Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2012
PALAVRA ABERTA
Gelda Ribeiro
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A REINVENÇÃO DOS SIGNOS NA EXPERIÊNCIA MNÊMICA DE H.DOBAL

                                                                                                         Francigelda Ribeiro


Este ensaio visa a uma retomada de poemas do livro O Tempo Conseqüente, obra do escritor piauiense H. Dobal, à luz das teorias de Henri Bergson e Maurice Halbwachs, teóricos que se debruçaram, dentre outros estudos, em pesquisas ancoradas na temática da memória e em seus processos de realização.


A diversidade simbólica que experiência mnêmica adquire ao longo da obra, poderá ser melhor entendida, se se conhecer mais acerca da trajetória de vida do escritor. Não se trata de uma defesa da crítica genética ou biográfica, mas de alicerces para uma análise mais ampla e satisfatória dos versos, no tangente ao estudo da memória; podendo nos aproximar, assim, de uma crítica de vertente mais humanista. Por tal expectativa é que, segue, como primeira parte deste ensaio, uma “sócio-biografia” do autor acompanhada de comentários e análises “livres” (investigação hermenêutica) acerca de suas composições, no intuito de possibilitar um contato mais inteirado com sua vida e obra, para fim de um maior entendimento da forma pela qual a memória se torna genuína fonte de versos e imagens em sua criação.


A segunda parte intitulada “A Reinvenção dos Signos na Experiência Mnêmica de H. Dobal” arregimenta os postulados dos dois teóricos supramencionados como caminho para uma análise de alguns dos poemas do livro em pauta. E, por fim, uma breve conclusão acerca do processo de teorização pretendido em relação ao objeto de estudo.


Dobal, trabalhando o tempo em seu caráter intransponível e, dentro das possibilidades que suas lembranças puderam recriá-lo, remete-o a uma esfera de significações complexas; e, analisando-o, percebeu as imperdoáveis marcas deixadas, preferindo retirar de tal “império” todas as memórias que sua égide pôde edificar ao longo de sua indelével extensão.

 

INFÂNCIA

O menino
de sol e de vento
faz a sua infância.

O destino
faz da sua ânsia
faz do seu lento
fluirfluir
um dia remoto.

(O Tempo Conseqüente)

 

O POETA, A VIDA, A POESIA


Em 17 de outubro de 1927, nasceu em Teresina o menino Hindemburgo Dobal Teixeira. Filho do agrimensor Mário Dobai e da professora, Rosila, chegava como o quinto filho ao seio daquela família. Dobal fez os estudos primários no Grupo Escolar José Lopes e o secundário no Liceu Piauiense. Em 1948, ingressou na Faculdade de Direito do Piauí. Aos 25 anos, escolhido orador da turma, recebeu o certificado de bacharel. O primeiro trabalho que exerceu foi prestado ao Ministério da Agricultura. Logo depois, por meio de concurso público, exerceu graduadas funções no Ministério da Fazenda. Começou, desde então, a viajar, percorrendo os estados do Maranhão, Alagoas, São Paulo, Rio de Janeiro, bem como Brasília, Berlim e Londres.


Por esta época, já havia iniciado sua carreira literária, publicando, em 1966, seu primeiro livro de poesia - O Tempo Conseqüente. Todavia, só passou a ser conhecido nacionalmente quando ganhou o prêmio Jorge de Lima, promovido pelo Instituto Nacional do Livro em 1969, com a obra "O Dia sem Presságio". O trabalho profissional o afastou do grupo piauiense do qual era um dos principais representante – o Movimento Meridiano – que eclodiu em Teresina, no final dos anos 40. Dele faziam parte O. G. Rego de Carvalho e Paulo Nunes.


O contato com os grandes centros urbanos provocou íntimas e incontidas sensações à poética de H. Dobal. Assim, efervesceram versos reveladores da uma aguda percepção. "Os signos e as Siglas", livro em poesia, lançado em 1986, expõe a visão do poeta diante dos anos vividos em Brasília.

O tom dos poemas é elegíaco, pois representa uma consciência de si em crise. Brasília inspira um estar-no-mundo agônico. Sob este aspecto, o substrato de Os Signos e as Siglas compreende uma denúncia. (LUCAS, Fábio, in Prefácio do livro Os Signos e as Siglas, 1986)

 O tom elegíaco se dilui sobre sua poética, dando sombra aos versos que se desencadeiam da alma de um observador tomado de solidão.

A CIDADE DAS SIGLAS

A cidade prende a tarde
nos seus espaços abertos.
A tarde é um desejo incerto
nesta prisão da cidade.
Desejo de não passar
de não desaparecer
de não morrer desta vez.
Mas o destino se cumpre
intranqüilo nestas siglas
de uma cidade sem praças.
Vai a tarde envelhecendo
estes desejos incertos
e aqui nestes ministérios
nestas mansões e moradas
desenvolve o desespero.

(O Signo a as Siglas)


Mas nas terras de Brasília não reinou apenas a solidão. Lá, nosso poeta participou de Círculos Literários; ingressando, inclusive, na Academia Brasiliense de Letras. Mais tarde, tornou-se também membro da Academia Piauiense de Letras, ocupando a cadeira de número 10.
H. Dobal com a esposa, Maria Creusa Portella, tiveram três filhos: Márcio, Luciano e Susana. Aposentado como Auditor Fiscal do Tesouro Nacional, retornou para Teresina. Atualmente, separado da esposa, mora na zona leste da cidade de Teresina, na companhia da irmã, Verbena Dobal.


Ainda menino, foi passar férias na fazenda Angical, propriedade do seu tio Amadeu Higino, situada entre as cidades de Campo Maior e Capitão de Campos. Nas proximidades de tal fazenda, pôde contemplar uma paisagem que adentrou os seus olhos com uma peculiaridade tal, que receptividade correlata só foi possível pela sensibilidade que lhe permitia uma relação mais profunda com o meio.


Começava, então, a surgir no horizonte piauiense um poeta singular. Os pássaros que voavam pelo céu da sua infância fizeram-no contemplar a natureza, traduzindo-a com o mais apurado senso poético. H. Dobal faz emergir a arte de quem tão bem soube extrair de sua terra a força condutora de um vôo mágico, revelador de imagens grávidas de versos. As impressões recolhidas penetravam o labirinto das palavras, resultando no transbordamento de uma arguta inspiração, guiada pêlos tabuleiros, rios, várzeas, flores e babugens, pela azul Serra do Glorioso Santo António do Surubim, pelo “homem que queima o céu com a cinza dos seus dias...” A singela paisagem da interiorana Campo Maior, situada a 80km da capital, cidade pacata e acolhedora, com suas fartas carnes-de-sol, exibindo o Açude Grande, praças modestas, belas fazendas, atraiu de forma, simultaneamente, íntima e crítica a moção poética do artista. A maneira com que cantou a cidade em seus versos é tão profunda que numa correspondência de afeto, foi-lhe concedido, em 1997, o título de Cidadão Campomaiorense.


A poesia de Dobal perpassou as fronteiras do canto telúrico e elegíaco, redimensionando-se além do lirismo e da denúncia até penetrar à infinidade do Ecumenismo Poético. “Prefiro dizer ecumênico para registrar a ligação entre o homem e o ambiente todo, o mundo todo que o cerca”.  (COSTA, FILHO, Odylo  in Prefácio do livro O Tempo Conseqüente, 1966)


As palavras de Odylo da Costa, filho receberam o endosso do consagrado poeta Manuel Bandeira.


Mas eu prefiro dizer o poeta total o poeta por excelência, do Piauí e de outros sertões brasileiros (...) Só mesmo um poeta ecumênico como Dobal podia fixar a sua província com expressão tão exata, a um tempo tão fresca, despojada de quaisquer sentimentalidades, mas rica do sentimento profundo, visceral da terra


Bandeira incluiu Dobal na Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos. Mas, em uma conversa informal, o grande mestre confortou o poeta iniciante, dizendo-lhe que tal inclusão tratava-se apenas de um incentivo. E o incentivo foi válido. H. Dobal,  já considerado um poeta de "grande classe", revela a conquista da sua lida com as palavras – sua obra, vasta e diversificada, exibe versos, contos e crônicas.


                                          PUBLICAÇÕES

O Tempo Conseqüente, 1966 – poesia
O Dia sem Presságio, 1970 – poesia
 A Viagem Imperfeita, 1973 – viagem
A Província Deserta, 1974 – poesia
A Cidade Substituída, 1978 – poesia
A Serra das Confusões, 1978 – poesia
Um Homem Particular, 1987 – contos
Os Signos e as Siglas, 1987 – poesia
Cantigas de Folhas, 1989 – poesia
Roteiro Pitoresco e Sentimental de Teresina, 1992 – crônicas
Ephemera, 1995 – poesia
Grandeza e Glória nos Letreiros de Teresina, 1997 – crônicas


O Tempo Conseqüente é, sem dúvida uma das maiores expressões poéticas na vivência literária do escritor, sobretudo, pela "integração perfeita entre os temas, a língua poética e o tempo em que vivemos” (Wilson Martins, s/d). Através de uma linguagem límpida, enxuta e despojada, as palavras vão delineando imagens cuja reflexão remete o leitor às mais belas ou dolorosas cenas que se transfiguram em versos. É o homem que se entranhando à terra, coloca-se ora como amante, ora como denunciador. E o tempo avança constituindo-se a impressão-capital do poeta que, com lavrada percepção, semeia-o bem ao longo da composição. O tempo consegue mais, conseqüente que é, concede ao "homem-poeta" que busque, em sua memória, o "menino" de outrora nas planícies do Piauí; consente o aprimoramento dos olhos que, a um único salto, contemplam e reprovam; e permite, ainda, o “amadurecimento dos amantes". Quando a um gesto de catarse, eis que o tempo se imobiliza diante da sua intimidade com as imagens rememoradas. Na primeira parte do livro - O Campo de Cinzas - o poeta escolhe os campos piauienses por onde passeiam "o homem e os outros bichos esquecidos" para cenário. Aí, o "ex-menino" que brincou com seu “cavalim de carnaúba nos tabuleiros de abril, sob o clarazul do céu", revela a paisagem que sem limitações, cravou, indelevelmente, sua memória – fertilizante de versos.


       CAMPO MAIOR

Ai campos do verde plano
todo alagado de carnaúbas.
Ai plano dos tabuleiros
tão transformados tão de repente
num vasto verde num plano
campo de flores e de babugem.

Ai rios breves preparados
de noite e nuvem. Ai rios breves
amanhecidos ns várzea longa,
cabeças d’água do Surubim
no chão parado dos animais,
no chão das vacas e das ovelhas.

Ai campos de criar. Fazendas
de minha avó onde outrora
havia banhos de leite. Ai lendas
tramadas pelo inverno. Ai latifúndios.
    

(O Tempo Conseqüente)

Campo Maior dá nome a essa poesia que, de início, já revela a originalidade de versos em cuja lamentação não há exagero de sentimentalismos, embora, ao gosto explosivo dos constantes “ais”. Há, também, a força telúrica de uma expressividade poética voltada para os modelos modernos de produção. As lembranças ruminantes navegam também pelas águas do Parnaíba, filão de tantos consagrados poetas da nossa terra. Refrescantes lembranças que o poeta assim retratou:


Meu rio largo de água doce de brejo
jaz o seu curso entre coroas e canaranas,
e de outros meninos consumidos
no sol de suas águas
num delta escuro dividido
rola o dia perene.

(O Tempo Conseqüente)


As tardes, os domingos, os dias de inverno e de verão, são momentos dispostos nos versos que sobrevoam os campos da sua criação poética. "Em meio às obras-de-arte do DNOCS, o homem e os outros bichos esquecidos" equivocam-se nas glebas de ausentes.

Sua ração de vida o homem vê minguando
a cada dia. Mas duro recomeça
como se o tempo lhe sobrasse. E vagaroso
não conta as eras que se extinguem.

(O Tempo Conseqüente)


Através de uma poesia incisiva, impessoal e engajada, segue Dobal a mostrar “o sertão pobre que rumina os boizinhos do nordeste, a "Maismeninaquemulher" cuja profissão vai engrossando o batalhão do amor, “os pescadores do Poti Velho, as chamas que vão turvando o céu, as chapadas corcoveadas de cupins, as fazendas apagadas”... O encanto, o desencanto, a infinidade de tons que matizam a poesia dobaliana se expande através de um estilo equilibrado com uma harmonia rítmica dotada de especial efeito sonoro, um jogo de palavras inovadoramente justapostas ou duplicadas e metáforas insólitas que nos permitem chegar à singularidade de versos como estes:


             A VIAGEM

Claro claro mais do que a manhã
o grito dos anuns. No céu tão depressa
Subia o sol o sol
nos cavalos suados.
 
(O Tempo Conseqüente)

E subindo nos cavalos, na configuração imagética dos poemas, desvendamos os campos que exclamam! É rio que corre feito lembranças, são expressões que viajam por onde as lembranças do poeta tecem fios que compõem e decompõem o menino que...

Cresce na solidão de outros meninos
se preparando agora para o exílio
de estrangeira cidade onde mais tarde

confinados ao sonho pensarão
no aboio das chuvas na doçura
dos campos transformados pelo inverno.

(O Tempo Conseqüente)


E foi exilado nos grandes centros urbanos. Sua inspiração passa a brotar das “Formas Incompletas” que se fixaram à sua alma de modo, intensamente, solitário e desolado. Tendo o Rio de Janeiro como cenário básico, esta segunda parte do livro revela uma nova dimensão poética, remetendo os versos a temas como: o medo, a morte, a adolescência...
Os Amantes, poesia que abre as "As Formas Incompletas", retrata um amor sentido com as ânsias do adolescer, discorrido de forma que a mensagem encerra a angústia inquietante daqueles que amam em silêncio.

                            OS AMANTES

Eis-me de novo adolescente. Triste
vivo outra vez amor e solidão.
Canto em segredo palpitar macio
de pétala ou de asa abandonada.

Outro amor em silêncio e na incerteza
oprime o coração desalentado.
Ó lentidão dos dias brancos quando
a angústia os deseja breves como um sonho.

Insidioso amor em minha vida
reverte o tempo para o desespero
a inquietação da adolescência

e o pensamento me tortura, prende
como se nunca houvesse outro consolo
que não é mais de amor. Porém de morte.

(O Tempo Conseqüente)


Os gigantescos centros urbanos levam à alma do poeta um estranhamento cuja projeção se faz em espaços onde se encerra o silêncio das horas e se exercita a esterilidade do tempo. Londres, também, torna-se cenário de versos carregados de sentido e tão calados e tão partidos...


                                                    O CAMPO INGLÊS


Sobre o vôo dos corvos e as terras trabalhadas
o domingo abate os momentos perfeitos.
Em silêncio e em lona os seus montes de feno
dispõe o campo de poucas reses.
E dispomos aqui neste mundo fechado
de um momento apenas. Só o tempo
que nos permite o silêncio cruel
e  a  paz do outono a paz do domingo
a  paz do campo sem casinhas de pobres.


(O Tempo Conseqüente)

Diante do progresso e da turbulência moderna, o poeta capta imagens simultâneas que nascem da efervescente observação de um passageiro especial do Trolley-bus. Enquanto o bonde vai cortando as ruas do Rio de Janeiro, o poema vai germinando em meio à sonoridade de tons musicais: "cry me a ri ver cry me a ri ver..." "Eu sei que vou morrer não sei o dia..." A paisagem, porém, não se compõe sob o mesmo sol de outrora, e sua memória se desdobra em elos que entrelaçam as imagens passadas às presentes, numa seqüência de sobreposições, cujo comando se faz pelas emoções mais, sobriamente, pungentes: “e nas encostas do Corcovado as cabras ruminando / são as planícies do Piauí que vêm voltando”.
A polêmica época das realizações do presidente Juscelino Kubitschek, o Brasil desfilando nas marchas do militarismo soaram reflexos de crítica social – a aquisição do porta-aviões Minas Gerais foi tematizada em versos. O poeta, do prédio do Ministério da Fazenda, ironiza o fato:

Sobre as ondas valsa
o porta-aviões
Belonave nave ave do mar
para o amar dos mariscos
o navio enorme dorme.


(O Tempo Conseqüente)

H. Dobal, também nobre passageiro do comboio que percorre a alma, transborda sentimentos viscerais. E o pensamento, errante campeador, traz o tema da morte aos versos. Sempre serena, silenciosa, certa.

     A MORTE

A morte aparece
sem fazer ruído.

Senta-se num canto
fica indiferente
com seu ar de calma
absoluta.
Mira longamente
o quarto o retrato
a cama os remédios
postos entre os livros
sobre a mesa escura.

Depois se levanta
sem nenhuma pressa
sem impaciência
retorna ao seu mundo
a morte, de gestos
claros e serenos.
    
 (O Tempo Conseqüente)

As palavras brotam, as imagens se formam e a maturidade de momentos de criação parecem cada vez mais relevantes na poesia de Dobal. Em momentos epifânicos, os versos cavalgam fulgurantes como o sol.

                                                      CÉU

Depois da chuva o cheiro verde de mato
toma conta da estrada. A luz da tarde lança
uma leve lembrança de flores escondidas.

Pássaros partem num vôo sem retorno
e subitamente a paisagem loteada
desvela a certeza do céu.


 (Ephemera)

A elaboração conseqüente do autor atrai os signos no seu sentido mais profundo. São versos que parecem galopar em cavalos suados pelos campos da memória, percorrendo a reluzente poética do "ex-menino" que tão bem se assenhoreou do tempo que envelhece os olhos, mas renova a alma.


   
A REINVENÇÃO DOS SIGNOS NA EXPERIÊNCIA MNÊMICA DE H.DOBAL


Ao tentar por meio de um aboio lírico “tanger” seus rebanhos–linguagem ao campo artístico, chega Dobal à arena da composição: O Campo de Cinzas e As Formas Incompletas exibem-se com grandeza na revelação de O Tempo Conseqüente. E, diante do processo ontogenético dos versos, numa factura a um tempo exógena e endógena, a elaboração da imagem ao ser e deste à imagem prende-se, irresistivelmente, à experiência mnêmica.
A memória é a inexaurível fonte da metamorfose que gera seus enraizados poemas, dando-lhes a força substancial que lhes é inerente. Reverberando, pois, essa proposição, pretende-se demonstrar o quanto das possibilidades estilísticas do poeta advêm das suas evocações e da forma como elas se transformam em referenciais no gesto da apropriação poética da linguagem.
Para tal, convém uma retomada do tratado acerca do estudo da memória, de forma modesta dado o amplo caráter da discussão, feita pelos teóricos: Henri Bérgson (memória individual) e Maurice Halbwachs (memória coletiva). Outras abordagens – Proust, Freud, Benjamim, Yates, Nora, Ricouer, etc. – não farão parte do presente debate pelo recorte necessário dada a natureza do texto.
O conceito de memória é uma preocupação que remonta a tempos “ante-diluvianos”. E, ao longo da história, vem sofrendo várias modificações em virtude da sua função no âmbito das relações humanas. Para a antiguidade grega, a memória era algo sobrenatural – a deusa Mnemosine, tendo o conhecimento onisciente do passado, presente e futuro, possibilitava lembrar o passado, cuja significação se sobrepunha à atividade de apenas situar os acontecimentos nos parâmetros temporais, mas também proporcionava uma busca às origens e, desse modo, uma compreensão mais apropriada do devir.
Para os romanos, era algo imprescindível ao orador, que jamais deveria recorrer a algo que não fosse sua própria memória, jamais poderia lançar mão de registros escritos. Nesse sentido, uma boa memória possibilitava status elevado dentro da arte retórica.
No período medieval, dados os rigores religiosos, a memória era um recurso precioso para a eficácia da tradição litúrgica: datas consagradas, dedicações litúrgicas, dia dos santos; enfim, quantos mais canonizações mais aumentava a carga de informações a serem metabolizadas. Elementos estes que, de pronto, teriam que ser assimilados e transformados em ações de respeito e assiduidade para com a Igreja.
A partir das mudanças trazidas pelo Renascimento, as reflexões acerca da memória passaram por expressivas modificações: a nova relação com o capital, a posterior revolução científica, etc. fizeram com que o conceito de memória variasse tanto quanto variou o contexto sócio-histórico. Enfim, com o advento do computador, uma grande incógnita surgia, por se estar diante de um recurso capaz de guardar e disseminar memórias de modo a abranger todos os outros artifícios antes inventados.
A função e utilização da memória no seio das relações humanas, alavancou a adesão das ciências físicas, biológicas, sociais e psicológicas. É diante de um contexto diversificado como esse, que estudos especializados foram surgindo. Os dois teóricos já mencionados, com defesas específicas acerca da memória, terão seus posicionamentos centrais expostos abaixo; possibilitando, assim, adentrarmos ao tema: A Reinvenção dos Signos na Experiência Mnêmica de H.Dobal.

Henri Bergson(1859-1941) lançou, em 1896, a obra Matière et Mémoire (Matéria e Memória), não obstante desenvolver estudos filosóficos, remete o conceito de memória a postulados psicológicos: a memória representa a subjetividade de nosso conhecimento acerca do mundo; assim, a percepção e a consciência (resultante do contato com a vida material) é que formará o princípio da fenomenologia da lembrança, caracterizada por sustentar a sobrevivência do passado, sem ela sucumbiria toda a memória. Na lembrança, são guardados os traços subjetivos do relacionamento do indivíduo com as diversas instâncias sociais, tudo fica registrado com sua riqueza de detalhes. Lembrar é reviver essas experiências passadas enquanto fenômenos de ordem individual.
“Iremos fingir por um instante que não conhecemos nada das teorias da matéria e das teorias do espírito, nada das discussões sobre a realidade ou a idealidade do mundo exterior” (BERGSON, 1999, p.11). Esse é o modo como Henri Bergson  inicia o livro: Matiére et mémoire; instigante, exige grande habilidade por parte do filósofo que, certamente, estava mais que inteirado das mais recentes discussões acerca da questão. Nesse primeiro capítulo, Bergson mostra que não se pode conceber a matéria pela representação que dela temos, pois a matéria é para o indivíduo um conjunto de imagens e essas imagens estão situadas entre a “coisa” em si e sua “representação”. É exatamente tal concepção que justifica as palavras do filósofo na abertura do capítulo – acreditar que a matéria existe tal como o indivíduo a percebe, ou seja, uma concepção de matéria anterior à divisão existência e aparência, realizada pelas correntes idealista e realista. (BOSI, 1979, p.5) Todavia as questões relativas à matéria só serão abordadas quando interessarem à relação: espírito x corpo. Seria, pois, inevitável não se falar de memória, uma vez que a lembrança constitui o ponto de intersecção entre espírito e matéria. A lembrança opõe-se à percepção, que é um ato presente. De posse do conceito de lembrança, a “percepção pura” é retraída, Bergson a distingue da “percepção concreta e complexa”. Entretanto, afirma o filósofo que toda percepção está impregnada de lembranças, pois elas impregnam as nossas representações.


Supõe-se, desta vez que a percepção presente vá sempre buscar, no fundo da memória, a lembrança da percepção anterior que lhe assemelha: o sentimento do déjà vu viria de uma justaposição ou de uma fusão entre a percepção e a lembrança. Certamente, como já foi observada com profundidade, a semelhança é uma relação estabelecida pelo espírito entre termos que ele reaproxima e que, conseqüentemente, já possui, de sorte que a percepção de uma semelhança é antes um efeito da associação do que sua causa. (idem, ibidem, p. 100 e 101)


O ressurgir dos aspectos passados alia-se ao processo da percepção real, deslocando-a e, assim, dela reteremos algumas indicações que nos levarão a evocar antigas imagens. Assim, a memória passa a ter decisivo papel no processo psicológico total.  A memória relaciona presente com passado, bem como interfere no processo atual das representações. “A memória aparece como força subjetiva ao mesmo tempo profunda e ativa, oculta e invasora” (Bosi, ibid., p.9).
Assim, surge o conceito de “memória individual”, identificado nos estudos de Bergson,  como sendo a face subjetiva do nosso conhecimento acerca das coisas. Ele procede a um estudo diferencial da memória, defendendo que o passado sobrevive em nós de dois modos diferenciados:
1) através de mecanismos motores;
2) através de lembranças independentes.
O primeiro modo é denominado de memória-hábito e o segundo de imagem-lembrança.


Dessas duas memórias, a primeira é verdadeiramente orientada no sentido da natureza; a segunda, entregue a si mesma, iria antes em sentido contrário. A primeira, conquistada pelo esforço, permanece sob a dependência de nossa vontade; a segunda, completamente espontânea, é tanto volúvel em reproduzir quanto fiel em conservar (BOSI, ibidem, p.97)

 
O primeiro tipo reproduz tudo o que aprendemos ao longo da nossa vida; o segundo, diz respeito à recordação de um acontecimento que com tempo e espaço definidos não podem mais ser repetidos. A memória, unindo esses dois planos, possibilita-nos uma consciência espaço-temporal – condição necessária para equilíbrio. Henri Bergson dispõe o estudo da memória em aspectos espontâneos o que distingue sua abordagem daquelas mecanicistas que a tratam como um espaço escuro do cérebro. O filósofo francês toma o passado enquanto instância que se mantém íntegra no espírito, subjazendo de modo inconsciente. É na memória que sobrevivem as imagens pretéritas, em forma de lembrança ou em estado inconsciente. Assim, é que o filósofo estabelece a oposição entre memória e matéria, sendo esta responsável pelo esquecimento e obstáculo ao curso daquela; dessa forma, justifica-se o dicotômico título do livro – Matéria e Memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito.
Maurice Halbwachs(1877-1945), francês, executado em 1945 pelos nazistas, tratou engenhosamente tanto das ciências do espírito quanto das ciências naturais. Contudo, seu estudo de maior relevância se fez enquanto sociólogo. Estudou Bergson e Durkheim e, a partir de tal especulação, fez do tempo e da memória o centro de sua pesquisa sociológica. Influenciado pelo mestre Emile Durkheim, Halbwachs opôs-se à abordagem psicologizante que Bergson conferindo à memória um enfoque social.


A mudança de visada se dá na própria formulação do objeto a ser apreendido: Halbwachs não vai estudar a memória, como tal, mas os “quadros sociais da memória”. Nessa linha de pesquisa, as relações a serem determinadas já não ficarão adstritas ao mundo da pessoa (relação entre o corpo e o espírito, por exemplo), mas perseguirão a realidade interpessoal das instituições sociais. A memória do indivíduo depende do seu relacionamento com a família, com a classe social, com a escola, com a Igreja, com a profissão; enfim, com os grupos de convívio e os grupos de referência peculiares a esse indivíduo (BOSI, ibid., p.17)


Enquanto Bergson afirma que no espírito se conserva todo o passado, Halbwachs predica que a vida atual do indivíduo é que desencadeia o curso da memória – só lembramos aquilo que o meio nos leva a lembrar. Para o sociólogo, não existe memória puramente individual, pois o indivíduo interage e sofre a ação do meio; portanto, Halbwachs propõe o conceito de memória coletiva – embora a lembrança tenha um caráter particularizante, não é individual, pois remete a um contexto de interação. Ele postula que a origem da memória coletiva ocorre “na interação e no significado comum que a lembrança tem para o grupo, em uma referência direta aos preceitos weberianos” (ENNE, 1992).
Para o sociólogo, um questionamento crucial acerca da memória coletiva seria em relação aos liames nos quais o indivíduo se apóia no presente para recuperar o caminho de volta ao passado, ou seja, nos elos que interligam passado e presente, a fim de que a memória possa ser ativada.  Essa indagação retoma o “aroma e sabor” o qual Proust coloca como indícios para tal retorno.
Nesse âmbito, lembrar representaria mais que reviver – seria a reconstrução de experiências do passado a partir de imagens atuais. O passado não permaneceria incólume, tal com ocorre no inconsciente do indivíduo de acordo com os postulados de Bergson. Para Halbwachs, a lembrança é construída por situações presentes no seio das representações que formam nossa consciência da atualidade. Se lembramos um fato da infância, por mais clara que pareça essa lembrança, não é possível que tenhamos mais a mesma imagem de outrora, uma vez que tendo se alterado nossa percepção ao longo dos anos, altera-se também nossa visão acerca da realidade. Essa conclusão de Halbwachs se opõe à visão bergsoniana, na qual a lembrança conserva o passado em sua totalidade. Isso só aconteceria se o adulto mantivesse o mesmo sistema de representação que tinha na infância. Segundo Halbwachs, nossa memória sofre alterações a partir mesmo de simples mudanças no ambiente, portanto nossa memória individual estaria atrelada à memória coletiva.


Mas nossas lembranças permanecem coletivas, e elas nos são lembradas pelos outros, mesmo que se trate de acontecimentos nos quais só nós estivemos, e com objetos que só nós vimos. É porque, em realidade, nunca estamos sós. Não é necessário que outros homens estejam lá, que se distingam materialmente de nós: porque temos sempre conosco e em nós uma quantidade de pessoas que não se confundem. (HALBWACHS, 1989, p.26)


Maurice Halbwachs, estudando os quadros sociais que compõem a memória, enfatiza que a lembrança, embora particular, está sempre interagindo com grupos e instituições sociais. A rememoração só é possível no entrelaçamento das memórias dos grupos em meio aos quais vivemos. Portanto, ainda que não estejamos em presença das pessoas do grupo, nossa percepção só se faz por meio do entrelaçamento das experiências grupais. A lembrança se constrói no contexto dessas relações, dessas diversas memórias, dando origem ao que o sociólogo denomina de “comunidade afetiva”, e fora dessa comunidade, dificilmente podemos lembrar algo. Nessa concepção de memória, o “outro” torna-se elemento essencial – é a base que dá ao indivíduo a dimensão social de compartilhar lembranças pretéritas que o ligam a um passado comum com os demais membros sociais – a memória individual é nutrida pela memória coletiva. O papel da linguagem é, pois, fundamental para o estabelecimento dessa memória coletiva, uma vez que permite a expressão narrativa das lembranças. Conforme expõe Ecléia Bosi, a linguagem é o instrumento socializador da memória, conquanto reduz e unifica no mesmo espaço histórico e cultural as imagens lembradas, sonhadas e da vigília atual, ou seja, aproxima experiências distintas como as do sonho e as vividas recentemente.
Halbwachs interpreta a lembrança do ponto de vista do seu caráter social e para tal, utiliza-se dos mais convincentes recursos de convencimento. Malgrado, vale a ressalva, é uma abordagem, respaldada e bem elaborada como tantas outras que têm aportes na temática. Cada teórico envolvido na causa busca explicar a memória de acordo com as concepções eleitas em um determinado momento histórico.  Cabível se faz retomar o pensamento de Jacques Derrida, filósofo francês, ao afirmar que nenhum signo é puro ou possui significação completa, todos estão num jogo infinito de diferenças. Acontece que em meio a essa cadeia de significantes, “certas significações são elevadas desse jogo de significantes, conduzidas por ideologias sociais, a uma posição privilegiada” (EAGLETON, 2001, p. 181). Com as antinomias que circundam o estudo da memória não seria diferente, cada abordagem tem sustentação de acordo com o contexto em que estiverem inseridas, podendo sair da margem ao centro e vice-versa.
Observando as teorias parafraseadas acima, podemos nos reportar à poesia de H. Dobal. Seus versos dominam um jogo magnético que entremeia o tempo e memória no fascínio poético de composição de imagens. Com destreza, permite a tessitura de uma experiência mnêmica insólita. Os comentários, abaixo, seguem à guisa de análise da concepção de memória que se pode flagrar em algumas poesias do livro O Tempo Conseqüente. Entre as duas concepções retratadas acima, dissolvem-se as lembranças expressadas nos versos. Ora se faz presente uma, ora a outra e, ainda há os momentos do entrecruzamento de ambas – cujo sustentáculo se dá por meio de uma elevada apropriação de simbologias.

 

                 A INIMIGA


No trolley-bus vai germinado o poema
e a rua das Laranjeiras pára na pausa das antenas
sob o correr de casas flui um rio enterrado
cry me a river cry me a river
Maracanã Comprido Carioca
a cidade imensa diminui seus rios


Rio riso turvo onde vogamos
entre anúncios e tantas cousas ofertadas
a alta costura o baixo espiritismo
Palheta Palheta Palheta
Palheta eis o meu café
vagas para cavalheiros
a cidade inimiga requinta a crueldade
palpites para hoje Elacira
Filasse Happy Baby Ethel
cambista carnts bicheiros desembestada
exploração de esperanças

                      (...)

O futebol de salão o futebol de praia o futebol mesmo
agora os cobras se preparam nas peladas
e os que buscam os estádios levam consigo os rádios
para a sobrecarga emocional que os locutores
dramáticos concedem. Agora nos morros
tramam-se enredos de carnaval as favelas se mudam
911 famílias trasladadas
assaltantes assombram a Vista Chinesa


As bananeiras do morro acenam de outro tempo
a outro espaço pertence este capim dos morros
e nas encostas do Corcovado as cabras ruminando
são as planícies do Piauí que vêm voltando.

                     (...)

Malhadas de carros dormem nos espaços baldios
Tantos carros demais rolam nas ruas
E as ruas dando nome a tanta gente
De casas assassinadas fabricam-se edifícios
Mas na floração de julho as mangueiras insistem
Cada vez mais reduzidas


No pátio do Ministério da Educação boqueirão de ventos
termina a viagem urbana entre desconhecidos
sono tutti nemici ai cidade inimiga e amada
ai cidade dos optantes quem te vê
e com seus dias numerados te sabe mobile  mas eterna
desaguados aqui de tantos rios menores
tua solidão aumentamos.

 

 
O poeta, em movimento, vai percebendo a cidade do Rio que passa pela janela do bonde. É uma cidade inimiga, porque a percebe em oposição à sua terra. A memória como força subjetiva absorve o eu poético, sua percepção impregnada pela lembrança interfere no seu processo de representação: a recíproca inimizade entre o “eu” e a cidade. O movimento típico de um grande centro urbano constitui-se o ápice da crueldade da cidade inimiga.
Inimiga que também castra seus rios. Tais rios, ao contrário dos rios da sua terra amiga, tantas vezes evocados por sua lembrança – tematizados em outros versos com intensidade e correnteza insólitas – Parnaíba, Poti, Surubim (Campo Maior), não submergem na garganta da devastação urbana, com tamanha crueldade. Pela cidade turva, “entre anúncios e tantas cousas ofertadas”, segue seu destino pelo bonde que pulveriza percepção; aqui, esse termo assume a caracterização que lhe destinou Halbwachs. Emergem as lembranças do passado, ao passo que observa a paisagem: “as bananeiras do morro acenam de outro tempo / a outro espaço pertence este capim dos morros”.
A memória, permitindo a transmutação da imagem presente para imagens do passado, desloca o que lhe passa pelas retinas, reportando-o ao espaço que o desejo o conduz: “são as planícies do Piauí que vêm voltando”. Bergson afirma que as nossas lembranças sempre interferem nas nossas percepções atuais; assim, á justificado o fato de o sujeito lírico passar por um processo de transposição de espaço – olha para a paisagem do Rio, todavia por meio da lembrança “vê” o Piauí, “vê” o que o sentimento lhe sugere. Privilegia o “lá” em relação ao “aqui”, dicotomia que Gonçalves Dias legou a toda uma geração de poetas que, inovadora ou ironicamente, não puderam se poupar de fazer suas próprias Canções do Exílio. A paisagem das encostas do Corcovado é o estímulo tomado pela subjetividade poética como elemento que lhe remete ao passado – ele busca sua identidade na conservação de um estado psíquico já vivido que lhe trouxera experiências pessoais únicas. Não a lembrança pura, mas a imagem-lembrança proporciona o “se souvenir”, o emergir daquilo que jaz nas “zonas profundas do psiquismo”, refletindo uma ocasião singular.
A memória é revelada através de uma experiência de linguagem – e, assim, as planícies do Piauí voltando refletem uma espécie de catarse, propiciada pela ativação da memória que se propaga pela linguagem. Não se poderia negar, nesse âmbito, a compatibilidade com o pensamento de Bergson quando afirma que a memória permite a relação do corpo presente com o passado. Partindo desse ponto, a descrição da memória individual aflora, inexoravelmente: por intermédio desse retorno “o passado não só vem à tona das águas presentes, misturando-se com as percepções imediatas, como também empurra, ‘desloca’ estas últimas, ocupando o espaço todo da consciência” (BOSI, ibid, p.9)
Todavia, uma vez que ele retrata um quadro literário tantas vezes reproduzido: “aqui” e “lá” (portanto não reverberando menos o anseio de tantos imigrantes que como o sujeito lírico se isola na cidade grande), torna-se evidente, na cena dos versos, a paragem da memória coletiva defendida por Halbwachs, que ao contrário da de Bergson, depende da relação do indivíduo com a sociedade. Como não reconhecer que os versos remetem a uma mensagem que é coletiva tanto nas vozes de pessoas comuns como no eco da tradição literária? Tal aspecto é enfatizado por Halbwachs ao longo da diferenciação que estabelece entre memória coletiva e memória individual.


Certamente, se nossa impressão pode apoiar-se não somente sobre nossa lembrança, mas também sobre a dos outros, nossa confiança na exatidão de nossa evocação será maior, como se uma mesma experiência fosse começada, não somente pela mesma pessoa, mas por várias (HALBWACHS, ibid., p.25)


É difícil estabelecer, na simbólica silhueta trazida pela memória para o cenário poético, o limite entre memória individual e coletiva, dado o jogo da linguagem na apropriação de metáforas insólitas. Pode-se defender a coexistência delas, não privilegiando predomínios, mas observando o tênue limite, se é que ele existe, dentro das possibilidades de invenção que a memória possibilita na variação do espaço real para o imaginário. A lembrança evidencia uma passagem para a interpretação daquilo que estando distante, não está findo, e sua reconstituição pela linguagem é o que garante um momento de oásis – as reminiscências traduzem o caráter inesgotavelmente emocional da memória, enquanto meio de promover novos elos com o passado.
Nos versos finais, é sugerida uma reflexão mais ampla, relacionada a aspectos histórico-culturais da cidade: como tantos outros que imigraram para aquele centro urbano, o sujeito lírico se apercebe tal como o próprio cenário citadino: disperso no que tange à sua identidade. A relação extrapola o limite corpo e espírito, atingindo a dimensão interpessoal das instituições. A cidade passa por um processo de sucessão cultural e muito da sua memória começa a ser deslocada por novos extratos advindos através da migração significativa na época – década de 50 e 60 do século XX – no eixo sul-sudeste: “desaguados aqui de tantos rios menores / tua solidão aumentamos”. A cidade que tem seu quadro interno tão variado sofre a ação dos agentes diversos que, pelo dinamismo social, aumentam a sua solidão. Deslocados, os exilados transferem seu estado interior ao espaço físico, que também se encontra em uma trajetória de mutação sócio-cultural, dado o processo de metropolização.
Na poesia “Bestiária”, sob novo ângulo, também é aborda a temática da memória:


                                        BESTIÁRIO


O homem e os outros bichos que passeiam
neste campo de cinza te perseguem.
E após tantos verões sua presença
ainda se guarda em ti como na infância.


E em ti se faz antiga esta lembrança
do descuidado andar nestas veredas
de gado. Mas outra vez nos tabuleiros
de abril teu cavalim de carnaúba


estradando no ar campeia ovelhas.
Vence os campos de outrora e as miunças
soltas do seu passado te restauram
em teu tempo. Teu tempo conseqüente
neste imenso curral em que te amansas
triste e só campeador de lembranças.

 


Em uma entrevista cedida ao programa “Roda Viva”, na TV Cultura, José Saramago afirma que “todas as memórias são falsas”. Descrever um sonho, por exemplo, é transformá-lo em outra coisa – o que existe, para ele, são memórias de memórias, vestígios de outras memórias (Dalila Teles, s/d). Na poesia supra, o sujeito lírico admite a perenidade das lembranças passadas – “E após tantos verões sua presença / ainda se guardam em ti como na infância” – constituídas de traços a ele tão verdadeiros como os próprios bichos e a paisagem local. (Diante dos versos, seria adequado reproduzir o discurso generalizador de Saramago, quando afirma que todas as memórias são falsas? Seria “falsa” um termo apropriado ao contexto?)
O “se souvenir” reflete o que já parece inerente ao eu lírico, as lembranças não lhe surgem, elas sobrevivem ao tempo impregnadas ao seu ser. Segundo Bergson, o passado aflora à consciência, através de imagens-lembranças, por se encontrar conservado no espírito de cada pessoa, potencialmente – para usar um termo aristotélico. Na primeira estrofe, o sujeito lírico admite o caráter perene de suas lembranças, elas o perseguem, enquanto experiência vital na reconstrução e representação do seu passado. E tudo que pulsa e transmite ao seu ser legitimação de sentimentos permanece enquanto signos de consciência.
Embora, na segunda estrofe, ele reconheça que a lembrança é antiga, imediata e presentemente, torna-a vertical: emerge, claramente, a imagem do garoto brincando em seu cavalim (sic) de carnaúba. E, sendo o tempo que lhe rodeia conseqüente, naturalmente habita como os bichos àquelas veredas e tabuleiros, tornando-se um campeador de lembranças. E, se campeador de lembranças é porque elas existem substancialmente, estão ao seu alcance e não tão soltas, mas permanecem dentro do imenso “curral” em que o “eu” se amansa, tal como os outros animais. Igualar-se aos bichos é, possivelmente, identificar-se a eles na condição de mortais e exploradores da natureza: os animais campeiam em busca de alimento, como ele também – todavia seu alimento são as lembranças do passado que o restauram.  Há uma naturalidade que se eleva à medida que o pensamento segue a trilha que esboça as lembranças vividas e, dessa forma, aporta na concepção bergsoniana que revela a sempre conservação de toda a vida psicológica já transcorrida no indivíduo.
As lembranças do passado o perseguem, tornando-se constante presença (“ainda se guarda em ti como na infância”). Os quadros pretéritos se recompõem vencendo a condição de anacrônicos; e restaurados, enfim, atingem por meio do fulcro memorialístico, o seu tempo conseqüente, tanto quanto suas lembranças são nítidas e lúcidas. Tal aspecto recobra aquilo que Bergson chamou de imagem–lembrança, “diz respeito a uma intuição do espírito que posso, a meu bel-prazer, alongar ou abreviar” (BERGSON, ibid., p.87). É possível entrever que o “campo” metaforiza a consciência e o “campo de cinzas”, o inconsciente: as aparentes lembranças antigas, paradoxalmente, surgem com nitidez lingüística e emotiva: “Mas outra vez nos tabuleiros / de abril teu cavalim de carnaúba / estradando no ar campeia ovelhas”.
Segundo Bergson, as lembranças não são criadas à medida que a consciência as acolhe, elas já existiam em estado latente, no inconsciente“. Após o quinto verso, a retomada do passado é a um tempo tão incisiva e dispersante que até parece intocável pelas alterações espaço-temporais. O “aroma e sabor” proustianos  se transmutam na atmosfera que envolve o sujeito lírico ao entrar em contato com o campo, com os bichos, enfim, com a natureza evocada sob os auspícios de um campeador que parece conhecer tão bem seu espaço ao ponto de confundir-se com ele.
       Pelo exposto, evidencia-se o predomínio dos conceitos de Bergson ao longo da análise feita, todavia se observada a reflexão de Halbwachs ao enfatizar que a rememoração só ocorre na inter-relação das memórias grupais e, que é no contexto dessas diversas memórias que a lembrança se constrói, torna-se oportuno perceber que é a vivência em um meio urbano que transporta “o poeta” a tais lembranças. É na sua relação com o “outro” que emergem as lembranças do campo e da terra – em quantas pessoas de passado comum não se desencadeia lembrança semelhante? Assim, Dobal se une à sua “comunidade afetiva”. A rememoração individual se faz na interação com a sociedade em que habita – como omitir que as memórias constituintes dos versos estão impregnadas da memória de todos os indivíduos que passaram por essas paragens “do Piauí e de outros sertões”?
A poesia de H. Dobal perfila versos que retratam a memória em profundo estágio de projeção, de modo que amplia a possibilidade de analisá-la sob diversificadas abordagens teóricas, como se pode perceber através dos textos expostos. Ao longo do livro O Tempo Conseqüente, são vários os versos que remetem a um amplo domínio da projeção memorialística, segundo o que também se pode observar nos fragmentos:


Estas pedras se gastam com o tempo.
Vão lentamente se desgastando
e o tempo lhes sobra para as lembranças
que não conservam. Acaso haverá
mais o que céu e sol mais do que pedra
desta seca paragem outra memória”
                                  (Pedras)


Estas paisagem morta onde somente
vão ruminando as cabras os seus dias,
não se rumina em mim como lembrança
mas como um sonho repetindo os dias.
                                    (Bucólica)


Dia a dia os dedos do outono vão dourando
os parques. De Londres onde o céu é baixo
as gaivotas gritarão seu rio.
Solidaimperal a cidade se guarda
a segurança dos jardins: a lembrança
se guarda em nós quando seu tempo
ultrapassamos.
                          (Lovely London)

 

As linhas de pesquisas abordadas, tanto a de Henri Bergson como a de Maurice Halbwachs não puderam adentrar plenamente os átrios do universo poético de Dobal. Como a práxis literária sempre supera os postulados teóricos que pretendam explicá-la; o texto poético, em questão, terminou por se constituir em um amálgama que, comportando as duas abordagens, pôde-se adequar melhor ora à visada de um teórico, ora a de outro, todavia sem jamais se esgotar em nenhuma delas. Convém destacar que é amplo e complexo o modo com o qual Dobal conduziu suas memórias ao universo da criação poética.

 

REFERÊNCIAS

 
BERGSON, Henri. Matéria e Memória: ensaio sobre a relação do corpo com o Espírito; tradução de Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. São Paulo, T. A. Queiroz, 1979.
DOBAL, Hindemburgo. Obra Completa: Obra Completa I – Poesia. Teresina: Corisco.
DOBAL, Hindemburgo. Obra Completa: Obra Completa II – Prosa. Teresina: Corisco, 1999.
DOBAL, Hindemburgo. Os Signos e as Siglas.  Teresina: Corisco, 1987.
DOBAL, Hindemburgo. O Tempo Conseqüente. Teresina: Corisco,1998.
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
ENNE, Ana Lúcia Silva. In www.intercom.org.br 
HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Vértice, 1989.
KESSEL, Zilda. Disponível em: <http//:www.memoriaeducacao.hpg.ig.com.br html> Acesso em: 01 de abr. 2006.

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