Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
PARADEIRO
Geovane Monteiro
Tamanho da letra A +A

E(R) ROS...

E(R) ROS...

 

 

Curioso o trato humano. De reparar despretensiosamente uma formiga andando a descobrir as origens dos raios cósmicos, o salto no olhar ilude a retina, a ponto de fundir paixão ao resto do que pode haver.

 

Assim há criações. Quem pinta uma casa descobre na pintura uma ilusão guardada para aquele momento. Ilusão indiferente a um mal-estar na parede.  Não há o que ver, salvo entre o rolo e a tinta, como um segredo selado. Os que ficam debaixo apenas vendo o homem roçando a parede não descobrem o que se permite. Nem o sonho se permanece. Pintura acabada, artista morto. Depois envelhecem paredes no mundo...

        

Por exemplo, aquele que escreve cria suas histórias, constrói seus personagens e se lembra do que não se esqueceu. Lembra pela primeira vez. Sua imaginação ocupa o ”resto do que pode haver” entre um e outro escorregão nas palavras, porque é tempo de criar. Não que ele esteja isento de investigação e culpa. Mas tropeçar nas palavras é, não raro, como não ver o sol costumeiro e luminoso.

 

Quase sempre quando escrevo minhas histórias, só depois de publicá-las vejo os vieses. Um dia, de ortografia à organização sintática mais complexa, não me pude prender à superfície sem pouco descuido. Foi quando um amigo me ligou e me disse: “aquele termo está mal empregado”. Revi o texto, descobri, dessa vez eu mesmo, outros tropeços, mas o texto não se mutilou. E mais: o escrito resistiu a mim mesmo. Ele já estava ali. É assim a paixão: não há que esperar. Seu cuidado não me rejeita.

 

Mas dali a diante pensei: “preciso de um revisor”. O revisor veio e investiu em outros textos, mostrou-me esse e aquele desvio e, antes de meu espanto, vi outros deslizes que, se não demitiram o revisor, puderam cabê-lo em entrelinhas.

 

A maneira de visualizar a curiosidade de que trata a introdução deste texto veio-me arbitrariamente, mas o exemplo do pintor não. Sem medo de transgredir, meu quarto esteve sendo pintado, enquanto eu digitava, como a disputar duas artes complementares. Certamente o moço na escada me perguntaria o mesmo que eu: “o que há em fazer isso?”. Passado o estranhamento, eu iria cobrar-lhe um pouco da textura, ele despertar-me-ia fonte e efeitos de texto e nossas habilidades não se desencontrariam. Possivelmente eu não teria a sintaxe reprovada, mas ele desenharia na parede um homem escrevendo bem.

 

Mas seu trabalho também findou. Com a severidade de uma doméstica, um perito reclamaria da tonalidade da cor. No meu caso, um amigo-observador sugeriria mudanças no núcleo dramático ou, com mais amor: ”Deve ter sido falta na digitação, não?”.

 

Então nós, quando mais sonhamos que fazemos, dizemos ensimesmados: “Perdoem-me os desacertos, aqueles em ter-se que sonhar”.

 

 

 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (2)

Parabens poeta, prazer imenso ler teus traços, em composição elaborado, do pintor que descobriria como na pintura da parede, você escreve tão bem. Fiquei olhando ao lado, o pintor e o escritor dividindo o mesmo espaço, numa metafórica escrita, fez-se um deleito o final. Amei, voltarei com certeza. Otima semana pra ti.

Cassia Da Rovare
postado:
09-02-2010 12:47:41

... Um homem escrevendo bem, e como escreve... Sabe, o que mais importa nisso tudo? É que tem conteúdo, e depois das reticências muito mais pra refletir, transpor o muro da indagação e colocar em prática o aprendizado. Valeu Geovane! Meu amado Mestre! Beijos e carinhos da Jady

Jady
postado:
09-02-2010 12:44:57

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

22.01.2012 - Travessia

03.01.2012 - FELIZ ANO NOVO!

04.03.2011 - O PARAÍSO DE ANA

06.01.2011 - REDESCOBRINDO TERESINA

17.06.2010 - INOCÊNCIA

09.02.2010 - DONA MARIA

06.02.2010 - PARADEIRO

06.02.2010 - O SEGREDO DA VIDA

15.01.2010 - FORTALEZA

22.12.2009 - E(R) ROS...

03.09.2009 - CARROSSEL

03.09.2009 - A CHUVA

03.09.2009 - OUTROS CARNAVAIS

03.09.2009 - IDENTIDADE

03.09.2009 - A DESCOBERTA DA POESIA

Ver mais

Dicionário de Escritores Entretextos Editora On-line
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos

Twitter

Carregando...
Últimas matérias

09.02.2012 - Antônio de Pádua é eleito titular da Cadeira 48 da ALRESC

Antônio de Pádua é eleito titular da Cadeira 48 da ALRESC

09.02.2012 - Jennifer Egan na Flip

Jennifer Egan na Flip

09.02.2012 - Lucilene Gomes Lima: FICÇÕES DO CICLO DA BORRACHA NO AMAZONAS

Escritores brasileiros abordaram amplamente os ciclos econômicos através de sua prosa.

08.02.2012 - O amante das amazonas: o ciclo sob o olhar de um analista-autor

Dissertação de mestrado: Estudo comparativo dos romances “A selva” (FERREIRA DE CASTRO), “Beiradão” (ÁLVARO MAIA) e “O amante das amazonas” (ROGEL SAMUEL),

08.02.2012 - Manual da criança Caiçara

Manual da criança Caiçara

08.02.2012 - Em memória do cantor e compositor Wando

A arte que resiste às estritas classificações de gêneros de produtos de cultura: [1] tradicional-popular (artesanal, folclórico); [2] erudito (erudito-clássico e erudito-vanguardista); e [3] pop (anticlássico, de ampla audiência)

08.02.2012 - Prêmio Angoulême anuncia seus vencedores

Prêmio Angoulême anuncia seus vencedores

08.02.2012 - Paquistão: Multidão assiste à chegada de um tubarão-baleia morto ao porto de Carachi

O jornal paquistanês The Express Tribune informa que o monstro marinho tem o comprimento de um ônibus escolar

07.02.2012 - A cidade dos contos de fadas

O carnaval de Cerknica, Eslovênia, tem importância mundial equivalente a, por exemplo, o Festival Folclórico de Parintins, Brasil

07.02.2012 - Conceitos da Comunicação de Massa (20)

As 3 revoluções comunicativas, segundo Massimo Baldini, e a quarta revolução, de acordo com, entre outros autores, Massimo Di Felice

06.02.2012 - VARIAÇÕES INTERTEXTUAIS SOBRE A MORTE

..............................................................................................

06.02.2012 - Quem matou o carro elétrico?

Who killed the electric car? é o nome do filme

06.02.2012 - Um poema de Gérard de Nerval (1808-1855)

Je suis le tenebreux

06.02.2012 - NEUZA MACHADO: SOBRE "O AMANTE DAS AMAZONAS"

A “economia política” do Manixi, constituída a partir do momento em que, entre os diversos elementos da riqueza

06.02.2012 - "Bem-te-vi Feiticeiro", libelo ecológico de Thales Andrade

Precisamos iniciar uma campanha para que os valiosos livros de Thales Andrade sejam reeditados

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Loja 21 (segundo piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br