Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
PARADEIRO
Geovane Monteiro
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IDENTIDADE

IDENTIDADE

 

Sem forças para as próprias emoções, o homem tentara ser mais forte do que sua vida. A noção de existência lembrava um invólucro do sentimento ainda em matéria bruta. Ele caminhava nas suas profundezas e, definitivo, o vazio de si não recompunha a face adotada.

 

O homem era sua idade numa fotografia passada. Só fazia par dos trinta e poucos anos, quando lhe indagavam a idade. Não havia expressão para a face interrogativa dentro das mãos mais novas que o resto do corpo. As mãos, num duelo, indicavam-lhe a permanência do estado de matéria. Mas nem uma, nem outra saía vencida. Ele apenas sentia qual estivera derrotada da última vez. Nesse momento, não duvidava de si, embora não se percebesse até atingir o sinal de vida do qual extraía a doce verdade de não estar ciente do tempo agindo. Eis a notícia nunca lida para a vida continuar.

 

E continuava ainda mais, como um Deja vú que lhe tomava a maneira numa novidade de si quase contraída. Mas ele não saía do estado de novidade até esquecer o que ainda não havia penetrado na consciência articulada. Às vezes isso assustava, mas, se olhasse para trás o que encontraria? Logo, sentia o medo concentrando-se na indecisa lembrança da provisória construção do presente instante.

 

A noção que tinha de papel na vida dava uma vaga preocupação resignada.  Cobria - se de um medo de imaginar uma vitória, embora cuidasse que estar vivo significara a posterioridade de um perigo, a sensação de papel na vida.

 

Nunca conseguira arrecadar-se na sua liberdade, a não ser numa entrevista abafada, que mendigava de si, feito um silêncio eriçado num dia de festa. Às vezes se encarnava nos outros para conseguir um julgamento. Mas apenas de volta à sua matriz é que os atingia. Em breve de novo se desabituava com a repetição de vida. Tentava o esquecimento diante do espelho, por ser o esquecimento a mais fácil verdade, o apego mais honesto da imagem refletida.

 

Como o sol cobrindo a cidade, sentia-se intruso da própria alma. As perplexidades indicavam nitidez – um sonho que para ter-se é só sonhado. Comprimia-se na sua porosidade. Quando muito, conquistava uma expressão que os outros, não sendo avisados, indicavam-lhe fazer. Quando cansado de si se demitia, crispava as sobrancelhas, num gesto adormecido de sobrevivência involuntária. Corava na sua distração e assim mantinha correspondência com o monólogo no abismo das vísceras.

        

De quando em vez rastreava o passado. Via que o desejo de existência não progredira, porque o estado de espírito inaugura um corpo cada vez mais velho.           Eis o momento próximo de sentir o corpo, embora consumível.  Eis o documento de vida nem antigo, nem recente. O documento verdadeiramente.

 

Sentia agora que acreditar no espelho era a única oportunidade. Logo ele se bastaria, estaria ajustado à própria pessoa. Havia lampejos de surpreender-se no segredo, que não existia e, por isso, o segredo. Exposto a sofrer amores e maldades alheios, o homem era bem capaz de cometer amores e maldades sem que isso lhe transbordasse, pois que estivera completo nele propriamente e esta era a solidão.

 

 Pelas ruas, gratuito, seguia algum destino diário.

 

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