Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
PANORAMA
José Fortes
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Os problemas sociais e políticos


Por Bento XVI
Chegando a este ponto podemos nos perguntar: Como a Igreja pode contribuir para a solução dos urgentes problemas sociais e políticos, e responder ao grande desafio da pobreza e da miséria? Os problemas da América Latina e do Caribe, como também do mundo de hoje, são múltiplos e complexos, e não se podem enfrentar com programas gerais. Entretanto, a questão fundamental sobre o modo como a Igreja, iluminada pela fé em Cristo, deve reagir diante dos desafios, concerne a todos nós. Neste contexto é inevitável falar do problema das estruturas, sobretudo das que criam injustiça. Na realidade, as estruturas justas são uma condição sem a qual não é possível uma ordem justa na sociedade. Mas, como nascem? Como funcionam? Tanto o capitalismo como o marxismo prometeram encontrar o caminho para a criação de estruturas justas e afirmaram que estas, uma vez estabelecidas, funcionariam por si mesmas; afirmaram que não só não teriam tido necessidade de uma moralidade individual precedente, mas que elas fomentariam a moralidade comum. E esta promessa ideológica se demonstrou como falsa. Os fatos evidenciaram isso. O sistema marxista, onde governou, não só deixou uma triste herança de destruições econômicas e ecológicas, mas também uma dolorosa destruição do espírito. E vemos o mesmo também no ocidente, onde cresce constantemente a distância entre pobres e ricos e se produz uma inquietante degradação da dignidade pessoal com a droga, o álcool e as sutis ilusões de felicidade.

As estruturas justas são, como disse, uma condição indispensável para uma sociedade justa, mas não nascem nem funcionam sem um consenso moral da sociedade, sobre os valores fundamentais e sobre a necessidade de viver estes valores com as necessárias renúncias, inclusive em contra do interesse pessoal.

Onde Deus está ausente – o deus do rosto humano de Jesus Cristo – estes valores não se mostram com toda a sua força, nem se produz um consenso sobre eles. Não quero dizer que os não-crentes não possam viver uma moralidade elevada e exemplar; digo somente que a sociedade na que Deus está ausente não encontra o consenso necessário sobre os valores morais e a força para viver segundo a pauta destes valores, mesmo que contra os próprios interesses.

Por outro lado, as estruturas justas devem ser buscadas e elaboradas à luz dos valores fundamentais, com todo o empenho da razão política, econômica e social. São uma questão da recta ratio e não provêm de ideologias nem de suas promessas. Certamente existe um tesouro de experiências políticas e de conhecimento sobre os problemas sociais e econômicos, que evidenciam elementos fundamentais de um estado justo e d caminhos que se devem evitar. Mas em situações culturais e políticas diversas, e na mudança progressiva das tecnologias e da realidade histórica mundial, deve-se buscar, de maneira racional, as respostas adequadas e deve-se criar – com os compromissos indispensáveis – o consenso sobre as estruturas que hão de ser estabelecidas.

Este trabalho político não é competência imediata da Igreja. O respeito a uma sadia laicidade – inclusive na pluralidade das posições políticas – é essencial na tradição cristã autêntica. Se a Igreja começasse a se transformar diretamente em sujeito político, não faria mais pelos pobres e pela justiça, mas, pelo contrário, faria menos, porque perderia sua independência e sua autoridade moral, se identificando com uma única via política e com posições parciais questionáveis. A Igreja é advogada da justiça e dos pobres, precisamente ao não se identificar com os políticos nem com os interesses partidários. Só sendo independente pode ensinar os grandes critérios e os valores perenes, orientar as consciências e oferecer uma opção de vida que vai mais além do âmbito político. Formar as consciências, ser advogada da justiça e da verdade, educar nas virtudes individuais e políticas, é a vocação fundamental da Igreja neste setor. E os leigos católicos devem ser conscientes de sua responsabilidade na vida pública; devem estar presentes na formação dos consensos necessários e na oposição contra as injustiças.

As estruturas justas jamais serão completas de modo definitivo; pela constante evolução da história, devem ser sempre renovadas e atualizadas; devem estar animadas sempre por um “ethos” político e humano, por cuja presença e eficiência se deve trabalhar sempre. Em outras palavras, a presença de Deus, a amizade com o Filho de Deus encarnado, a luz da sua Palavra, são sempre condições fundamentais para a presença e eficiência da justiça e do amor em nossas sociedades.

Por se tratar de um Continente de batizados, convém destacar a notável ausência, no âmbito político, comunicativo e universitário, de vozes e iniciativas de líderes católicos de forte personalidade e de vocação abnegada, que sejam coerentes com as convicções éticas e religiosas. Os movimentos eclesiais têm aqui um amplo campo para recordar aos leigos sua responsabilidade e sua missão de levar a luz do Evangelho à vida pública, cultural, econômica e política.

 

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