Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2012
PALAVRA ABERTA
Gelda Ribeiro
Tamanho da letra A +A

ENTREVISTA COM O PROFESSOR E ESCRITOR PERNAMBUCANO WALTER B. DA SILVA

Walter da Silva1, que mantém uma página no site Usina de letras2, consegue imprimir à sua criação artística marcas peculiares. Com uma produção eclética que envolve gêneros tais como composições musicais, contos, ensaios, poesias, dentre outros, demonstra-se despreocupado, conforme se percebe, quanto a se circunscrever dentro dos moldes de uma única linha da tradição literária. Pincela seus escritos com um tom incisivo e, no mais das vezes, reveste-os de si mesmo, “waterizando-os”, segundo terminologia do próprio escritor. Mais detalhes da sua produção poderão ser conhecidos através da interlocução que segue abaixo.

FRANCIGELDA RIBEIRO: Em que estágio existencial você percebeu o afloramento da sua inclinação às artes?
WALTER DA SILVA: É inacreditável.  Mas eu só tinha 10 anos.  Compus uma melodia no meu aniversário.  O mais desagradável nesse episódio, foi ter que cantar a tal música, no “alto-falante” pra toda a vizinhança ouvir.   Tive a sensação que estava morrendo de vergonha.

FR: O trânsito que você estabelece entre música, prosa e poesia se processou de que modo dentro da sua vivência artística?
WS – Bem.   A primeira página que escrevi, auto-criticamente falando, foi um conto chamado AURORA.   Por favor, era muito instável.   Não era eu que escrevera aquilo.   Prefiro esquecer. Mas objetivamente, tudo começou mesmo com a música.   A música é e continuará sendo uma espécie de estuário em minha modesta criação artística.   Participei de vários festivais de música em Recife e ganhei vários prêmios.  Até que cansei daquilo tudo.

FR: Você reconhece influências de quais artistas na sua produção?
WS - Ah... muita gente.   Principalmente LISPECTOR, VINÍCIUS DE MORAES, DRUMMMOND, CHICO BUARQUE, ANTONIO CARLOS JOBIM e, claro, meu autor predileto: LUÍS BORGES.
 
FR: No artigo Os noventa anos do meu pai bem como na carta A cerimônia dos adeuses, você narra perdas de familiares e de amigos em palavras que se tornam lancinantes, certamente, até aos leitores menos sensíveis. No entanto, em momento algum sua ordem narrativa aparece marcada por autopiedade ou por apelação afetiva. Algum traço identitário do autor determina essa técnica empregada pelo narrador?
WS - Tenho muito receio de me tornar piegas.  Choro internamente, quando não consigo chorar de verdade.   Mas tento sempre manter o “élan” e um certo distanciamento stanilavskiano.
 
FR: No que tange à poesia, como se dá o processo de composição para você? E por que a opção pelos sonetos?
WS - Sabe, GELDÍSSIMA, sou um homem encantado pelo viver, pela apreciação da natureza.   O processo é como se eu quisesse “digerir” a palavra.   E esse código brasileirês é muito difícil.   Você que o diga, posto que é do ramo.   Desde adolescente, li muito FERNANDO PESSOA, ANTERO DE QUENTAL , PETRARCA  e VINÍCIUS DE MORAES.   Alegra-me “digerir” sonetos.  Eles têm uma proteína especial.

FR: A presença da figura feminina é uma constante na sua produção. Musas são fontes imprescindíveis?
WS - Sem dúvida.   Sou um romântico na acepção beethoveniana do termo.   Mas já escrevi sobre um homem que amei muito: meu irmão Valdir Antonio, que resolveu morrer em 2002.

FR: Algo patente é também a alusão ao ciberespaço. Por que aspectos concernentes a tal universo figuram tão enfaticamente em seus textos?
WS - Li alguma vez em HUXLEY, o escritor, que “o mal da ficção é que ela faz sentido demais. A realidade nunca faz sentido”.   Incorporei e não vou mais parar de escrever sobre o ciberespaço.  É fascinante.   Torna-se-me uma criança diuturna.
 
FR: Não faltam vozes das mais diversificadas áreas para avolumar o debate estabelecido entre estética e ética, que há muito se estende no meio acadêmico. Como você se reporta à questão? A arte tem uma função externa ou a especificidade do discurso literário é de natureza intrínseca como quiseram os formalistas russos?
WS - Não.   A arte é necessária.   É um ingrediente do cotidiano.  Sem ela não há humanismo, não há o homem, não há a mulher e o meio-ambiente perde sua essência.

FR: O ensaio Algumas reflexões sobre balaismo é, para mim, um ponto exponencial dentre seus escritos. Não é intenção sua debruçar-se sobre o tema mais detidamente, a fim de aprofundá-lo sistematicamente no sentido de disponibilizá-lo enquanto uma matriz para que outros possam dar prosseguimento analítico à prática que você cunha de Balaísmo?  
WS – Você está me estimulando a continuar essa tarefa.   Acredito que deveria ter mais fôlego e efetuar uma pesquisa mais aprofundada sobre o tema.   Inclusive porque as variações sobre ele têm-me alertado sobre sua importância no comportamentismo cotidiano.   Minha filha psicóloga também me inquiriu sobre a possibilidade de prosseguir.    Mas temo que isso se torne demasiadamente acadêmico e perca seu conteúdo prático.
 
 
Camaragibe, 20 de janeiro de 2008


1 WALTER B. DA SILVA,  professor  licenciado  de  Metodologia  Científica  da  Universidade Federal de Pernambuco, mestre e doutor em  Administração  Pública  e  de  Empresas. 
 
2 www.usinadeletras.com.br/exibelotextoautor.php?user=abcklm

 

                                                                 

 

 

 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

10.03.2012 - SUPLEMENTO DOMINICAL DO JORNAL DO BRASIL

11.02.2012 - O sussurro das margens

16.09.2009 - ENTREVISTA COM ASSIS BRASIL – O SUPLEMENTO DOMINICAL DO JORNAL DO BRASIL E A CRÍTICA LITERÁRIA BRASILEIRA

29.06.2009 - As relações de poder no decurso das obras Beira rio beira vida e A filha do meio-quilo

23.11.2008 - A PERSONAGEM EM "O AMANTE" DE MARGUERITE DURAS

05.08.2008 - FORMA E CONTEÚDO NA AÇÃO DO ENGAJAMENTO LITERÁRIO*

26.06.2008 - TETRALOGIA PIAUIENSE: UM REPTO AOS DISCURSOS OFICIAIS

18.05.2008 - INGÊNUAS COBIÇAS DE RUBIÃO - GLÓRIA E COLAPSO EM QUINCAS BORBA

05.03.2008 - A CHAVE DO AMOR E OUTRAS HISTÓRIAS PIAUIENSES

05.02.2008 - A DIMENSÃO ESTÉTICO-EXISTENCIAL EM LÊDO IVO - ENTREVISTA COM ASSIS BRASIL

26.01.2008 - A CORTE, O CORTE, O CORTIÇO

24.01.2008 - POEMAS - Gelda

20.01.2008 - ENTREVISTA COM O PROFESSOR E ESCRITOR PERNAMBUCANO WALTER B. DA SILVA

11.10.2007 - A REINVENÇÃO DOS SIGNOS NA EXPERIÊNCIA MNÊMICA DE H.DOBAL

22.07.2007 - GÊNEROS LITERÁRIOS

Ver mais

Dicionário de Escritores Entretextos Editora On-line
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online
Últimas matérias

21.05.2012 - TRÊS MESES NO SÉCULO 81, de Jeronymo Monteiro

Quando será reeditado este clássico da ficção científica nacional?

21.05.2012 - Um poema de Matthew Arnold (1822-1888)

Come to me in my dreams

21.05.2012 - José despede-se

Um septuagenário incorrigível descobre que tem Alzheimer e recusa-se a deixar este mundo sem primeiro fazer as pazes com um velho amigo que em jovem lhe roubou a namorada

20.05.2012 - As aulas vão (re)começar

Carrossel, no SBT

20.05.2012 - ALVAL abre inscrições para preenchimento da cadeira 16

ALVAL abre inscrições para preenchimento da cadeira 16

19.05.2012 - João Bandeira Monte é eleito para ocupar a cadeira 36 da ALVAL

João Bandeira Monte é eleito para ocupar a cadeira 36 da ALVAL

19.05.2012 - XI Prêmio Literário Livraria Asabeça 2012

O prêmio de 2012 contemplará trabalhos inéditos nos gêneros literários POESIA e CONTO

19.05.2012 - Tentativa de golpe eleitoral

O estrago vai ser grande.

18.05.2012 - Ambientes

[Geraldo Lima]

18.05.2012 - Alexandre O’Neill

é um labirinto de vaidades rendilhadas

18.05.2012 - O GEDAM - Grupo Espaço de Dança do Amazonas

O que não falta aos artistas do GEDAM é talento e criatividade!

17.05.2012 - O VELHO CHALÉ DE JOSÉ DE FREITAS (PARTE 1)

..............................................................................................

17.05.2012 - Algumas faculdades europeias e estadunidenses de Jornalismo

Na Europa, uma excelente Faculdade de Jornalismo foi instalada na Universidade Autônoma de Madri, como fruto de um convênio com o conceituado jornal El País

17.05.2012 - NANA, um tratado sobre as relações humanas

Uma complexa e extensa novela gráfica japonesa

17.05.2012 - Terra do Gado

A história e as histórias que reuniu e redimensionou são, ao tempo em que lançam novas luzes sobre a identidade do Piauí, principalmente, um reflexo do ideal de projetar entendimento mais preciso das marcas da “piauiensidade”

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Loja 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br