Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de setembro de 2010
PARADEIRO  
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A DESCOBERTA DA POESIA

A DESCOBERTA DA POESIA

 

              A concepção de palavra como organismo vivo me intriga, ademais me induz, de quando em quando, ao seu uso como instrumento de releitura do que de outra maneira não se desnudaria. As lembranças tão presas ao silêncio e ao imediatismo das horas inquietas me arrastam numa correnteza que pouco a pouco é música, dança ou enredo de uma rua vazia depois da festa. Eis o momento para uma poesia e para fugir um pouco dos lugares, onde as coisas não habitam fora do nosso controle.

 

  Poesia que me lança é assim com mais mistério que poesia. Está dentro dela mesma, de tal modo que acaba revelando tudo que não sei na alma humana para poder senti-la.

   

    Pouco e pouco atravesso objetos que me legitimam, mesmo quando fora de mim pegam na minha mão e ditam os contornos e símbolos. Os objetos me devolvem uma corrente de vida, fazem-se em jogo, porque a vida de estranha tem seu jeito imenso, que de tanto exprimir torna-se apenas expressão.

  

 E assim vão surgindo os primeiros versos, as estrofes uma a uma, sem ofício. Apenas vivência. (...)

 

Um dia então um desses objetos abre caminho para mim e embala: ”Vai, segue esta procissão. Procure-me no meio dela para desconhecer em ti o teu espanto”. Eis a gênese de um feito. O objeto, desaparecido na multidão, soletra-se-me.  Transpiro. Como não tenho medo nem coragem, vendo aquele vulto agigantando outros vultos, penso em abraço qual atalho. Mas o abraço é a causa da procura. Apenas o concebo sob a precisão de inventar; do contrário, estarei mentindo. Risco um fósforo, quando a esperança já não é minha. Aquela matéria torna-se minha companheira ausente na caminhada. Tem sete faces e nenhuma me assemelha àquela gente que, sem saber ao menos o porquê da convicção íntima, segue adorando um santo. Mas meu coautor num aspecto é parecido. Desdenha a procissão e me impõe, por essa falta mesma, o poema que sigo apenas pela fé de conter-me numa existência do nada que acumula o mundo. O santo é que é culpado, pois de palavras se cala para ser venerado.

    

Acabo me tornando grande amigo do sumiço, dono do cortejo religioso. Passos lentos, senão atrapalho o ritual. A esta hora já posso ter algum lume de paradeiro. Estou aproximando-me do objeto, mas o sol é que nos cega. E, como a todos o sol desce, ficamos numa fé cega de desencontro e de revelação, contraste absoluto na vibração da caminhada que em si basta a sensação de resultado. Em quantos ali os poemas lhes conseguem?... Quantos rios se encontram para a surpresa dos dias que se repetem?... A imagem finalmente aparece. Vacila: “Eu te fiz todas as possibilidades de labirinto e me perdi. Eu me achei por toda a tua incerteza do meu lugar”. Ergo o corpo numa sacudidela, examino os lados; não há ninguém. É ela na mais completa aparição. A figura que compunha a repetida prece tão incompreendida por nós e, assim, acertada para o destino pretendido. Em uníssono, a prece nos sustenta a permanência da companhia. Sem pressa de chegada, o objeto me acompanha até sua mais completa transferência: poesia.

 

 

 

 

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