| PARADEIRO |
Ficou preso no tempo o que libertei sem ter havido porta fechada. Agora a vida em ósculos e andaimes de prédios alheios. Eis os amigos no modo de conceber o querer a tempo e sem previsão.
O querer não mais que sobressalto enquanto, inconsciente, o mundo me metia medo. Mas nunca dispensados; a falta também completava. Tínhamos o peito aberto numa época em que as malícias não doíam tanto.
Os amigos estão onde não há nada contra mim e fere. Mas de nada vale a lança se não há luta. O sol lá fora parece calmo e indivisível. Não há fronteiras em cartas antigas. Mas o querer mal cabe num gesto já se resguarda em doce tristeza. O diálogo que não lembro talvez dissolva as formas de vida dos amigos que não levaram minha culpa, para se tornarem impunes e sobreviventes.
Doce notícia então o que não tem nome e chamo tempo, quando estou me defendendo. Esperançoso olhar o meu no momento de perder-me nas amizades que nunca escolherei. Enquanto isso, vou ficar esperando o querer; ao chegar será tarde demais, porque estarei esperando? A lição não ocorrida perdi-a. Talvez por isso há cânticos dentro de mim; mas eles não tocam, apenas fremem e meus órgãos comunicam as notas sem interpretação, somente impulso. Assim estou sempre me antecipando no que não sei sentir, para minha autorreceptividade. Sou simultâneo a mim e me atrasei, a ponto de envelhecer o sorriso antes de atingir a alegria.
Doce notícia o esquecimento preso na lucidez, quando os anos correram na voz de discos e livros sem força que não correspondesse à espera... à espera de quê? O dom está na omissão para o outro adivinhar o que queremos saber. Os abraços nunca dados nos amparam na mera vontade e o silêncio como resposta nos dá o sinal da amizade. Grandes amigos, segredava eu, quando a surpresa quase se desprendia em descuido. E, reverberando imagens amistosas na timidez escondida em diálogo, o olhar renasce nos reencontros, que retribuem o gesto em surpresa superada.
Os amigos espalhados no caminho apontam meu crime salvo na própria pista. Ora, o tempo de preparar a partida resultou em esperar o que já provou sua força. A potência em conceber um amigo há de compor o homem, instigá-lo a viver no mais longínquo descampado presente; o agora deve apenas se deslocar para outros tempos.
Mas o que quero não está no tempo; apenas se desloca, reconstrói-me nunca a partir de uma construção, de uma fonte. E a luz humana não se vinga da violência adormecida. A luz humana é uma dádiva resistente ao egoísmo de não se saber evoluir. Ela perdoa apenas em distrair-se; não se põe falta de compromisso no que está fora de disputa. Sua bondade está em não ter parte na irresponsável solidão.
Quando me avisaram que eu estava avançando a avenida, o aviso ficou para trás da voz de alerta; por isso, não percebi o adeus; eis o disfarce do que somos: a voz que falava de segurança e eternidade sem notar fazia parte de um conluio; mas enquanto algo morria, eu questionava a distração; portanto não sobrevivi. Quem se distrai está salvo da própria incompreensão. Quem sabe morrer cria uma entidade de reserva: os novos amigos. Não, não somos escuros. Somos amantes. É o que nos torna iguais. Apenas o amor é por vezes rebuscado.
Mas afinal os amigos, pois não somos nós ainda? Não devemos cobrar proteção do que ajudamos a fazer dormir. O sono é uma espécie de liberdade sem constrangimento.
Arriscávamos o vento das ruas num começo que compreende todo o processo; mas sem a maturidade que não inspirasse o selvagem domesticado, a procura involuntária por uma prova de tolice. Assim o próprio estranhamento na dor a tornar-nos irremediavelmente amigos. Assim nos coincidimos por devoção à conquista do número nunca somado ou nos perderíamos de vista. A amizade contemplada para a leveza de uma fé com seguidores sem religião.
O que quero está onde não sei, única forma de fazer o lugar existir. O silêncio já não reproduz palavras, no fracasso de eu sequer ter sido derrotado. Não há salvação no impossivelmente salvo, como uma flor brotada do penhasco. A flor com força baldia, com beleza íngreme. Do cume escorregadiço, sementes restabelecem planaltos, na linguagem da queda. Enquanto isso, a flor de rasas raízes desabrocha a resistência ao declive. Pétala por pétala, o homem colhe o perfume, quando o medo aflora a confundir-se com regresso. Mas o perfume tem a essência do próprio olfato a deixar escapar no fundo do rochedo o pólen do girassol esfarelado.
Ao passo que desperdiçam as corolas por pura inocência, vou principiando escolhas no abrir de um voo motivado pelo espanto. Flor nasce perfeita, porque não sabe que é flor. Apenas consegue ser o que é. Assim há amigos em floriculturas fechadas para balanço.
Suave o acaso, quando as promessas sinalizam necessidade de companhia. Quantas vezes deixei de sorrir, para correr perigo. Mas de volta às conversações, os pedidos de desculpas eram interpretados por nosso saber-estar-sentindo, como coisa que só sobrevive na vagueza.
Mesmo no abandono da dúvida, mesmo quando não me prenderam, acostumei-me a não suportar. Assim os amigos manifestando minha sede, na compreensão não mais que o ânimo de querer – surpresa sem ultrapassar espanto.
Amigos! São sim as flores que plantamos no caminho, outros botões vão se abrindo conforme a nossa busca ansiosa da partilha, mesmo aquelas que brotam do lodo trazem na essência a beleza e a simplicidade da doação. A amizade é inocente como a flor e tão livre quanto. Gosto muito dos teus contos; a tua sensibilidade toca-me profundamente. Abraços da jady
Não é fácil estar no beiral de um precipício e ser flor! nisto reside a inocência ou alheiamento, não sei. Gostei muito! Maravilhoso
O livro “Dom Casmurro” (1899) conta a história de Bento Santiago, mais conhecido como Dom Casmurro
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