PALAVRA ABERTA
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AUTO-REFLEXÃO
Desliza rispidamente
Ansiosa por buscar
Um refúgio, um recanto
Um além-da-direção.
Resvala como brumas
Em profundo alto-mar
As marés murmuram quentes
Rejeitando a invasão
Desta marcha que supõe
Um espectro de suspeita.
(Livro Estrada Virgem, 1997)
CRUZANDO
Em vez de retinas
Vi duas janelas
Com um salto peralta
A dentro rolei.
(Livro Estrada Virgem, 1997)
CUMPRIMENTO
Impressionou-me aquele riso
Oscilante, ultrajado
Sem marcas de origem
Ocioso, dissimulado
Divagando sem compromisso
Misterioso, indeciso
Revelando seu disfarce
(Livro Estrada Virgem, 1997)
INSIPIDEZ
Num casulo ofegante
Acomodas-te tepidamente
Em lençóis de estupidez.
Se a luz te é agressiva
E a escuridão te deprecia
Que é do teu vigor?
Insípida existência
Envergonhas a própria vida
Não és, nem deixas de ser
Sem reação, imbecilizado
Paira simplesmente
Ocupando um espaço
(Livro Estrada Virgem, 1997)
ESTRADA VIRGEM
Apreciei aquela paisagem
E buscando seus efeitos
Afrontei a inquietação
Ao sentir seu calor
Curvaram-se seus raios
Por entre passos obtusos
Perdi-me do meu passado
Se não viesse o fim
Viria a claridade
Do singular desvendamento
Desta estrada virgem
(Livro Estrada Virgem, 1997)
MADRIGAL-ABOIO
“Soon far from the rose and the lily, the fret of the flames, would we be,
Were we only white birds, my beloved, buoyed out on the foam of the sea”
(The White Birds, William Butler Yeats)
Lanço flores às alvas margens
Águas malvas acetinagens
Pássaros brancos abrindo céus
Veludos sobem arméus
Vejo o véu do cheiro-mato
Esvoaçando essência extrato
Do mítico cavalgar
Nos ares, cerúleo outono
Colinas, dança crepuscular
Madrigal aboio entono.
(Inédito)
O BEIJO
Desprende-se do riso
O beijo girassol
Em trajeto desassiso
Beija o sonho arrebol
Nas matas que descobrem
Os passos do seu bem
Livre sonho, o desvario
O beijo na curva do rio
Na dança da paisagem
Cálido beijo imagem
A lua beijando o céu
Abraço, folhas em véu
O carinho dos amantes
Em palavras sussurrantes
Soa harmônica epiderme
O toque, amado incerne
A névoa, cúmplice alcova
Olhar que se enamora
Sob a copa do ipê
Alçado em seu querer
A bruma toca as flores
O vento traz olores
Perfumando o silêncio
De lábios que como lenço
Protegem o desejo
Eternizado no beijo
(Inédito)
BEIJA-FLOR
Embriaga o odor vinho
Nostálgico sopro-olimpo
O cheiro pressagia o sinal
Dionisíaca presença ritual
No perfume, baila o convite
Insone passado revive
O néctar da flor encarnada
Atraente doçura constelada
Janelas flutuam olhares
Farol, arco-íris nos ares
Fantasia em flamante magia
Entrega aos raios do dia
O ser beija-flor transfigurado
Mulher corpo extasiado
Em ondas vorazes voava
Beijo alado deslizava
Mel marca sensível
No corpo volível
Sonhos escoam
Desatinam
Soam
(Inédito)
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