Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 07 de setembro de 2010
PARADEIRO  
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DONA MARIA

DONA MARIA

Dizia-me uma velha vizinha, no limiar da década de 1980 – quando as surpresas ainda não antecedem nenhuma covardia – dizia-me qualquer coisa a valer uma vida. Os enunciados rompiam o lábio, cerrando-o para sempre. Mas as frases lhe retornavam perdidas no escuro do rosto profundo e vazio, como uma mão aberta e magra.  Intenso aquele rosto interrogativo na maneira de ensinar um menino a conviver com a alma salva. Nunca descobri o porquê de guardar aquela senhora em vaga lembrança. Dali me encontrar cá talvez explique minha sedução.

 

           As ruínas da casa documentavam defesa concluída no atenuante de estar vivendo. Era aposentada e viúva de dois retratos sempre na mesma posição na parede. Tratava-se de um único esposo, mas a forma com que relanceava o olhar, ao tatear os retratos, dava a impressão de estar reunindo um soluço entre duas vidas. Eu devia contar, mais ou menos, onze anos, já que aquele cuidado feminino me fazia considerar o quanto ela fora bonita na juventude.

 

 Dona Maria tinha hábitos noturnos, mas acordava antes de o sol suspender-se no horizonte, de modo que quase ninguém conhecia sua luta diária, a não ser pelos constantes resmungos, quando, de volta, as folhas da mangueira lembravam-lhe a lida.

 

  Ainda corto esta árvore, relutava, mas o gesto de ódio e espanto dizia que, se não houvesse folhas, as manhãs a fariam desastrosa.

 

 Era nas tardes nossa maior chance de contato. Puxar água de poço dava a ela o ar de solidariedade em apuros. Eu descia a corda enquanto a velha, embalando-se, assegurava que o balde poderia carregar-me bem, se eu quisesse tocar a água. Custou-me perceber que a frieza doce das palavras escondia medo e proteção. Mas um menino à beira de um poço a fazia imaginar que a coragem de um homem havia de aflorar-se dali ao instante da violência abafada, como se a água chegando lhe compensasse a ânsia de quem já não pode esperar.

 

  Basta este galão, senhora?

 

  Qual o quê! Esqueceu as oito voltas pra completar o pote!?

 

 Discretamente ríspida, ordenava-me o esforço de homem antecipado no ranger das cordas, que deslizavam na bomba d’água manual. O ranger parecia-lhe reclamação de um tempo em que menino suplantara a sede nos desafios das profundezas de um poço. Ela ganhava olhos avançados quando, num lance mirim, meu medo dava lugar às fantasias na nascente d’água.

 

 O olhar compassado ao cobrar-me escola, mas ainda não havíamos fervido a água do jantar. O gesto traduzia um quase charme reservado. Por pouco seria rico aquele olhar, caso continuasse a recordação de que, com mais estudo na vida, quando fugia da seca, poderia ter viajado para São Paulo, ao invés de enterrar o marido no Piauí.

 

  Já decorou o ponto?

 

  Já! E já tô passado na tia Zizi.

 

  Hmm...

 

  Tenho no caderno as quatro operações.

 

  Não se bota em panela conta e letra...

 

 Dito isto, começava eu a perceber que o silêncio da velha parecia luzir o túnel de uma verdade dentro do coração violento e pretérito. Calar-se dava ao seu rosto alguma concepção a devolver-me súbita responsabilidade de filho: minha dor por provocar nela alguma verdade breve e arraigada. As feições no silêncio compunham uma mulher ainda viva e com dois braços salvos na minha culpa de ter a palavra final. Dali em diante, empenhava-me na distração com a viúva sem concepção, como antes, sem alma própria, senão a do respeito personificado na terceira idade.

 

  Passamos do pingo do meio-dia, menino. Caminha que já faz falta na sua casa. Se fosse meu neto, ah!... Se fosse meu neto, mas vejo que precisa apenas ser avisado. Ande! E não diga lá que tá perdido só porque tirou o direito de uma viúva.

 

 Havia decisão em seus discursos, mas se embargava, caso fosse interrompida por terceiros. Eu a olhava com mais interesse que passividade. Tinha minha hora de sentir o mundo consumido nos frágeis imperativos de Dona Maria. Sua boca não deixava escapar os verbos que mais temia dizê-los; sentia necessidade de conjugá-los, mas as coisas presentes supriam a incapacidade de conhecê-los. Olhando para a casa limpa ou vendo-me partir, eu imaginava que, parada, o vento da janela lhe devolvia um sopro de mulher bem amparada.

 

 Àquela hora, a casa era trancada com a mesma exigência com que fora construída. Os vizinhos sempre tolerantes, porque um costume dos velhos era isolarem-se durante e um pouco depois do almoço, como se a digestão dos idosos trouxesse um mistério de liberdade para as tardes.

 

 Mas em casa meus interesses em nada me ligavam àquela mulher. No almoço, quando muito, me recordava que Dona Maria teria me usado o bastante para consumar-se sua residência fechada. Devo endossar que lembrar o retorno a seu endereço confirmava apenas minha liberdade de ser criança. De resto, não havia maiores impulsos; antes um jogo de interesses: ela recebia minha gratuita e braçal visita e eu, minha agilidade em lidar com uma velha. Quando dizia mal de algum vizinho ou se entregava a narrar as melosas aventuras dos netos, ela sentia o gosto da velhice na minha ingenuidade assombrada. Um rapazote devia era procurar serviço, dizia-me com um tom de desprezo e justiça, que a fazia tão dona de si, tão completa no seu egoísmo em ter muita idade.  Em verdade, não era nem tão boa, nem inteiramente má. Sabia sorrir para compor atenção própria, mas também doava, de vez em quando, um pouco de esperança de vida de quem a tudo vê iminência. E mais: a rigidez no seu rosto não me fechava espaço em sua vida. Lembro que, pedindo-me para aguar os girassóis, seus olhos com cerimônia me chamavam jardineiro. Em outras edições, esquecia a dificuldade em apanhar mangas do chão ao conferir nos mais jovens tolice e continuidade.

 

 No fundo, sabia que era estranho o hábito com a velha, quando eu podia escolher as ruas. Mas me acostumei com a estranheza, pequena dor alheia, minha distração.   Não me fazer mal parecia um bem inestimável.  Além disso, aos outros uma velha era forte por contar com sua fraqueza, o que me dava alguma garantia naquela casa.

 

  Nunca se engane. Um homem precisa de um dia se casar. Ainda é cedo; avexado é que se endireita na beira de um poço, e já pensa que a água é coisa ganha. Na sua idade, meus irmãos sumiam nas carreiras pra mata e voltavam com Cutias. Eu ficava no mungunzá. O que tem aprendido além de levar caderno debaixo do braço?  Olhe! Quando assumir a responsabilidade de uma casa ...

 

 Sentia-me irrequieto com os julgamentos da viúva. Nem sempre achava que estivesse apenas azeda. Às vezes discursava sem tom vacilante, o que me deixava traído, como não dizer falsamente a verdade. Uma senhora ditava o que eu precisaria saber.  Mas a predição dava-lhe um peso a mais à velhice: a dor de ver na soma da vida a distração em ter sobrevivido. Talvez não tivesse idade para saber que a mulher se acusava ao temer não conferir em mim algum receio.

 

 Dona Maria foi paulatinamente fazendo parte de minhas permissividades em casa. Ser livre para ver uma velha me tornava provisoriamente acima de uma criança. Num dia de vida, escutava minhas pequenas e medíocres narrativas escolares. Lembro-me dela exclamando: ”Leia agora a da floresta gigante!”. Atenta, a velha corava e o brilho dos olhos enfrentava o enorme passado. Procurava um desfecho que eu ainda não havia revelado. Temia construir outro rumo à trama, reclinava o corpo, parecendo que aquele velho invólucro tivesse parte no poder da imaginação.

 

  Quero que escreva uma carta. Já estou de vista curta. No meu tempo muitas moças noivavam por cartas. Escrevi muitas, tenho todas guardadas de junto de mim.

 

  Escrevo!

 

  Avia! Vai ser agora mesmo.

 

 Eu escrevia com caridade, mas sem muito coração. Estava feito: a satisfação em estar compondo as cartas tornava tímidas as atitudes da velha.

 

  Agora vou ler pra senhora.

 

 Esta segunda tarefa era uma exigência muito mais minha.  Lia com autoridade. Minha segurança em não ter na velha a professora fazia-me adotar a seriedade necessária, que preside as boas oratórias. A velha me encarava surpresa e confiante. Parecia que suas antigas cartas conquistavam retóricas, quando a verdade lhe ressurgia na minha fala derivada de um público ignorante.  Observava-me com difícil doçura para conseguir aprender o que me ditava. Seus ombros se contraíam e ela reclinava o pescoço, com a satisfação de quem cria as palavras a um intérprete. Seus netos distantes, o pé de erva-doce, o cercado, o gogo nos pintos eram seus temas constantes e eu, cronista de uma velha sozinha, acabei conhecendo o universo gotejante de Dona Maria. Profundo universo e tão fácil o que fazia dela apenas uma senhora viúva e pobre. Ela buscava forças nas minhas linhas mal escritas e soprava um fiapo de voz que tanto me fazia abnegado, tinha pontuação própria, o que me dava uma certa autonomia linguística, dada nossa familiaridade, nossa ignorância vaidosa. Minha exibição se correlacionava com o olhar engajado da velha a tornar-se excessivamente investigativo.

 

 Não lhe sobrava espírito para compadecer-se do meu medo de jabutis. Deviam estar velhos de tão grossos e tranquilos. Talvez fosse a tranquilidade que os fazia verificar o mundo com a frieza de quem atravessou muitas décadas. E não precisar da velha para garantir subsistência davam a mim uma cisma convertida em pavoroso silêncio. Dona Maria os tinha no quintal, como a dispor-se de posse valiosamente inútil. Contavam cinco e me era sinistro ouvir da viúva que em criança é que os ganhara. Quando o esquecimento me fazia salvo de minha estranha aversão, lá vinham eles com o mesmo gesto nobre de selvagem com poder de somar-se em estado de esconderijo. Dona Maria os emborcava para analisar meu temor não menos frágil que um animal lento e indefeso. Emborcava-os com velhice exigente no espernear do bicho. Minha convivência com os sustos tornava-se solidariedade para ela.

 

  Este aqui já foi meu predileto. Deve contar de 1942; por aí... Lembro que batizei ele de Mágico, porque vivia se enfiando no casco. Sabe conhecer a jabota no meio deles?

 

 Falava, falava enquanto libertava lentamente o animal. Não sei por qual impulso guiava o Mágico afastando-o de mim. Era assim minha covardia pressentida pela velha. Era assim que se apoiava no longo vestido agora tão somado a ela. Se eu corresse, a viúva teria seu momento de perigo – o jabuti devolver-lhe-ia a mesma ingenuidade de quando o possuíra, a mesma dor de ter sido tolamente receptiva. Talvez ela tivesse agora força para indagar: “Fui feliz na vida?”. Se mudasse a maneira, diria, em suspiro quebrado, que eu era apenas um menino. Mas preferiu fugir do perigo que um dia a fez viver. Meteu-se no quarto e, antes de bater com violência a porta, vi que a proximidade de uma lágrima decompunha o rosto em ódio e insegurança.

 

  Malcriado!

 

 A única palavra soava interrompida e labiríntica, assemelhando-se a uma comida forçada à garganta. Soava vencendo-a, de modo que as anáguas lhe concebiam maior sustentação.  De posse do quarto, a casa se tornava ainda mais assombrada. Costumava compadecer na cama com o rosário na mão e a atenção nos retratos do marido. Fora feliz? Ao menos a julgar até aquela época, padecia nem alegre, nem triste. A meia-luz diante dos fatos a fazia simultânea a tudo: a frieza apenas constatava o silêncio; as concessões, os improvisos dos mais de oitenta anos. Mas se trancar no quarto não lhe bastava por muito tempo; logo, logo a velha ressurgia com a mesma obliquidade com que fechava os sorrisos.

 

  Pode ver comigo os pintos empenados? O amarelado vai ser bom de briga. Vive de peito alto e alcança o mais alto poleiro.

 

 A partir daí, não pude acertar quem de nós era o malogrado. Ainda me estava bem vivo o evento anterior, mas a viúva parecia agarrar-se unicamente às coisas imediatas, consumíveis. Quando era obrigada a lançar-se em tal ou qual retrocesso, sentia-se subitamente definitiva. Nesse momento, o quintal e a casa eram tão dela que se reconhecia covardemente nas pífias conquistas. “Fui feliz na vida?”. Eu parecia afrontar-lhe a interrogação no seu hábito de não esperar por minhas respostas. Era assim que oitenta décadas e pouco se rendiam a mim.

 

  O avermelhado é que vai ser a crista do quintal, senhora, dizia eu, com repentina propriedade.

 

  Nunca me enganei com meus pintos.  Ligeiro! Jogue milhos e vai ver a esperteza do meu eleito, dizia ela, ansiosa.

 

 Os frangos bicavam primeiro, deixando o pinto amarelo numa plumagem em penumbra não menos desértica que a aposta medrosa da velha. Vendo a disputa com os milhos, Dona Maria se afogava com a bondade de quem se apega, porque perdeu. Tangia as aves com a responsabilidade de uma camponesa. De mim nada eu podia explicar que não tornasse necessária a solidão da viúva.

 

 Mesmo relutando por puro capricho ou disfarçando insuficiências, havia nela o que conhecemos apenas quando a ilusão de estarmos sempre à frente cede lugar ao amargo da nossa força desnecessária. Nosso vigor é guardado não por reserva, mas porque estamos nos cumprindo no outro, aquele que outrora foi inimigo sem saber que nos desafiou. Esta força pela qual agora me faz adulto é a mesma que antes dizia a um menino que dentro de uma velha insistem todos os momentos, ainda que as chances sustentem a custo as faces de uma vida inteira. Sozinha no mundo, não encontrava resposta maior que viver um pouco mais, derramar os instantes de felicidade difícil. Caberia a ela acordar cedinho, ocupar-se de uma vida remanescente, estacada num corpo velho que nem pedia, nem dava nada; apenas substituía a esperança que antecede as coisas.

 

 Mas o dia geralmente me acontecia enorme e numa disponibilidade que incluía os encontros com a velha, como se inclui algo que para existir é preciso ser lembrado.  A vida podia também ser compreendida em intervalos possíveis, porque fáceis, o mundo funcionava em silêncios concebidos por pura indiferença. Ela fazia parte do meu aprendizado intuitivo, o mesmo das necessidades que nos localizam no agora que somos. Sua covardia talvez não estivesse em amedrontar um menino, mas em fugir dele, na hora em que a velhice é a arma. Havia na casa uma redenção, uma vontade de dizer algo que capturasse as coisas boas, aquelas sentidas quando ninguém mais pode provocá-las. De noite, o galinheiro fazia dela a arquiteta dos poleiros; o poço sem mim, os bichos todos compunham a noite a salvar o dia fugitivo. “Tenho todas de junto de mim”. O que fazia de Dona Maria um passado inteiro? Com que força despejava lágrimas perdidas no escuro? Não é absurdo dizer que as cartas em algum lugar se divertiam dela. Desprendia os cabelos e o pente fino, substituído pelas presilhas, dava a ela uma neutra aceitação ao reconhecer-se mal no espelho. Ajustando o rádio de pilha, ela esperava irrequieta uma sintonia e os olhos rebrilhavam obscuros, livres da idade. O corpo não suportava o coração e o medo de uma fatalidade iminente colidia com a sonoridade, que vinha desafiando em ruídos os dedos trêmulos da velha.  

 

  Não se toca mais cantoria como antigamente, sussurrava com malícia e o custo da expressão em silêncio a ajudava a sentir-se viva. 

 

 A melodia florescia a mulher a vaguear a casa com seu banho de colônia. Dançavam as mãos levadas à mesinha, onde se instalava o pequeno rádio. Excessivamente presente à sala, principiava reproduzir alguns versos, mas a verdade com que ela aprovava seu violeiro lançava-a à timidez da mocidade. Olhava-me com a mesma verdade e nossos olhos duravam a expressividade do compositor. Era quando eu podia constatar minha lucidez diante de uma mulher humilde e velha. Meu espanto disfarçado em apreciador de cantorias resumia o estado de meninice, com o diferencial de ser o único a visitá-la categoricamente.

 

 Nada valia mais que sua casa. Perdera esposo, os filhos viajaram, os netos, apenas nas cartas, visitas raras; eu contava as vezes em que minha presença não se protagonizava naquele arranjo moribundo ao que existe na força de uma chave severa e surda. A luz da lamparina, que poupava energia elétrica, tremeluzia o corpo em distração; a mim restava somente a breve comoção de calar para fazê-la sentir-se acompanhada.

 

   Dona Maria, com quantos anos se casou? A senhora...

 

  Minha nossa!... interrompeu-me, num gesto contra si a estremecer o rosto. Conheci meu noivo na hora de casar. Não era mais que isso para a conta de trinta anos de aliança, não fosse a maldita sezão que arrasou meu Jorge.  Ahhh!  Escuta essa peleja! silenciava logo depois, e os olhos pareciam arrancar o som da viola mal reproduzida no rádio, dando a Dona Maria um ar surpreendente de donzela livre de “caritó”. 

 

 O rouge do rosto parecia querer prender aquele momento para sempre. Em alguns sábados tudo ganhava uma aparência melhor. A própria casa pertencia a um mundo invadido pelas surpresas outrora adormecidas nas certezas, quando lhe ensinaram um modo de viver. Subtraíra uma parcela duvidosa de si, e agora estava possuída por uma traição de alegria que antes estragaria tudo. Endireitava as presilhas no cabelo e não sentia o suor do corpo a principiar um novo esforço entre uma cantoria e outra. A vizinhança estaria em algum lugar observando? O que poderia transpor-se em zombaria? Mas a janela não se exprimia e a porta, substituída por minha atenção. Suportava a felicidade no vinho tinto trazido como um segredo de última hora. Tardiamente eu via um corpo aceso na embriaguez próxima a uma cobrança devolvida em vantagem e superação. 

  Já viu casamento na roça!? sorria ferozmente e os dentes postiços acrescentavam um apelo semivivo à boca murcha.

 

  Já sim, senhora, é bonito na roça...

 

  Vai ficar pra titio...

 

  Caso quando completar 18 anos, dizia eu com um tom ousado de voz substituindo a perspectiva da afirmação.  

   

  Eu já possuí uma casa no Ceará... Minhas amigas parambuenses tinham inveja porque meu esposo ia na loja encomendar a melhor fazenda pra mim.

 

  É!...

 

  Eu sou é forte...

 

  É sim!...

 

  Já teve medo sem saber de quê?

 

  Lá em casa de noite tenho medo do combogó, quando passo na cozinha.

 

  Se alui!... Não vou mais vender coentro, nunca mais...

 

  Eu tenho medo...

 

  Seu aboletado mofino. Escuta essa peleja.

 

 Aos poucos o som era interrompido pelo silêncio das oito horas, desprendendo uma liberdade insuportável.  Comedida, partia-lhe o que a pouco não possuía nome, mas ela sabia bem dizê-lo sem nenhuma preparação que não fosse descoberta. Só dizendo haveria a palavra e depois o que se reinventa nela, sem nada a dizer. Do contrário, a palavra poderia desmoronar-se em silêncio nunca mais refeito. O que dizer? Eis o fim da festa.

 

 Algum tempo depois, Dona Maria retornou a Parambu.  Dizia ir morar com um dos filhos. A casa foi mais tarde comprada e demolida. Hoje não haver sequer resquício da velha me decodifica qualquer coisa de lembrança. Talvez tenha morrido de tanto afinal lá pelos quase cem anos. O certo é que nunca a vi seriamente encostada pela artrose, nem a idade tirava da falta de possibilidades as marcas de uma aceitação ruidosamente serena. A casa coincidindo a Floriano Siqueira com a Neco Teixeira foi engolida pela inscrição do tempo a tornar anônima Água Branca. Mas de Dona Maria, sim, o anonimato moldura a inutilidade a valer a ilusão de uma ingenuidade. Desapareceu também o poço? Senhora, quando acaba a água? perguntava à velha, num suspiro antes de vida que de cansaço. Rapaz, a água mina pra sempre, confortava-me, surpreendida com a profundidade do poço de onde ecoava sua vaga resposta.

 

  Não se esqueça de se limpar antes de cair na rede, gritava, apontando-me a distância de casa. 

 

 De volta a casa, tudo recomeçaria: o copo de leite antes de dormir, leves reclamações habituais, nenhuma pergunta de acusação. Eu caía na rede e sentia na família algo vagamente verdadeiro, fixo. O que estaria fazendo a velha além de economizar energia com a lamparina? Estaria eu em alguma flama do seu frio e frágil rastejar? Indecisa questão veio no tempo, mais indeciso é hoje lembrar Dona Maria respirando pesado, sem interpretar os próprios pensamentos, ocupada com a inocência de ser a única saída, quando se é tarde demais.

 

 

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Comentários (3)

Olá meu escritor favorito rss. Grata por tua visita... Vim aqui ler teu novo conto e nem vi que a minha net caiu ao tentar comentar, está dificil minha briga aqui com esse tal de combo (banda larga da net). Voltando ao conto... Mais uma vez você me emocionou, sabe, eu penso que Deus sabe bem das nossas necessidades e com certeza envia anjos pra nos lembrar que Ele nunca nos esquece, e Maria, a protagonista desse teu emocionante conto, vem me provar mais uma vez que recebemos o que merecemos. Maria teve junto a si o seu anjo, dando-lhe o apoio que precisava, a companhia e a presença viva do anjo, seja escrevendo cartas, puxando água do poço, alimentando a criação e colaborando com que o marasmo do dia a dia não tornasse sua vida tão vazia. Intensos momentos, boas e significativas lembranças que faz com que seja amena a vida e faça algum sentido viver.Mais uma vez saio refletindo... Você é muito bom no que faz. Parabéns meu anjo. Sucesso e luz no teu caminho, quero meu livro autografado, viu? rsrs Beijos e beijos da Jady pra tí

Jady
postado:
09-02-2010 12:43:51

Muito bom! Um conto capaz de levar o leitor para dentro da história, sentir cada momento. Um texto com pessoas simples como Dona Maria, mas repleto de sensibilidade e detalhismo. Vale cada minuto da leitura!! "O prazer no trabalho aperfeiçoa a obra." Parábens escritor! bjks

Vanessa
postado:
09-02-2010 12:41:20

Belo conto,senhor Geovane. Eu senti o que o leitor sente quando o texto é mesmo capaz de literatura:Sorri e chorei por Dona Maria, transportei-me nela, de modo que, durante a leitura, tomei o crédito de sentir-me autora do texto. O cuidado com a linguagem, a "falsa" simplicidade, o mistério, a intriga,as imagens (destaque para o episódio do poço, talvez sugerindo uma busca de identidade entre a velha e o menino) o caso não resolvido (o que põe escritor e personagens no mesmo barco)tornam o conto um texto digno de figurar nas maiores antologias. Parabéns, grande escritor.

Patrícia Lobão
postado:
09-02-2010 12:40:16

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