| PARADEIRO |
Poesia que me lança é assim com mais mistério que poesia. Está dentro dela mesma, de tal modo que acaba revelando tudo que não sei na alma humana para poder senti-la.
Pouco e pouco atravesso objetos que me legitimam, mesmo quando fora de mim pegam na minha mão e ditam os contornos e símbolos. Os objetos me devolvem uma corrente de vida, fazem-se em jogo, porque a vida de estranha tem seu jeito imenso, que de tanto exprimir torna-se apenas expressão.
E assim vão surgindo os primeiros versos, as estrofes uma a uma, sem ofício. Apenas vivência. (...)
Um dia então um desses objetos abre caminho para mim e embala: ”Vai, segue esta procissão. Procure-me no meio dela para desconhecer em ti o teu espanto”. Eis a gênese de um feito. O objeto, desaparecido na multidão, soletra-se-me. Transpiro. Como não tenho medo nem coragem, vendo aquele vulto agigantando outros vultos, penso em abraço qual atalho. Mas o abraço é a causa da procura. Apenas o concebo sob a precisão de inventar; do contrário, estarei mentindo. Risco um fósforo, quando a esperança já não é minha. Aquela matéria torna-se minha companheira ausente na caminhada. Tem sete faces e nenhuma me assemelha àquela gente que, sem saber ao menos o porquê da convicção íntima, segue adorando um santo. Mas meu coautor num aspecto é parecido. Desdenha a procissão e me impõe, por essa falta mesma, o poema que sigo apenas pela fé de conter-me numa existência do nada que acumula o mundo. O santo é que é culpado, pois de palavras se cala para ser venerado.
Acabo me tornando grande amigo do sumiço, dono do cortejo religioso. Passos lentos, senão atrapalho o ritual. A esta hora já posso ter algum lume de paradeiro. Estou aproximando-me do objeto, mas o sol é que nos cega. E, como a todos o sol desce, ficamos numa fé cega de desencontro e de revelação, contraste absoluto na vibração da caminhada que em si basta a sensação de resultado. Em quantos ali os poemas lhes conseguem?... Quantos rios se encontram para a surpresa dos dias que se repetem?... A imagem finalmente aparece. Vacila: “Eu te fiz todas as possibilidades de labirinto e me perdi. Eu me achei por toda a tua incerteza do meu lugar”. Ergo o corpo numa sacudidela, examino os lados; não há ninguém. É ela na mais completa aparição. A figura que compunha a repetida prece tão incompreendida por nós e, assim, acertada para o destino pretendido. Em uníssono, a prece nos sustenta a permanência da companhia. Sem pressa de chegada, o objeto me acompanha até sua mais completa transferência: poesia.
Estamos no Brasil, mas não conseguimos almoçar no Bar Brasil
Itamar, Cocal de Telha, Chico Anysio, Napoleão Azevedo e Oliveira Paulo
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