Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
PANORAMA
José Fortes
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A fé cristã na América Latina

por Bento XVI*
A fé em Deus tem animado a vida e a cultura destes povos durante mais de cinco séculos. Do encontro dessa fé com as etnias originárias nasceu a rica cultura cristã deste Continente (América Latina), expressada na arte, na música, na literatura e, sobretudo, nas tradições religiosas e na idiossincrasia de seus povos, unidas por uma mesma história e um mesmo credo, e formando uma grande sintonia na diversidade de culturas e de línguas. Na atualidade esta mesma fé deve enfrentar sérios desafios, pois estão em jogo o desenvolvimento harmônico da sociedade e da identidade católica de seus povos. A esse respeito, a V Conferência Geral vai refletir sobre esta situação para ajudar os fiéis cristãos a viver sua fé com alegria e coerência, a tomar consciência de ser discípulos e missionários de Cristo, enviados por ele ao mundo para anunciar e dar testemunho de nossa fé e de nosso amor.

Mas o que significou a aceitação da fé cristã para os povos da América Latina e do Caribe? Para eles significou conhecer e acolher Cristo, o Deus desconhecido que seus antepassados, sem o saber, buscavam em suas ricas tradições religiosas. Cristo era o Salvador que ansiavam silenciosamente. Significou também ter recebido, com as águas do batismo, a vida divina que os fez filhos de Deus por adoção; ter recebido, ademais, o Espírito Santo que veio fecundar suas culturas, purificando-as e desenvolvendo os numerosos germens e sementes que o Verbo encarnado tinha colocado nelas, orientando-as assim pelos caminhos do Evangelho. De fato, o anúncio de Jesus e do seu Evangelho não supôs, em nenhum momento, uma alienação das culturas pré-colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura estranha. As autênticas culturas não estão fechadas em si mesmas nem petrificadas num determinado ponto da história, mas estão abertas; ainda mais: buscam o encontro com outras culturas, esperam alcançar a universalidade no encontro e no diálogo com outras formas de vida e com os elementos que possam levar a uma nova síntese, na qual se repete sempre a diversidade das expressões e de sua realização cultural concreta.

Em última instância, só a verdade unifica e sua prova é o amor. Por isso Cristo, sendo realmente o Logos encarnado, “o amor até o extremo”, não é alheio a cultura alguma nem a nenhuma pessoa, pelo contrário, a resposta desejada no coração das culturas é o que lhes dá sua identidade última, unindo a humanidade e respeitando, ao mesmo tempo, a riqueza das diversidades, abrindo todos ao crescimento na verdadeira humanização, no autêntico progresso. O Verbo de Deus, fazendo-se carne em Jesus Cristo, se fez também história e cultura.

A utopia de voltar a dar vida às religiões pré-colombianas, as separando de Cristo e da Igreja universal, não seria um progresso, mas um retrocesso. Na realidade seria uma involução a um momento histórico ancorado no passado.

A sabedoria dos povos originários os levou felizmente a formar uma síntese entre suas culturas e a fé cristã que os missionários lhes ofereciam. Dali nasceu a rica e profunda religiosidade popular, na qual aparece a alma dos povos latino-americanos:

- o amor a Cristo sofredor, o Deus da compaixão, do perdão e da reconciliação; o deus que nos amou até se entregar por nós;
- o amor ao Senhor presente na Eucaristia, o Deus encarnado, morto e ressuscitado para ser Pão da Vida;
- o Deus próximo aos pobres e aos que sofrem;
- a profunda devoção a Nossa Senhora de Guadalupe, de Aparecida ou das diversas avocações nacionais e locais. Quando a Virgem de Guadalupe apareceu ao índio São João Diego lhe disse estas significativas palavras: “Não estou eu aqui que sou tua mãe?, não estás sob a minha sombra e amparo?, não sou a fonte da tua alegria?, não estás no aconchego do meu manto, no encontro dos meus braços?” (Nican Mopohua, n. 118-119)

Esta religiosidade se expressa também na devoção aos santos com suas festas patronais, no amor ao Papa e aos demais Pastores, no amor à Igreja universal como grande família de Deus que nunca pode nem deve deixar sozinhos ou na miséria seus próprios filhos. Tudo isso forma o grande mosaico da religiosidade popular que é o precioso tesouro da Igreja católica na América Latina, e que ela deve proteger. Promover e, naquilo que for necessário, também purificar.

* Papa, maior autoridade eclesiástica da Igreja Católica

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