Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 06 de fevereiro de 2012
PARADEIRO
Geovane Monteiro
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A DESCOBERTA DA POESIA

A DESCOBERTA DA POESIA

 A concepção de palavra como organismo vivo o intriga, ademais o induz, ao seu uso como instrumento de releitura do que de outra maneira não se desnudaria. As lembranças tão presas ao silêncio e ao imediatismo das horas inquietas o arrastam numa correnteza que pouco a pouco é música, dança ou enredo de uma rua vazia depois da festa. Eis o momento para uma poesia e para fugir um pouco dos lugares, onde as coisas não habitam fora do seu controle.

  Poesia que o lança é assim com mais mistério que poesia. Está dentro dela mesma, de tal modo que acaba revelando tudo que ele não sabe na alma humana para poder senti-la.
   
    Pouco e pouco atravessa objetos legitimado-o, mesmo quando fora dele pegam na sua mão e ditam os contornos e símbolos. Os objetos lhe devolvem uma corrente de vida, fazem-se em jogo; a vida de estranha tem seu jeito imenso; de tanto exprimir torna-se apenas expressão.
  
 E assim vão surgindo os primeiros versos, as estrofes uma a uma, sem ofício. Apenas vivência. (...) Um dia então um desses objetos abre o caminho para ele e embala: ”Vai, segue esta procissão. Procure-me no meio dela para desconhecer em ti o teu espanto”. Eis a gênese de um feito. O objeto, desaparecido na multidão, soletra-se-lhe. Como não tem medo nem coragem, vendo aquele vulto agigantando outros vultos, pensa em abraço qual atalho. O abraço é a causa da procura. Apenas o concebe sob a precisão de inventar; do contrário, estaria mentindo. Risca um fósforo. Transpira. A esperança já não é dele. Aquela matéria torna-se companheira ausente na caminhada. Tem sete faces e nenhuma se assemelha àquela gente que, sem saber ao menos o porquê da convicção íntima, segue adorando um santo. Mas o santo, seu coautor, num aspecto é parecido. Desdenha a procissão e lhe impõe, por essa falta mesma, o poema que ele segue apenas pela fé de contê-lo; a existência do nada acumula o mundo. O santo é que é culpado, pois de palavras se cala para ser venerado.
    
Acaba se tornando grande amigo do sumiço, dono do cortejo religioso. Passos lentos, senão atrapalha o ritual. A esta hora já pode ter algum lume de paradeiro. Está aproximando-se do objeto, mas o sol é que o cega. E, como a todos o sol desce, fica numa fé cega de desencontro e de revelação, contraste absoluto na vibração da caminhada que em si basta a sensação de resultado. Em quantos peregrinos os poemas conseguem-no?... Quantos rios se encontram para a surpresa dos dias que se repetem?... A imagem finalmente aparece. Vacila: “Eu te fiz todas essas possibilidades de labirinto e me perdi. Eu me achei por toda essa tua incerteza do meu lugar”. Ele ergue o corpo numa sacudidela, examina os lados; não há ninguém. É ela na sua mais completa aparição. A figura que compunha a repetida prece tão incompreendida por todos e, assim, acertada para o destino pretendido. Em uníssono, a prece lhe sustenta a permanência da companhia. Sem pressa de chegada, o objeto o acompanha até sua mais completa transferência: poesia.


 

               

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