Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2012
PARADEIRO
Geovane Monteiro
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DE TANTO CARNAVAL

DE TANTO CARNAVAL

No carnaval, sempre a mesma surpresa renovada: sorrisos festivos, nenhuma inquietação, a não ser seguir o percurso da avenida. E assim cada cidadezinha acolhe seus filhos com os arranjos carnavalescos. Bem distante dos desfiles das escolas de samba que colorem o sambódromo com artistas e com a grande mídia em global cobertura, dando férias às abordagens dos paradoxos do país. Mas o que me move a escrever desta vez não toca o tamanho de cada festa nem os custeios de cada cidade.

Em Água Branca, pude ver o que certamente se vê em qualquer outro lugar quando o folião já passou dos trinta. Refiro-me à faixa etária da juventude. Mas penso que sempre foi assim, foliões bem moços; o que mudou é que o tempo não me permite mais mascarar a alma com a idade daquele rostinho de menino perdido lá pela década de 1990. Curioso mesmo os meus 32 anos a me fazer maximizar a juventude predominando no carnaval. A juventude, até certo ponto, fazendo os trintões, os quarentões sentirem-se meio descompassados na avenida ao pararem um instante da festa em imaginação. Assim sobra uma avenida feita por aqueles que no dia a dia são apenas ingênuos meninos e meninas.

A mudança do percurso para a Avenida José Miguel não desmente minha mais que teoria, minha continuidade na vida. Se é que todo “coroa” perde tempo em filosofar o que poderia se converter em pura animação de quatro dias de festa. Mas, como disse Caetano Veloso em Dom de iludir: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

Não é que cismei mesmo em achar que as meninas, beijando os garotos que passam, apenas zombam de minha vez de eu também ter sido bem jovem! Os valores não mudaram tanto; o que se alterou foi minha percepção e o jeito desastroso de flagrar pai e mãe tirando foto da filha com o “ficante”, como se o mundo tivesse de ser consumido rápido por sua iminência. E agora não sei se o mais ridículo é eu estar registrando essas ousadias ou me recordando que nunca saía na foto; No passado meus colegas agora cantam: ”Pessoas ruins da cabeça e doente do pé”, quando os perco de vista.

Hoje sinto uma inveja necessária desses jovens. Sim, porque enquanto me disponho a ver a garota sustentando o corpo seminu em frevo, em samba-reggae ou o garoto aproveitando o “esfrega-esfrega” da swingueira, quase me iludo numa dose de lirismo, tal qual em adolescente. Esta inveja me faz embriagar qualquer coisa de alma que já surgiu restante, depositada neste corpo a teimar ver apenas com os olhos quando amarga o Caymmi no carro de som: “Quem não gosta de samba bom sujeito não é”.

E assim vou suando dentro de minha fantasia de escrever no momento em que a cidade se sacode no batuque dos quatro dias mais agitados do ano. Meninos e meninas pulam e suam no bloco e não há mesmo nada de novo nisso. Apenas agora me escondo em dizer: “no meu tempo...” ao passo que a nova geração, sem saber, se prepara para quando chegar o “no meu tempo...” respirar sem escrita que não seja a vida atualizada na fantasia de ser.

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Comentários (5)

Geovane, é sempre bom ler seus textos e aprender com sua prática. Obrigada por partilhar essas delícias, também, comigo. Sueila

Sueila
postado:
18-03-2012 18:19:24

Geovane, Ótima crônica. Capturou bem a essência que o carnaval provoca. Adriano Lobão

Adriano Lobão Aragão
postado:
20-02-2012 21:34:59

Sou suspeita para comentar sua crônica, porque adoro tudo que você escreve. Mas... pela grandeza desse seu texto,amigo, foi inevitável eu dizer que ele é simplesmente maravilhoso!!!!!!!! Elane Rodrigues

Elane Rodrigues
postado:
20-02-2012 21:21:17

Belíssimo texto, Geovane. Mesmo tendo como referência um lugar específico onde o carnaval acontece, o texto traz abordagens sem bairrismos. O carnaval como pretexto para a discussão de temas universais, porque o comportamento humano é um fenômeno sem limites. E só se consegue escrever além de cercados quando a linguagem não reduz, mas trabalha o reduzido de forma generosa, sem estanques. Agradável a leitura e singular sua linguagem, Geovane. Só tenho a agradecer ter me mandado o texto. Cleber Sá. Jundiaí- SP

Cleber Moura Sá
postado:
20-02-2012 18:47:27

Não tem jeito: a gente nasce, cresce, fica velho e morre. Uns vão mais cedo: balas perdidas, drogas, suicídios, coisa e tal. Bela narrativa. Fraternalmente. J. Estanislau Filho

J. Estanislau Filho
postado:
19-02-2012 11:45:14

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