PARADEIRO
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Desde antes e em publicações congêneres me autoconstruo, aos poucos, regenero-me bloco a bloco nos clowns emblemáticos do meu reality Show. Luz, som, sombra, cor em toda a vida rumo à vida toda. Estou sintonizado outra vez e as antenas hão de sobressaltar o que me sustenta sem que os braços capturem a força telespectadora dos sonhos de mim. O sonho tupiniquim no canal que se escolhe por culto ao Big Brother Brasil.
Meu horário nobre dispensa câmeras e microfones. “O que Deus ajuntou não o separe o homem”. Nem o zoom lento, quando me imito revela os segredos no roteiro que vou escrever. Panorâmicas na dramaturgia são cortes e retiradas de contextos, mas ainda hei de saber-me no próximo versículo. Meu público se representa; Quem não sabia deste “eu” que me devolvem. Se eu fosse os outros me seria, mas me sendo sou os outros sem mim. Digo, escreverei um papel no papel flagrante. A autobiografia no voyeurismo eletrônico traduz a página que ainda não foi aberta. Antes de ser aberta, estarei ausente de mim e esta ausência sou eu antigo. É meu merchandising entre a passagem de foco e o show da minha própria surpresa.
Estou confinado em mim televisivo e meus brothers pedem fogo, remédio, comida à tribuna cessar-fogo da interlocução. Mas um ataque deixou dois feridos e a ofensiva só tornou anônimos os grupos. Será preciso mais guerra santa. Mas os números diminuem tanto que serei o refúgio, ainda que, por hora, interino da própria sombra. Deus disse: “A vingança é minha”. Então serei obediente e não farei minha vontade, mas a do Senhor. Para ganhar o reino dos céus devo subtrair a última bagatela. Devo fazer-me pequeno como um menino. Devo conseguir a paciência de Jó e esquecer Caim.
Enquanto isso, distribuirei preces ao público fiel na superexposição das suas fraquezas. Arrecadarei de uma edição de imagens a que me libertará de um mero figurante no templo. Mas para isso terei que investir no mundo Fitness e lançar aos povos o arquétipo da vitória a traduzir a vida cotidiana na sua forma mais misericordiosa. Assim, no paredão não serei trocado por Barrabás. A banalização do mal em frases feitas só tem mostrado estar do lado errado da história. A história dos falsos profetas, dos famigerados pedintes, do autoflagelo. Não. Farei a vontade do Senhor na comunhão onipresente dos céus.
Penso na dramaturgia até perceber que ela é meu pensamento. Se o cálice for amargo, se eu morrer pela trama, não sei. É tarde para saber. De repente estou com Eva prestes a sermos expulsos do paraíso por um anjo ou um Judas. O BBB me tentou, mas Eva é quem há de herdar, no imaginário dos povos, o símbolo peçonhento do desafeto. Reescreverei um papel (Mudanças no roteiro que ainda não havia sido escrito). Nascido de uma geração que detém concessão pública não me posso assemelhar à ovelha negra da família. Na tragicomédia contemporânea enlaça-me autor, ator e personagem até o estado de teatro para não ferir a Santíssima trindade. Eis-me de novo Big Brother Brasil sem flagrantes de mim. Apenas a vida real reconstrói-se-me antes de queimar o filme.
Haverá perdão para o chato? Numa nota de rodapé valerá a lágrima num dia de pay-per-view? Estarei representando a mim, como uma cifra eventual? Serei um arquivo de que perderam a senha? Ou, antes, direi “Big Brother is watching you!” pela tangente rumo à terra prometida. Enquanto uns se lançam à fé de Daniel, outros perseguem os irmãos de José, mais uns procuram a pedra de Davi; Salomão na prova do anjo para Jacó... Até que tudo vire deserto, consolarei o Senhor no Horto das Oliveiras. Amém!
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