO!

04.03.2011 - O PARAÍSO DE ANA

06.01.2011 - REDESCOBRINDO TERESINA

17.06.2010 - INOCÊNCIA

09.02.2010 - DONA MARIA

06.02.2010 - PARADEIRO

06.02.2010 - O SEGREDO DA VIDA

15.01.2010 - FORTALEZA

22.12.2009 - E(R) ROS...

03.09.2009 - CARROSSEL

03.09.2009 - A CHUVA

03.09.2009 - OUTROS CARNAVAIS

03.09.2009 - IDENTIDADE

03.09.2009 - A DESCOBERTA DA POESIA

Ver mais

Dicionário de Escritores Entretextos Editora On-line
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos

Twitter

Carregando...
Últimas matérias

09.02.2012 - Antônio de Pádua é eleito titular da Cadeira 48 da ALRESC

Antônio de Pádua é eleito titular da Cadeira 48 da ALRESC

09.02.2012 - Jennifer Egan na Flip

Jennifer Egan na Flip

09.02.2012 - Lucilene Gomes Lima: FICÇÕES DO CICLO DA BORRACHA NO AMAZONAS

Escritores brasileiros abordaram amplamente os ciclos econômicos através de sua prosa.

08.02.2012 - O amante das amazonas: o ciclo sob o olhar de um analista-autor

Dissertação de mestrado: Estudo comparativo dos romances “A selva” (FERREIRA DE CASTRO), “Beiradão” (ÁLVARO MAIA) e “O amante das amazonas” (ROGEL SAMUEL),

08.02.2012 - Manual da criança Caiçara

Manual da criança Caiçara

08.02.2012 - Em memória do cantor e compositor Wando

A arte que resiste às estritas classificações de gêneros de produtos de cultura: [1] tradicional-popular (artesanal, folclórico); [2] erudito (erudito-clássico e erudito-vanguardista); e [3] pop (anticlássico, de ampla audiência)

08.02.2012 - Prêmio Angoulême anuncia seus vencedores

Prêmio Angoulême anuncia seus vencedores

08.02.2012 - Paquistão: Multidão assiste à chegada de um tubarão-baleia morto ao porto de Carachi

O jornal paquistanês The Express Tribune informa que o monstro marinho tem o comprimento de um ônibus escolar

07.02.2012 - A cidade dos contos de fadas

O carnaval de Cerknica, Eslovênia, tem importância mundial equivalente a, por exemplo, o Festival Folclórico de Parintins, Brasil

07.02.2012 - Conceitos da Comunicação de Massa (20)

As 3 revoluções comunicativas, segundo Massimo Baldini, e a quarta revolução, de acordo com, entre outros autores, Massimo Di Felice

06.02.2012 - VARIAÇÕES INTERTEXTUAIS SOBRE A MORTE

..............................................................................................

06.02.2012 - Quem matou o carro elétrico?

Who killed the electric car? é o nome do filme

06.02.2012 - Um poema de Gérard de Nerval (1808-1855)

Je suis le tenebreux

06.02.2012 - NEUZA MACHADO: SOBRE "O AMANTE DAS AMAZONAS"

A “economia política” do Manixi, constituída a partir do momento em que, entre os diversos elementos da riqueza

06.02.2012 - "Bem-te-vi Feiticeiro", libelo ecológico de Thales Andrade

Precisamos iniciar uma campanha para que os valiosos livros de Thales Andrade sejam reeditados

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Loja 21 (segundo piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br