Francigelda Ribeiro
Removendo o verniz da estabilidade com que o estruturalismo europeu, na esteira do Cours de linguistique générale (1916), de Ferdinand de Saussure, revestiu o signo lingüístico, pesquisas empreendidas por estudiosos como Jacques Derrida (1930-2004), Michel Foucault (1926-1984), Jacques Lacan (1901-1981), Roland Barthes (1915-1980) e, em outra perspectiva, pelo russo Mikhail Bakhtin (1895-1975), dentre outros, desmontaram o caráter inconsútil da significação, desvelando seu aspecto cambiante e funcional, fato que provocou a relativização do significado pela impossibilidade de apreendê-lo absoluta e definitivamente.
Outrossim, operou-se a desfocalização do enunciado ao passo em que se passou a privilegiar o processo da enunciação. Em suas investigações, Michel Foucault “abandona a análise dos significados escondida no texto em favor da verificação das operações da linguagem que regulam a ordem de suas formações discursivas” (SAMUEL, 2002, p.131). O conceito de formação discursiva é esclarecido no livro A arqueologia do saber (1969):
No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade [...] diremos, por convenção, que se trata de uma formação discursiva (FOUCAULT, 2002, p.43).
As formações discursivas, portanto, relacionam-se à dispersão, à ausência de uma unidade apriorística. Embora Foucault reconheça que há nelas uma possibilidade de se estabelecer regularidade, todavia, esclarece que uma formação discursiva não possui homogeneidade interna, pois todo enunciado contém um conjunto de dispersão, dada a sua complexidade. O estudo arqueológico, voltando-se para as formações discursivas de uma época, visa focalizar as ordens de saber que as possibilitam, considerando as dispersões que constituem os indivíduos e que são por eles constituídas.
O discurso de um indivíduo depende da formação discursiva na qual ele se apóia, cujos matizes se relacionam a instituições e a segmentos sociais diversificados. Portanto, para Foucault, prática discursiva não remete à competência que um sujeito falante tem no que tange à construção de frases gramaticais, mas “a um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que [definem], numa dada época [...] as condições de exercício da função enunciativa” (FOUCAULT, op. cit., p.136).
Neste ensaio, considerando o
modus vivendi de duas personagens cardeais dentro da
Tetralogia piauiense*: Mundoca,personagem de
Beira rio beira vida e Cota, personagem de
A filha do meio-quilo, propõe-se demonstrar, no contexto de tais obras, variações nas relações de poder, através do entrecruzamento de diferentes formações discursivas, priorizando episódios que possibilitam o embate dialógico delineador do posicionamento das referidas personagens. Como aporte teórico, serão considerados conceitos desenvolvidos pelo francês Michel Foucault na área do estudo da linguagem, acrescidos por pensamentos do teórico russo, Mikhail Bakhtin. Sem desconsiderar suas especificidades, estabelecer-se-á um cômpito na tomada dos conceitos desenvolvidos pelos respectivos teóricos.
Os livros da Tetralogia piauiense ambientam a cidade de Parnaíba, no contexto da primeira metade do século XX. Beira rio beira vida e A filha do meio-quilo tratam de questões relacionadas à estagnação social e de seus pungentes traços determinísticos, cerceados por um primitivo e arcaico conservadorismo. Nesse contexto, insurgem vozes dissonantes que burlam os segmentos sociais estáveis, impulsionando o dinamismo das relações de poder, aspecto que confere motricidade às narrativas em questão.
Nesse sentido, vale ressaltar a premissa foucaultiana de que as relações de poder aparecem dentro e a partir de práticas discursivas, não havendo relação de poder que possa prescindir da economia dos discursos.
[...] em qualquer sociedade, existem relações de poder múltiplas que atravessam, caracterizam e constituem o corpo social e que estas relações de poder não podem se dissociar, se estabelecer nem funcionar sem uma produção, uma acumulação, uma circulação e um funcionamento do discurso (FOUCAULT, 2004, p.179).
O aspecto provinciano e patriarcalista da cidade de Parnaíba, conforme se pode observar nas obras, favorece a livre circulação dos discursos conservadores que tendem a obliterar manifestações reformadoras como as práticas de Mundoca e de Cota que, inserindo-se em outras formações discursivas, terão seus princípios combatidos pelo corpo conservador da cidade. Ambas empunham um processo de ruptura a valores arraigados, e pela rigidez dos obstáculos, contorcem-se na luta por um espaço representativo.
Cota, personagem central de A filha do meio-quilo é contemporânea de Cremilda, avó de Mundoca. Malgrado o intervalo de duas gerações, as personagens foram escolhidas pelo que têm em comum quanto à luta por formas de inserção social. Cota, filha de Nhôzinho, apelidado de meio-quilo pelo franzino talhe do corpo, seguia, diariamente, com o pai e a madrasta para o mercado. Responsável pela venda dos abacates, passou das brincadeiras pueris aos primeiros encantos da adolescência atravessada pelos rumores dos barraqueiros, pelos pedidos indiferentes dos compradores e pelas dores nas pernas ao término do dia.
Para Mundoca, os rumores eram de vozes masculinas, elas enchiam as noites no barracão de madeira, onde ela morava juntamente com a avó e com a mãe, Luíza – ambas prostitutas do cais.
A avó gritava dia e noite com ela [...] já estava na época de pegar os embarcadiços “não tarda a andar amigada ou de bucho”. [...] muita coisa não entendia, ficava choramingando em sua inocência atingida [...] foi ficando muda com os olhos parados, se recolhia a um canto [...] não tinha nem dez anos. (BRASIL, s/d, p.66)
Depois do falecimento de Cremilda, a pequena Mundoca passou a ir cedo da manhã com a mãe rumo a um igarapé em busca de peixes para a refeição no final do dia. Logo depois, aquietava-se em sua rede a um canto, enquanto passos bruscos de homens circulavam de fora para dentro do quarto.
O mercado e o cais eram estigmatizados pelo labéu do infortúnio, gerações se seguiam emolduradas pelo determinismo da “labuta hereditária”, tentar fugir ao cárcere do destino tornava-se um peso maior do que a fadada entrega à mísera passividade. No entanto, movidas por ímpeto semelhante, Cota e Mundoca decidiram lutar por um emprego, fora do mercado e do cais, por novas possibilidades de existência.
Para Foucault, todo acontecimento discursivo se submete a procedimentos de interdição, visto que nem tudo o que se quer pode ser dito. Argumento que legitima sua concepção acerca do discurso enquanto espaço no qual a realidade é instituída, verberando a visão platônica que o projeta como locus de representação do mundo, “[...] não imaginar que o mundo nos apresenta uma face legível que teríamos de decifrar apenas” (FOUCAULT, 2000, p. 53), por conseguinte, nenhuma discussão pode prescindir da análise da produção dos discursos.
É pela busca de um espaço de representação nesse campo conflitante dos discursos que as personagens começaram a inquietar pontos basilares do domínio social. Com a decisão de sair da marginalidade, ousando a inserção social, as práticas de Cota e Mundoca alterariam o sistema de controle existente naquela sociedade de glebas circunscritas para cada segmento: conservadores, ortodoxos, sequazes, dóceis, ricos, marginais, cada qual em lugares devidamente definidos. Cota e Mundoca, representando vozes de desarranjo em situações, habitualmente, projetadas como naturais dentro dos modelos esteados pela tradição, tocavam em pontos resguardados em meio à ordem social. Despertando, assim, conjecturas no intento de delimitar suas ações.
[...] nem todas as regiões do discurso são igualmente abertas e penetráveis; algumas são altamente proibidas (diferenciadas e diferentes), enquanto outras parecem quase abertas a todos os ventos e postas, sem restrição prévia, à disposição de cada sujeito que fala (FOUCAULT, 2000 , p.37).
Para Foucault, em torno das práticas discursivas de uma época, subjaz um complexo suporte de regras com o fim de articular o que os indivíduos pensam e fazem, formando uma base de mecanismos com o fim de controlar o funcionamento de tais práticas.
Mundoca e Cota, seguindo em linha diversa aos hábitos sociais, engendraram rupturas não comuns, fato que despertou a oposição de blocos consolidados, cujas prescrições já haviam coagido seus antecedentes. Luíza, mãe de Mundoca, descrevia como uma “sina” a vida de prostituição da avó, da mãe, “uma maldição” que se repetia nela. “Mundoca quebrara a tradição das filhas das mulheres dos cais [...] Queria trabalhar, ajudar melhor em casa. (op. cit., p.86). Embora ensimesmada, Mundoca observava tudo. “-Os homens estão indo embora. Com pouco não entra dinheiro nessa casa (op. cit., p.85).
A madrinha, que fazia parte de uma “Comissão de Caridade”, arranjou-lhe um emprego na loja de tecido do marido, fato mencionado, diariamente, quando exibia a caridade feita às pessoas. Luíza insistia com a filha: “Por mim a gente voltava lá para o igarapé, eu já disse, não quero sacrifício de ninguém, muito menos de você, Mundoca. [...] A gente nem reparava que comia só uma vez por dia, você sabe, Mundoca” (op. cit., p.14-5). Luíza argumentava reproduzindo o discurso do conservadorismo, não conduzia a filha à prostituição, contudo advertia que seu lugar era no cais, relembrava à filha que o bar Mundico poderia ser uma alternativa, seria um emprego no cais. Ainda lembrava que se quisesse, lavado de roupa não faltaria para elas.
A decisão de Cota não irrompeu diferentemente, o pai divergiu, dizendo que a filha agora queria uma vida de luxo. “-Hum, quer dizer que não lhe pago ordenado? que nunca lhe dei nada pelo seu serviço?” (BRASIL, 1966, p.117). O comportamento da madrasta refletiu semelhante continuísmo: “-Deixa, Nhôzinho, é mal agradecida” (op. cit., p.117). Não tardou a galhofa dos que a conheciam: “sabe quem me procurou hoje para pedir emprego? A filha do meio-quilo” (op. cit., p.118). Após amiúde pedidos, conseguiu um emprego na Casa-Duíno Representações, o gerente era um desconhecido, fator que contribuiu para que conseguisse a vaga, pois a fama de magana em nada interferiria.
A reação familiar é o preâmbulo das objeções à luta das personagens. São os primeiros empecilhos à problemática de suplantar situações controladas por discursos oficiais no comando da ordem sócio-cultural. A luta, em Cota numa dimensão mais subversiva do que em Mundoca, visava superar as fronteiras entre o povo da cidade e o povo do cais e do mercado, representando uma possibilidade de reverter os acontecimentos discursivos que davam uma significação maculada às regiões onde moravam. Em Foucault, “a separação entre acontecimentos discursivos e não-discursivos é apenas semântica” (CARVALHO, 2001, p.6).
Cota e Mundoca ousavam novas representações, refratando as objeções prementes dos acontecimentos enunciativos que legitimava a exclusão social. Avançaram, portanto, em ruptura à substrução da passividade comum aos antepassados. Nesse comenos, é oportuno dizer, a partir da matriz bakhtiniana, que as práticas das personagens surgem como réplica ao esquema determinista impregnado a uma complexa rede discursiva incorporada pela coletividade.
Para Bakhtin, a linguagem constitui um campo de embate entre forças centrípetas (centralização do mundo verbo-ideológico) e forças centrífugas (descentralização do mundo verbo-ideológico) devido às flutuações no campo dos eventos sociais.
Os processos de centralização e descentralização, de unificação e desunificação cruzam-se [numa] enunciação, e ela basta não apenas à língua, como sua encarnação discursiva individualizada, mas também ao plurilingüismo, tornando-se seu participante ativo (BAKHTIN, 1990, p.82).
A relação conflituosa entre diferentes vozes num dado contexto reflete o caráter intercambiante das práticas discursivas, visto que entre um discurso e seu objeto há várias entonações, entrelaça-se uma complexidade de pontos de vistas, constituindo um ativo diálogo social. Analogamente, em Foucault, embora se refiram a um único objeto, não há entre os discursos uma unidade, mas um sistema de dispersão, cuja regularidade só pode ser verificada por meio de uma análise voltada para os objetos, tipos de enunciação, conceitos e escolhas temáticas.
Segundo Bakhtin, a orientação dialógica, fenômeno comum a toda forma discursiva, aponta para a intersecção inevitável entre os vários discursos a caminho de um mesmo objeto. Para ele, “apenas o Adão mítico que chegou com a primeira palavra num mundo virgem, ainda não desacreditado, somente este Adão podia realmente evitar por completo esta mútua-orientação dialógica do discurso alheio para o objeto” (BAKHTIN, op. cit., p.88). A marca dialógica remete à heterogeneidade discursiva, terminologia comum nos postulados tanto de Foucault quanto de Bakhtin. Para “Foucault os discursos não possuem uma unidade ou uma homogeneidade interna, são heterogêneos, tais como as vozes sociais de que fala Bakhtin” (CRESTANI e JACINSKI, 2002, p.3).
Nos romances, as vozes dos familiares de ambas as personagens estabelecem um ethos em conformidade com as formações discursivas nas quais se inscrevem não apenas as vozes daqueles que estão no topo da hierarquia financeira, mas as de todos os que visam ao controle do sistema social vigente. Os pais das personagens se eximem da luta de resistência por incorporarem tais enunciados, cuja articulação encontra favoráveis condições de circulação, em virtude do vínculo com instituições – família, Estado e Igreja – que tentam, a todo custo, controlar a conduta dos habitantes da cidade.
Não sendo possível exercer domínio racional sobre todos os discursos dos quais um indivíduo se apropria, considerando que estão no meio social as condições que constituem a subjetividade, os pais de Cota e Mundoca aderem a uma ordem discursiva que, se observado o contexto do qual emergem, funciona-lhes como um antidiscurso. Entretanto, se na rede complexa de relações que envolvem as diversas formações discursas, uma posição sócio-histórica está sempre passível de alterações, clivagens nas relações de poder ocasionam pontos transitórios que suscitam práticas como as das personagens Cota e Mundoca, evidenciadas pelo avatar de suas trajetórias na ruptura com os sistemas de coerção.
A coletividade parnaibana, em ambas as obras, engendra suas ações guiadas por princípios conservadores, mormente pelo que mantém do asco patriarcalista, aspecto intensificador da expansão das forças centrípetas num campo em que apodítico seria sua repelência. Embora os pais das personagens não sejam beneficiados com a perpetuação dos discursos mantenedores da ordem vigente, acatam-nos por conceberem as factualidades como naturais e imutáveis. Sem embargo, é possível, em alguns momentos da narrativa, flagrar em seus discursos enunciados dissonantes, provocando uma vertente dialógica no seio familiar, fato que pode representar um indicador da dissidência por meio da qual as filhas se sublevaram. O caráter híbrido da enunciação dos pais avança na conseqüente distensão do modo como as filhas passarão a se construir socialmente. Tal situação comprova o impulso ambivalente da heterogeneidade discursiva no movimento dinâmico das forças centrípetas e centrífugas.
O emprego revelou uma nova Parnaíba para Mundoca, causava-lhe admiração o modo de ser dos habitantes do centro da cidade: “-Todo mundo anda bem vestido. [...] -As moças são bonitas” (op. cit., p.32). Sua procedência, porém, afastava algumas freguesas que já não escolhiam os tecidos com a mesma satisfação de outrora. Seu Jacinto, o dono da loja, começou a demonstrar os primeiros sinais de preocupação com os negócios, embora estivesse, freqüentemente, assediando a afilhada. Os comentários principiavam-lhe certa inquietação: “-Como é, Jacinto, você abriu uma casa de caridade?” (op. cit., p.33). A esposa, tornando pública a caridade prestada, impedia-o de desfazer o “mal”. A filha da dona Carmem resolveu pedir demissão da loja, justificando que a mãe não quer que ela se misture. Ao final, Mundoca “foi transferida para o armazém dos fundos da loja – conferia as peças de fazenda, outras mercadorias, arrumava as prateleiras, espanava, ou ficava apenas a olhar os ratinhos que saíam dos buracos” (op. cit., p.32).
Em relação à Cota, o curso das ações tomou rumos mais problemáticos. Logo que começou a andar mais arrumada, despertou a atenção dos “fiscais gratuitos de sua vida”, no entanto ao demonstrar intimidades com o gerente, Godofredo Rainho, logo “(...) formou-se uma comissão, para ir na firma Casa-Duíno Representações reclamar, em nome da dignidade ultrajada da cidade, contra aquela união de um seu funcionário com uma filha da terra” (BRASIL, 1966, p.123). A comissão, apesar de verificar através de documentos pessoais de Godofredo que ele era solteiro, argumentou que o escândalo não repercutiria menor, pois as viagens que faziam juntos, como amantes, à praia de Amarração era uma afronta à Igreja e às famílias que visitavam o local. O resultado foi Godofredo transferido e Cota desempregada. “Mais uma vez Parnaíba lavava o peito e se punha em expectativa” (op. cit., p.125).
A primeira conquista, a previsível independência financeira, subitamente, alterou o modo como elas eram percebidas socialmente. Houve um levante de pessoas que passaram a persegui-las, numa ávida recusa daquela “invasão”. A cidade, não obstante pacata, concentrava um bom fluxo comercial, empregados e desempregados agregavam-se à rotina diária. Contudo, o inaceitável e ilegítimo era empregar a filha de uma prostituta do cais ou a filha do meio-quilo, que vivia se agarrando aos namorados, publicamente, afrontando as famílias de respeito.
O deslocamento de Mundoca para o armazém dos fundos, amenizando a sensação de agravo aos fregueses da loja, reforçou sua tendência à introversão, sem, contudo, abater-lhe o propósito. Afinal, a mãe envelhecida já não atendia às exigências do ofício de outrora, nem contava com a mesma resistência para os dias de fome à margem do igarapé. Submetia-se, destarte, àquele isolamento como a uma lancinante conseqüência da ruptura que emplacara na tradição das suas ancestrais. O acinte não corrompeu sua firmeza, mas acentuou-lhe o mutismo – substrato da sua linguagem com o mundo.
No contexto de A filha do meio-quilo, o desemprego de Cota otimizou o discurso conservador, mas, ao contrário da imobilidade que contornou a rotina de Mundoca, o inesperado noivado com Tomás, filho de um renomado comerciante, abalou seus perseguidores. Certa feita, Tomás a surpreendeu: “-Sabe, Cota, que você é a única pessoa sem máscaras nessa cidade?” (op. cit., p.165). O discurso de Tomás refratou discursos preconceituosos: “ela viveu com ele [Godofredo] sem se casar” (op. cit., p.130). Cota se casou de véu e grinalda com um vestido de meias-mangas e saia curta, contrariando os padrões estabelecidos e os desígnios do padre, o mais obstinado dentre seus perseguidores, obrigado a presidir a celebração após Cota confessar-se virgem.
Minha maior vingança foi mentir perante seus cochichos no confessionário. [...] Assustou-se, padre Gonçalo, ao lhe dizer, quando me confessei para o casamento com Tomás, que era virgem? [...] Também não se faz uma pergunta daquela, “você já dormiu com um homem, minha filha?”[...] Havia apostas na cidade, sabe padre Gonçalo? como eu não me casaria de véu e grinalda (op. cit., p.139).
O fluxo de divergências na cidade tomou novas dimensões a partir desse acontecimento que alterou com uma nova e promitente base representativa o sistema das relações de poder, na cidade. As contingências das estruturas sociais suscitavam nas lacunas dos discursos oficiais sinuosos revolvimentos, comprovando, em termos do niilismo foucaultiano, que a verdade é produto das relações de poder. Cota passou a ser acolhida por todos os segmentos sociais, inclusive pelas comissões religiosas.
Foucault predica que “o poder é um feixe de relações mais ou menos organizado, mais ou menos piramidalizado” (FOUCAULT, 2004, p.248). Para ele, considerar o macropoder sob enfoque das idéias de processo e de totalidade é negligenciar um número considerável de fenômenos que não são exclusivos de um único ponto da estrutura social. Os conflitos abordados, mais especificamente, na obra A filha do meio-quilo mimetiza o intricado funcionamento das relações de poder tal como descrito por Foucault, em “situações de oposição como a ‘do poder dos homens sobre as mulheres, de pais sobre filhos [...] da administração sobre o modo de viver das pessoas’” (ARAÚJO, 2001, p.190). Toma-o como distendido na rede das relações sociais, não podendo ser concebido como algo que detenha uma essência, mas que se constitui enquanto prática social.
Na obra, os moradores machistas, conservadores ou católicos dogmáticos utilizam-se de estratégias nas suas micro-relações de poder. A ascensão social legada a Cota por meio do casamento com Tomás silenciou os discursos que lhe serviam de interdito. Os efeitos, em corolário, confluíram para uma demonstração da sua resistência, em situações típicas como a ocorrida quando, no dia do casamento, saía da igreja e algumas dondocas ousaram esperar pelo buquê. “Fez questão de jogá-lo no chão, mais um desafio com um olhar altivo e pisou as pétalas brancas até esmagá-las” (op. cit., p.24).
“Foucault analisa o poder como algo que cria relações, disperso em toda a trama social, funcionando de baixo para cima e lateralmente; possui dispositivos e estratégias que relacionam e dispõem forças” (ARAÚJO, op. cit., p.154). Em seus postulados, Bakhtin também acentua a impossibilidade de estabelecer um local único para o poder, razão pela qual a prática dialógica, a um só tempo, caracteriza um estilo literário e uma visão ampla das relações sociais, ao passo que a prática monológica corresponde a um domínio homogêneo, em permanente recusa da fluidez e mobilidade sociais.
Por isso, assim como Bakhtin, Foucault não vai determinar um lugar para sempre para o poder, uma realidade que possua uma natureza, uma essência, algo unitário e global; antes, poderemos pensá-lo como forças díspares, heterogêneas, visto que circula, em constante transformação. Não é um objeto natural, uma coisa; é uma prática social e, como tal, constituída historicamente. Um discurso. (CRESTANI e JACINSKI, ibid., p.4).
A narrativa marca as extensões descontínuas de acontecimentos que vão recheando o cotidiano das pessoas do mercado, do cais, do centro da cidade, enfim das ruas da cidade por onde passou, anos mais tarde, o cortejo que seguia o enterro de Tomás. Homens que cavavam um poço, no quintal da casa de Cota, encontraram uma ossada humana. Quinze anos antes, Tomás havia falecido nos braços de Cota, que procedeu ao enterro, conforme o desejo do esposo: “Gostaria que minha morte fosse privada, e se possível que ninguém soubesse, que ninguém me visse” (op. cit., p.168).
Cota foi condenada e detida pelo assassinato de Tomás, quando já estavam crescidas as enteadas, filhas de Romualdo, seu segundo esposo. Ele foi, a princípio, um funcionário que ela havia contratado para vender água pela cidade. O novo casamento abalou a rotina da cidade, não entendiam porque Cota havia escolhido o próprio empregado que vendia água em lombos de burros.
A prisão de Cota tal como a transferência de Mundoca para o armazém dos fundos da loja são acontecimentos emoldurados pelo silêncio, nenhuma defesa, nenhum protesto. Elas se deparavam com fortalezas circunscritas nos discursos institucionalizados, cujo enfrentamento demandava uma estratégia mais intrincada de resistência.
Conforme Roberto Machado,no capítulo de introdução ao livro Microfísica do poder, para Foucault:
Qualquer luta é sempre resistência dentro da própria rede do poder, teia que se alastra por toda sociedade e a que ninguém pode escapar: ele está sempre presente e se exerce como uma multiplicidade de relações de forças. E como onde há poder, há resistência, não existe propriamente o lugar de resistências, mas pontos móveis e transitórios que também se distribuem por toda a estrutura social (2004, p. XIV).
Para Bakhtin, igualmente, uma réplica é sempre construída no contexto de todo o diálogo de cuja enunciação ela se constitui. “Não é possível retirar uma única réplica deste contexto misto de discursos próprios e alheios sem que se perca seu sentido e seu tom, ela é uma parte orgânica de um todo plurívoco” (BAKHTIN, op. cit., p.92). Tanto para Bakhtin quanto para Foucault, o campo discursivo é uma arena “em que o limite e o alvo é sempre o outro a quem se pode exaltar, criticar, vigiar, etc... mas não ignorar” (CRESTANI e JACINSKI, ibid., p.5). Todo discurso monologizante, inevitavelmente, desperta formas de resistência em virtude do caráter heterogêneo das práticas discursivas.
Em consonância com essa visão, observa-se nas obras Beira rio beira vida e A filha do meio-quilo, que as lutas de resistência no campo estratégico das relações de poder se dão entre pontos inséteis, imanentes um do outro. O silêncio constitui uma nova matriz cuja solidez tinha como alvo discursos coercitivos. Embora se tratando de uma luta assimétrica, a forma de resistência (Foucault) ou refração (Bakhtin) das personagens Cota e Mundoca imbricam-se dentro da mesma estrutura em que se dispõem as situações combatidas. A mudez das personagens não pode ser tomada como uma abstração ao meio social, visto que também se configura em uma forma de linguagem dentro da ordem estabelecida, no interior conflitante das relações de poder. A resistência, cujo locus está nos interstícios dos discursos, não de forma neutra, reveste-se da específica intensidade do mutismo. No caso de Mundoca, sem o mesmo domínio intencional que reveste a postura de Cota.
Objetificar o silêncio como modo de realçar o truncamento do processo da linguagem no interior das relações de poder revela que o autor Assis Brasil introduz, conscientemente, em seus romances o aspecto pungente das subjetividades que, em situação-limite, desdobram-se nas sinuosidades das dispersões. Nas obras, poderes microfísicos se alternam como motivação a cada episódio narrado, gerando conflitos que ocorrem em direção a uma situação de desejo e de poder. Conforme se pode observar ao longo da exposição feita, a peculiaridade das problemáticas abordadas nas obras possibilita a percepção de que o autor, Assis Brasil, põe em xeque, através do seu projeto literário, questões cruciais apontadas por Foucault como a crise do representacionismo e do essencialismo, aspecto evidenciado pelas contingências, instabilidades e relativizações, a partir de mecanismos de controle das práticas discursivas e não-discursivas, mormente no que diz respeito ao contexto de A filha do meio-quilo.
Ademais, tal como Foucault aponta para as descontinuidades – para a negação do transcendentalismo, de um logos por meio do qual se busca o sentido dos acontecimentos – nas obras abordadas, sobressai-se o que avança para as volubilidades, para as formas heterogêneas, para os poderes moleculares que pesam na construção da sociedade representada nas obras, por meio das vozes dos donos de lojas e bares, dos grandes e pequenos industriais, das ociosas rainhas do lar, do padre, daqueles que compunham as comissões paroquianas, dos barraqueiros do mercado, dos embarcadiços, dos taifeiros, das prostitutas do cais, enfim Assis Brasil contempla a pulverização dos ditos e interditos que constroem as verdades aceitas ou questionadas pela coletividade.
Cota e Mundoca podem ser tomadas metonimicamente, se considerado todo o universo literário da Tetralogia. O próprio autor declarou, no texto de apresentação ao livro Pacamão, o último romance da série, que se trata de “quatro romances e uma única intenção: a de denúncia. E a denúncia não pode ser cristalizada através de uma forma que compactue com a estagnação social” (BRASIL, 1969). Em cada romance, o desdobramento dos embates discursivos, com a específica marca, em pontos estratégicos, do silêncio enquanto forma de resistência – sine ira et studio.
Assis Brasil, compreendendo o caráter premente da literatura dentro da ordem social vigente, projeta, nas obras que compõem a Tetralogia, questionamentos acerca dos mecanismos de fixidez do poder na acepção logocêntrica dos segmentos sociais que se desejam hegemônicos. Ao colocar em evidência articulações transgressoras dos monologismos, desvela o poder de agências que, sendo dissonantes, permitem pensar o poder enquanto relação dialógica.
Referências
ARAÚJO, Inês Lacerda. Foucault e a crítica do sujeito. Curitiba: Ed. da UFPR, 2001.
BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. São Paulo: Hucitec, 1990.
BRASIL, Assis. A filha do meio-quilo. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1966.
BRASIL, Assis. Beira Rio Beira Vida. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.
BRASIL, Assis. Pacamão. Rio de Janeiro: Bloch Editores, 1969.
CARVALHO, Alexandre Magno Teixeira. O processo de produção discursiva: uma visão da contribuição de Michel Foucault ao debate epistemológico. Estudos e Pesquisas em Psicologia, Rio de Janeiro, v.1, n.1, 2001. Disponível em: <http://www.discurso.ufrgs.br/sead/doc/claudiagrangeiro.pdf> Acesso em: 20 mar. 2006.
CRESTANI, Célia Regina; JACINSKI, Edson. Aproximações teóricas entre a perspectiva foucaultiana e do Círculo de Bakhtin para estudos da linguagem. Revista de letras, Curitiba, n.05, 2002. Disponível em: <http://www.cefetpr.br/deptos/docex/revista5/celia.htm> Acesso em: 20 de mar. 2006.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002.
______. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
______. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2004.
SAMUEL, Rogel. Novo manual de teoria literária. Petrópolis: Vozes, 2002.
* Composta pelos livros: Beira rio beira vida (1965), A filha do meio-quilo (1966), O salto do cavalo cobridor (1968) e Pacamão (1969).