PANORAMA
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Evilásio Gonçalves Vilanova (foto) filho de Francisco Gonçalves Vilanova (prefeito de Caxias em 1922 e em 1933) e de Querubina Gonçalves Vilanova, nasceu em Caxias. Era irmão de Jacila, Ibranditina, Francisco, José e Ezer Gonçalves Vilanova (todos falecidos). Por conhecer bem Teresina e ser amigo pessoal do ex-interventor Landri Sales, espécie de mentor de Leônidas de Castro Melo, foi indicado pelo primeiro para servir no governo do segundo como comandante da Polícia Militar, com todo o aval de Eurico Gaspar Dutra, ministro da Guerra de Getúlio Vargas.
A família Vilanova, que residia no Rio de Janeiro, viajou daquela cidade para Teresina, via São Luís, onde pegou um trem para a Capital do Piauí. O trem só chegava até Flores (hoje Timon) e a travessia do Rio Parnaíba se fazia de canoa para a outra margem. Aqui, passou a residir na Rua Paissandu, do lado esquerdo de que vem do Rio Parnaíba, no quarteirão entre a Praça Pedro II e o Palácio de Karnak, numa casa alugada de dona Lily Lopes, sogra de Eurípides de Aguiar.
O jornalista Afonso Ligório Pires de Carvalho, em seu livro Tempos de Leônidas Melo, Teresina, UFPI, 2ª edição, página 29, escreve que a família Vilanova era bonita. “D. Nadir, na visão do teresinense de então, parecia saída da tela do recém-inaugurado Cine Rex, tal a elegância como veio trajada, produzida, inclusive usando chapéu e luvas. A filha Marisa, adolescente, dava sinais visíveis da beleza que logo a seguir mostraria, deixando muitos jovens de sua idade a admirá-la. Era moçoila alegre, comunicativa. Os pais matricularam-na no Colégio do sagrado Coração de Jesus, o melhor da Cidade, para moças”. Atualmente, Marisa, casada com Flávio, capitão de mar e guerra, mora em Brasília com os filhos Sérgio e Ricardo.
O mesmo Afonso Ligório informa que a situação do Piauí mudou surpreendentemente em questão de segurança pública: “A primeira providência de Evilásio foi ampliar o prédio do quartel da Polícia Militar e ali instalar, além dos alojamentos de praças, sargentos e oficiais, oficinas de alfaiataria, marcenaria e sapataria, que passaram a funcionar como uma indústria dinâmica. Outros espaços do terreno que ocupava um quarteirão inteiro, tiveram destinação adequada. Até a banda de música ganharia uma sala especial. Tudo limpo, organizado. A educação física, que não era praticada, passou a ser diária e obrigatória para a corporação inteira, incluindo soldados e oficiais. Houve como que um renascimento da velha Polícia Militar, antes entregue a uma rotina pachorrenta, decadente. Não demorou, Evilásio criou um Batalhão de Cavalaria, a chamada Polícia Montada de Teresina. Novidade. Os cavalos de raça foram adquiridos em São Paulo, segundo d. Nadir. A missão era fazer a vigilância noturna ostensiva, não apenas no centro da cidade, mas igualmente na periferia, antes abandonada, que passou a contar com proteção policial. Os soldados da cavalaria, aclamados onde passavam, eram armados como cavaleiros andantes, de lança e espada, armas com as quais coagiam os malfeitores e às vezes cometiam excessos. Com o passar do tempo, tornaram-se temidos pela habilidade em aplicar pano, deixando marcas de suas espadas nas costas de quem lhe caísse nas garras. O pano consistia em bater como chicote, sem usar o fio da espada, com o que dispersavam ajuntamentos ou brigas e evitavam ferimentos visíveis. A Polícia Civil foi igualmente contemplada com um prédio, construído ou reformado na Rua Félix Pacheco, quando deixou as acanhadas instalações no beco entre a Faculdade de Direito e a Igreja do Amparo. A nova casa da polícia, embora térrea, ia da Rua Treze de Maio à Praça Saraiva, com entrada principal pela Félix Pacheco. Além de novos e modernos armamentos, principalmente revólveres importados, em substituição aos antigos canos longos, Evilásio aumentou o efetivo e adquiriu um carro especial para transportar presos, novidade logo apelidada de carinhosa pelo povo e, com o qual a ação policial se fazia mais rápida. Era uma espécie de rádio-patrulha sem rádio. Com a carinhosa a polícia de Teresina ganharia o seu primeiro transporte motorizado. Agilizou suas intervenções. O dr. Leônidas estava entusiasmado com o novo chefe de polícia e suas idéias renovadoras, a quem não negava elogios e ajuda para a melhoria das polícias civil e militar. D. Nadir disse que era só Evilásio pedir e o interventor mandava os meios. Em agosto de 1941 surgiram os incêndios. Em princípio, como nos anos anteriores, destruíam poucas palhoças. Não houve preocupação maior. Mas logo o fogo passou a se repetir quase todos os dias, sempre à tarde. A periferia da cidade, a partir de 1943, começou a arder, quase ininterruptamente, como uma fogueira imensa. Evilásio, sem perda de tempo, levou ao dr. Leônidas mais uma de suas idéias, um novo plano. Desta vez, para combater os incêndios. Justificou que Teresina não contava ainda como socorro para calamidade pública, desse tipo. Nem ao menos dispunha de um agrupamento de voluntários de combate a incêndios. Era, portanto, uma cidade aberta, exposta ao fogo. Leônidas, mais do que depressa, acolheu a opinião do auxiliar e autorizou, com o mesmo entusiasmo, a criação do Corpo de Bombeiros, mandou Evilásio adquirir em São Paulo carros especializados e treinar o pessoal como melhor conviesse. Não há negar que os moradores da cidade também se entusiasmaram e aplaudiram a nova iniciativa do Chefe de Polícia, que começava a ficar famoso. Quando as viaturas chegaram, logo entraram em ação. Os primeiros integrantes da nova corporação anexada à polícia militar já haviam recebido treinamento em Fortaleza e São Paulo. Também foram adquiridos capacetes, cintos, máscaras, roupas especiais de combate ao fogo e tudo o que era necessário à tarefa dos bombeiros. Foi grande a ajuda dos bombeiros para debelar o fogo. Já não se compreendia um incêndio, por menor que fosse, sem a convocação dos bombeiros, que recebiam palmas dos moradores por onde os carros passavam. O povo, porém, a gente pobre, não demorou a reclamar. É que os veículos se destinavam a incêndios em grandes prédios e em Teresina só queimavam míseras choupanas. O forte jato das mangueiras, ajudadas por possantes bombas de recalque, apagavam o incêndio mas derrubavam parcialmente os frágeis casebres de taipa. Os bombeiros tiveram logo que reduzir a força dos jatos de água”.
Marisa, filha de Evilásio Vilanova, em depoimento ao jornalista Afonso Ligório, lembrou que quando os bombeiros eram chamados para debelar algum foco de incêndio, encontravam às vezes, valas abertas no meio da rua e os carros de combate ao fogo ao entrar em alta velocidade se espatifavam na buraqueira, impedindo o socorro e, ao mesmo tempo, colocando fora de circulação os poucos veículos existentes. Parecia, segundo ela, coisa proposital. As valas, entretanto, informa Afonso Ligório, eram esgotos a céu-aberto que existiam nos subúrbios à falta de uma rede de saneamento básico na cidade. O único esgoto de Teresina, na época, foi construído com a inauguração do Hospital Getúlio Vargas, que despejava dejetos daquela casa de saúde no Rio Parnaíba, junto à Palha de Arroz.
Há quem afirme que os incêndios foram provocados por Evilásio Gonçalves Vilanova ora para forçar a criação do Corpo de Bombeiros, ora para desestabilizar o governador Leônidas de Castro Melo e assumir o Palácio de Karnak. Nesse sentido, mandava prender e obrigava, por meio de tortura, que os infelizes citassem em seus depoimentos nomes de auxiliares próximo de Leônidas Melo, como Sotero Vaz da Silveira, diretor da Educação, e Lindolfo do Rêgo Monteiro, prefeito de Teresina, além de grandes figuras da oposição como o próprio Eurípides de Aguiar e José Cândido Ferraz, que ainda chegou a ser preso e solto por força de habeas corpus. A sua prisão se deu em decorrência dos depoimentos de Manoel Gomes Feitosa e Sebastião Hilário de Sousa, bastante torturados. A prisão preventiva de José Cândido Ferraz foi decretada pelo juiz Pedro Conde. Serviu-lhe de advogado de defesa o dr. Clodomir Cardoso. O então major Adovaldo Figueiredo Souza, comandante do 25º BC, depôs perante o Tribunal de Segurança Nacional como testemunha de defesa de José Cândido Ferraz. Do mesmo modo, prestou depoimento a favor o bispo do Piauí d. Severino Vieira de Melo.
Há, ainda, quem garanta que os incêndios foram provocados por Evilásio Gonçalves Vilanova, que se preocupava excessivamente com limpeza e organização, como uma espécie de “higienização” de Teresina por conta da aproximação do Centenário de Teresina. Naquela época, a cidade contava com 2/3 de casas de taipa com cobertura de palha. Quando havia incêndio, o alarme era dado pelo sino da Igreja de São Benedito, no Alto da Moderação. Mas de 200 cidadãos do povo foram presos e torturados nas dependências do quartel de polícia ou nos centros de tortura situados no antigo campo de aviação e nos Bairros Ilhotas e Tabuleta. O comerciante Albino, por exemplo, foi enterrado até o pescoço e mesmo assim se recusou a assinar documento acusando José Cândido Ferraz como autor intelectual do incêndio. O operário Manoel Gomes Feitosa não resistiu à selvageria das torturas, teve os intestinos rompidos e morreu no quartel.
Leônidas de Castro Melo pediu ao dr. Agenor Barbosa de Almeida, diretor do HGV e do Instituto de Assistência Hospitalar para fazer uma apuração criteriosa da situação que se encontravam os presos. Em seu relatório, ele disse que viu a entre-sala do inferno. Juntamente com o dr. Antenor Neiva, comprovou muitas prisões, muita gente presa inocentemente e muitos maltratados, surrados e torturados. Leônidas de Castro Melo, chamou Evilásio Gonçalves Vilanova para falar do relatório e pedir explicação. Neste momento, já não mais suportando a campanha movida contra ele pelas forças que compunham a sociedade civil organizada de Teresina, vendo-se derrotado e sentindo-se agredido ou desprezado em cada ambiente que freqüentava, o todo poderoso Evilásio Gonçalves Vilanova resolveu deixar o comando da Polícia Militar, a chefia de Polícia (que passou a acumular com a exoneração de Delfino Vaz Pereira de Araújo, que não aceitou participar do esquema de terror e medo), e voltar ao Exército. Época de guerra, foi logo indicado a fazer um curso nos Estados Unidos. Ao retornar, Evilásio Vilanova serviu no 15º RI de João Pessoa, na preparação da tropa do Nordeste que embarcaria para a Europa, porém a guerra terminou antes de o pessoal seguir.
Já general reformado, Evilásio Vilanova passou a morar, com a família, em Brasília, num apartamento da 107 Sul, junto ao hoje Bar Xique-Xique, onde, aos sábados, ainda hoje os piauienses se reúnem para matar a saudade da boa terrinha.
Evilásio Vilanova não era dado a escrever, à exceção dos relatórios entregues a Leônidas de Castro Melo, que os destruiu como destruiu tudo que se relacionasse aos incêndios de Teresina, à época, por isso não deixou nenhum apontamento que pudesse desvendar o mistério dessa grande mancha na história do Piauí.
Vítima, possivelmente, das noites frias dormidas no chão, ao relento, entre Minas Gerais e São Paulo, na Revolução de 1932, adquiriu problemas pulmonares e uma paralisia no nervo maxilar direito, que lhe prejudicava a fala. Quando moço não ligou para isso, mas, velho, reformado, quis se tratar depois de uma crise prolongada. O organismo não respondeu à medicação, antes, piorou. Evilásio Gonçalves Vilanova faleceu em 1981 no Hospital das Forças Armadas de Brasília. Os seus restos mortais repousam no Cemitério do Campo da Esperança.
Seis anos antes de morrer, Evilásio Vilanova, acompanhado de um neto, filho de Marisa, veio a Teresina (1976). Era a primeira visita desde 1943. Veio do Rio de Janeiro, por terra. Teresina, em suas expressões, estava adulta, diferente, espichada, com poucas casas de palha, muitos prédios altos, novas avenidas e uma população acima de 200 mil habitantes. Foi visitar o amigo Leônidas de Castro Melo, que estava adoentado e descansava numa rede, no andar de cima de sua residência, na Avenida Frei Serafim, nº , onde hoje está instalada uma loja da JELTA. Ao ver o amigo, Leônidas mostrou-se feliz, principalmente por saber que ele estava vivo: - “Pensei que você tivesse morrido num acidente de carro”, disse-lhe. - “Não, dr. Leônidas, aqui estou de visita. Realmente escapei de duas viradas acidentais, mas ainda não foi desta vez, como muitos por aqui desejam”, respondeu com humor. (Do Entre sem bater-Kenard)
Texto interessante e que nos leva a pensar que o responsável pelos incêndios em Teresina, na década de 40, talvez tenha sido esse Evilásio Gonçalves Vilanova. Pelo que está descrito, parece que ele era uma figura truculenta. Luiz W A Ramos
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