PALAVRA ABERTA
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"Quando esse pequeno pedaço de gente com grandes óculos e voz de final de comício participa da Resistência ou faz política, quando acredita no comunismo e depois o execra, ela o faz com suas entranhas, sem moderação nem prudência”.
(Bertrand Poirot-Delpech /acadêmico-jornalista – 1996)
O romance O Amante processa, numa ruminância de vida, uma tentativa autobiográfica proposta pela autora. Pelos corredores obscuros ou iluminados das palavras; com afinco, há de seguir o explorador de enigmas – leitor, em uma busca, cujo objetivo caracterizará não mais que um enlace com as viscerais reflexões acerca dos mistérios que envolvem a relação entre o eu e o mundo da narradora. Todavia, como afirma a professora Sylvia Clark(2000), em sua dissertação de mestrado: “(...)deve o leitor desconfiar sempre do autor que diz escrever sua biografia”. Essa tênue delimitação entre literatura e realidade será tomada mais adiante. Entretanto, convém notificar a intenção precípua da autora ao tentar preestabelecer uma condição de leitura voltada para um relato de natureza autobiográfica.
Objeto deste estudo, O Amante, é uma das mais expressivas obras da escritora, cineasta e dramaturga francesa, Marguerite Donnadieu – nascida em Gia-Dinh, no subúrbio de Saigon, no Vietnã, a então Indochina, em quatro de abril de 1914, semanas antes de estremecer a Primeira Guerra Mundial. O pseudônimo Duras surgiu com a obra Les Impudents, em 1943, seu primeiro romance. Duras remonta a uma cidade de Lot-et-Garonne, sudoeste da França, localidade onde nasceu o pai, Henri Donnadieu, professor de matemática que faleceu ainda jovem, deixando a esposa, Marie Legrand com três crianças: dois meninos e a pequena Marguerite, com apenas quatro anos.
Para dar continuidade ao sustento da família, Marie Legrand, que continuou residindo na Indochina, passou a ministrar aulas de francês e a tocar piano em um cinema. O fim do cinema mudo deu cabo à sua carreira de pianista. Ela decidiu tentar cultivar terras obtidas por meio de concessão. Ao contrário das suas perspectivas, passou a conviver com a invasão das águas do Pacífico, que devastaram a sua plantação de arroz, levando-a a gastar todas as suas economias na construção de barragens que a protegessem, o que foi inútil. Desse episódio é que surge a matéria do livro Uma Barragem contra o Pacífico, em 1950, embora a mãe confesse não se reconhecer na obra. Foi com esse livro que a autora começou a se projetar nacional e internacionalmente.
Aos dezoito anos, seguiu para a França a fim de continuar seus estudos. Em entrevista a uma rádio francesa, em 1992, Duras confessa que morreu aos dezoito anos, ocasião em que deixou a Indochina.
Em 1939, casou-se com o poeta Robert Antelme. Paris vivia sob o domínio nazista, o marido foi preso e deportado, fato que propiciou a entrada de Marguerrite no grupo de Resistência contra a ocupação alemã; e, em seguida, no partido comunista francês, com o qual veio a romper, ferrenhamente, anos mais tarde. Foi nessa fase dos trinta anos, no pós-guerra, que Duras conviveu com Sartre e Georges Bataille, em Saint-Germain-des-Prés. Marguerite já se destacava em meio aos intelectuais parisiense. Divorciou-se em 1946; viveu um romance com Dionys Mascolo, do qual teve um filho nati-morto. Encontrou novo amor, em 1980, Yann Andréa – relacionamento que lhe dá novo alento à escrita. Em 1982, foi internada para desintoxicar-se das bebidas alcoólicas. Submeteu-se a novo tratamento no final de 1988 até meados de 1989.
A obra O amante, 1984, trouxe a Duras o prêmio Goncourt, o mais importante prêmio literário francês. O sucesso rendeu-lhe uma tiragem de cerca de três milhões de exemplares do livro e tradução em mais de quarenta idiomas. A notoriedade foi ampliada quando a obra foi adaptada para o cinema por Jean-Jaques Annaud, reforçada por conta de uma polêmica desencadeada pela autora ao sentir-se saqueada no que diz respeito à originalidade da obra. Em decisão compatível com sua forte personalidade, escreveu um novo roteiro, fazendo-o ser publicado sob o título de O amante da China do Norte.
Além de romancista e roteirista de cinema, ela foi também dramaturga, deixando cerca de cinqüenta obras publicadas. A obra de Duras é fortemente marcada por desvios estilísticos, cujos enigmas a atraem a ponto de perder-se entre os corredores da ficção e da autobiografia. Seus romances pertencem ao noveau roman, que segue a nouvelle vague no cinema, movimento do qual tornou-se também expressiva participante.
Duras faleceu aos 81 anos, no seu apartamento, em Paris, no bairro de Saint-Germain. A causa da morte não se tornou notória, todavia é sabido que Marguerite Duras sofria de enfisema pulmonar.
A autora chegou à biblioteca dos brasileiros, com expressividade, ao publicar Hiroshima Mon Amour, em 1959 – um roteiro escrito para o cineasta Alain Resnais, bem como com a explosão da obra O Amante, cuja essência identifica a tal ponto autora e obra, que se torna indevassável os limites entre ficção e realidade. Tal questão cede espaço para a polêmica discussão já traçada no âmbito da teoria literária acerca da inadequação semântica e terminológica propiciada pela relação estabelecida entre pessoa e personagem. Embora haja uma extensa diferença entre um e outro ser, há de se considerar que um – o ficcional – é criado a partir do outro – o real. Torna-se lícito, pois, resgatar um breve histórico acerca da questão, a fim de um maior esclarecimento no que tange ao percurso pelo qual passou a crítica literária no processo de estabelecimento do conceito e função da personagem, enquanto uma instância da narrativa.
Remonta da antiguidade grega, a tradição das histórias fictícias orais e escritas. Para abordar um segmento dessa tradição que tomou significativas reflexões registradas nos manuais de literatura, desde as primeiras injunções filosóficas, pode-se evidenciar a Epopéia. Grandiosa pela dimensão ocupada, uma vez que visa a uma compreensão global do universo, é um texto cuja ação revela a totalidade de uma pátria ou época, tendendo a uma demonstração geral do Cosmo, sobretudo, por se fundamentar na tensão dialética entre divino e terreno, segundo afirmações de Hegel (1970-1831). Por sobre esse universo de ficção, conhecimento e busca, muitos pensadores debruçaram acepções e aferências. A epopéia percorreu uma vasta dimensão da existência humana fortemente cercada por regras, sendo registrada como uma forma artística submersa em um universo de pesquisas e conjecturas. Sofreu metamorfose lenta, dada a muralha da tradição clássica que cerceou o universo da sua extensão.
Caracterizando-se pela presença de um herói, semideus, símbolo de enaltecimento de um povo no auge do seu percurso histórico, na defesa de uma causa coletiva, a epopéia adquire um envolto de universalidade que ultrapassa o individualismo peculiar à poesia lírica. Não obstante às bases tão bem sobrepostas dos escritos epopéicos, o dinamismo das evoluções sócio-culturais não os poupou, veio sobre eles a carga de transformações comum ao que se ergue no âmago da existência. E, passando por uma sedimentação na sua estrutura, a epopéia se tornou alvo da invasão de novas perspectivas que, inexoravelmente, refletem uma nova dimensão da vida e da arte. É por essa época, meados do século XVIII, que entram em declínio os valores defendidos pela estética clássica, sobressaindo-se as concepções da nova classe a se firmar – a burguesia. Assim, surge o romance, que no dizer de Hegel, pode ser definido como “a epopéia burguesa moderna”.
As pesquisas acerca das obras de arte se alargam durante os séculos subseqüentes, mas foi somente no século XX que, no âmbito da literatura, a crítica tornou-se mais sistematizada. No que tange à narrativa, novas concepções se avultaram. Por exemplo, o papel e a função da personagem de ficção se revestiram de uma postura despojada da visão antropomórfica que a caracterizou durante séculos, primando pela libertação do aspecto moral a que este ser fictício estivera submetido, quando de sua concepção como modelo a ser imitado (Ars Poética – Horácio). Escritos envoltos de profundas transformações na estruturação dos elementos da narrativa realizados por escritores como Kafka, Proust, Joyce, Henry James, etc., impulsionaram a crítica a uma revisão dos seus postulados.
Na segunda década do século XX, o filósofo húngaro, Georg Lukács, (Budapeste, 1885-1971) escreveu o livro Teoria do Romance (1920). Nessa obra, ele não se voltou apenas para os aspectos externos da obra literária, mas a analisou buscando extrair dela uma estrutura correspondente a um certo momento histórico. Evidenciou que o gênero romanesco representava a sensação de incompletude da burguesia, assim, ter-se-ia o herói problemático – herói demoníaco, não mais sob o julgamento dos deuses, mas à mercê da própria sorte. Embora apresente uma visão da personagem fora do paradigma da tradição, Lukacs a submete a determinantes sociais, fator que caracteriza um aspecto residual da relação entre personagem e pessoa.
Em 1927, E. M. Forster, romancista e crítico inglês, publica Aspects of the novel. Na obra, refere-se a vários aspectos concernentes ao romance e, sobretudo, à personagem de ficção. Forster retoma uma diferenciação proposta por Johnson (século XVIII), no que diz respeito à classificação de personagem: personagem de costume e personagem de natureza, dispondo-a em nova dimensão: personagem plana (flat characters) e personagem esférica (round characters).
As personagens planas eram chamadas temperamentos (humours) no século XVII, e são por vezes chamadas tipos, por vezes caricaturas. Na sua forma mais pura, são construídas em torno em torno de uma única idéia ou qualidade. (...) As personagens esféricas não são claramente definidas por Forster, mas concluímos que as suas características se reduzem essencialmente ao fato de terem três, e não duas dimensões; de serem, portanto, organizadas com maior complexidade e, em conseqüência, capazes de nos surpreender. (Cândido, 2002, p.62-63)
Para o romancista inglês, intriga, história e personagem constituem os elementos essenciais do romance. E, embora a personagem seja tomada na sua relação com os demais elementos da obra, ainda não se dá a ruptura da visão antropomórfica da personagem arraigada pela tradição, segundo a escritora Beth Brait. Edwin Muir, escritor francês, mantém postura semelhante à de Forster na obra The Structure of the novel, em 1928. Ele evidencia os elementos próprios da ficção e, portanto, os distingue dos elementos da vida real.
No livro A Personagem, 2002, Beth Brait esclarece:
A radicalização para uma concepção da personagem como ser de linguagem só vai acontecer com os formalistas russos, que iniciam, por volta de 1916, um movimento de reação ao estudo naturalista-biológico ou religioso-metafísico da literatura(...) os formalistas preocupam-se com os elementos que concorrem para a composição do texto e com os procedimentos que organizam esse material, denominando fábula o conjunto de eventos que participam da obra da ficção, e trama o modo como os eventos se interligam.
De acordo com essa teoria, a personagem passa a ser vista como um dos componentes da fábula, e só adquire sua especificidade de ser fictício na medida em que está submetida(...) às regras da própria trama.(p.43)
Os postulados dos formalistas russos proporcionaram novos estudos e, conseqüentemente, muitas teses escritas sob diversas nomenclaturas, foram surgindo. Nesse percurso, vale destacar nomes como Wladimir Propp, Tzvetan Todorov, Philippe Hamon, Julien Greimas, etc. A atual visão que os manuais de teoria da literatura trazem acerca da personagem de ficção, além da contribuição das correntes imanentistas, conta ainda com abordagens elaboradas pela Psicanálise, Sociologia, dentre outras.
Antônio Cândido, No livro A Personagem de Ficção adota uma postura diferenciada da forma adotada por Beth Brait no livro A Personagem. Esta se preocupa em relatar toda a polêmica travada na tradição literária clássica, uma vez estabelecida a relação entre personagem e pessoa humana, até a decadência de tal visão com a chegada dos formalistas russos. Antônio Cândido destaca a personagem como um ser de linguagem, todavia volta a atenção para as “afinidades e diferenças essenciais entre o ser vivo e os entes de ficção”:
A personagem é um ser fictício, - expressão que soa como paradoxo. De fato, como pode uma ficção ser? (...) No entanto, a criação literária repousa sobre este paradoxo, e o problema da verossimilhança no romance depende desta possibilidade de um ser fictício, isto é, algo que, sendo uma criação da fantasia, comunica a impressão da mais lídima verdade existencial. Podemos dizer, portanto, que o romance se baseia, antes de mais nada, num certo tipo de relação entre o ser vivo e o ser fictício(...) (p.55)
Observa-se, ao longo da exposição, que Antônio Cândido evidencia que na vida real, a visão que se tem do homem é uma visão fragmentária e insatisfatória, o que se detecta é uma sucessão de modos-de-ser. No romance, por ser uma experiência estruturada racionalmente, tem-se uma realidade mais coesa, o modo-de-ser da personagem delimita uma natureza menos fluida. Em meio às idéias tecidas acerca da personagem, o autor afirma:
(...) originada ou não da observação, baseada mais ou menos na realidade, a vida da personagem depende da economia do livro, da sua situação em face dos demais elementos que o constituem: outras personagens, ambiente, duração temporal, idéias. (...) A convencionalização é, basicamente, o trabalho de selecionar os traços, dada a impossibilidade de descrever a totalidade duma existência. (p.75)
A personagem de ficção, por ser um elemento de central importância dentro da narrativa, torna-se atrativo de inesgotáveis discussões. Detém caráter polêmico, conquanto se relaciona com uma realidade exterior; o que não implica necessariamente fator imitativo. Personagem é invenção, ainda que tenha relação direta ou indireta com a realidade factual, haverá sempre a intervenção do demiurgo e a determinação dos traços permitidos pela lente da subjetividade – “a realidade é apenas um dado inicial, servindo para concretizar virtualidades imaginadas”(Cândido). A importância e função da personagem percorrem um universo de extensa e labiríntica diversidade cujas dimensões margeiam as abissais essências ontológicas.
Marguerite Duras declarou em relação à obra O Amante que não escrevera uma ficção, afirmando tratar-se a escrita de uma obra autobiográfica; no entanto, é licito refutar-se o tom de verdade que a autora afirma subjazer à narrativa. Os fatos narrados fluem sob os impulsos da memória, aspecto que marcando a subjetividade, inexoravelmente, compromete a reprodução fiel da realidade.
Antônio Cândido, tomando a discussão acerca da personagem de ficção, afirma que ao buscar um modelo na vida real “o autor sempre acrescenta a ele, no plano psicológico, a sua incógnita pessoal”. Portanto, não obstante à declaração da autora, convém considerar a interpretação subjetiva, inevitavelmente, dada aos fatos narrados, uma vez que tudo é repassado sob seu julgamento e soberania demiurga; e as situações observadas e vividas, segundo “sua capacidade de clarividência”.
A obra inicia sob a invocação de um elogio, cuja essência torna-se o reclame para uma série de reminiscências, que se agrupam de acordo com uma seqüência agradável ou não à preferência da narradora. Assim, é que se esvai a pessoa e surge a personagem – ente sob o qual já não é cabível o delineamento da verdade, mas as possibilidades da verossimilhança.
Certo dia, já na minha velhice, um homem se aproximou de mim no saguão de um lugar público. Apresentou-se e disse:’Eu a conheço há muito tempo, muito tempo. Todos dizem que era bela quando jovem, vim dizer-lhe que para mim é mais bela hoje do que em sua juventude’ (...) Penso freqüentemente nessa imagem (...) É entre todas a que me faz gostar de mim, na qual me reconheço, a que me encanta. (p.7)
Uma recordação – imagem que unifica o tempo à beleza. A submersão nas reminiscências e, assim, o surgimento de uma vital ficção ilhada, paradoxalmente, por um ciclo de mortes lentas, e pelo tempo que eleva o ânimo, mas devasta os anseios. O Amante é, pois, luzes e sombras. Em primeira pessoa, numa perspectiva autobiográfica, a narradora conduz o leitor a turbulentas idas e voltas por acontecimentos vividos, expondo fatos e ocasiões que não revelam senão suas próprias instabilidades existenciais. São alternados pelo jogo memorialístico da narradora, o momento em que vive na Ásia, para estudar o secundário; o passado, ao lado da família, na Indochina e, ainda, o período em que decidiu ir à França, para estudar. Não obstante a essa contingência, extrapolando os limites entre ficção e realidade, a obra evidencia as experiências da narradora; sobretudo, no período da adolescência.
Tenho quinze anos e meio, não há estações naquele país, vivemos numa única estação, quente, monótona, estamos na longa zona tórrida da Terra, sem primavera, sem renovação. (p.9)
Uma nova etapa da sua vida se compunha no horizonte dos desvendamentos narrados – fez a travessia do rio Mekong. Travessia rumo a uma nova realidade, às suas aspirações femininas. Em Saigon, passará a estudar no liceu francês. A família vai emergindo sob pungentes palavras, um prospecto do seu íntimo – a mãe e os dois irmãos vão tomando forma, sob as ondas calmas ou agitadas do fluxo narrativo: são revelados consoante ao contingente emocional repassado pela percepção demiurga.
Os limites entre ficção e realidade, na obra, são de tenra delineação. Todavia, ainda que utilizando-se de fatos reais, a autora Maguerite ultrapassa a abordagem de um relato e consegue ir além de mais um título nas suas publicações. O Amante, pela dimensão adquirida, é um referencial da literatura contemporânea. O que deixa ou não de ser real, não se torna relevante diante do que é possível, verossímil e necessário. A economia interna da obra, originada ou não da realidade vivida pela escritora, desvela magnitude de composição. Embora a própria Maguerite deixe evidente a ligação entre a obra e a realidade, o aspecto mais relevante é a organização estrutural da narrativa, é a tessitura dos elementos que a constitui, a convecionalização traçada. Nesse sentido, Aristóteles, em sua Poética, formulou conceitos acerca da relevância das leis internas do texto no cumprimento real da função literária:
Pelas precedentes considerações se manifesta que não é ofício de poeta narrar o que aconteceu; é sim, de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade. (...) Por isso a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história. (p.78)
Sob o receio de não proceder à maquiagem nos aspectos ficcionais da obra em questão, não será de interesse aqui, fazer referência aos acontecimentos que fizeram parte ou não da real vida da autora. Pessoa e personagem manterão as suas devidas especificidades. E. M. Forster, no livro Aspecto do Romance, traça um parâmetro entre Homo sapiens e Homo fictus. A esse propósito, discorre Antônio Cândido, no livro A Personagem de Ficção:
O Homo fictus é e não é equivalente ao Homo sapiens, pois vive segundo as mesmas linhas de ação e sensibilidade, mas numa proporção diferente e conforme avaliação também diferente (...) De fato, dada a circunstância de ser o criador da realidade que apresenta, o romancista (...) nos comunica esta realidade como um tipo de conhecimento que, em conseqüência, é mais coeso e completo do que o conhecimento fragmentário ou a falta de conhecimento real que nos atormenta nas relações com as pessoas. (p.63-64)
Quinze anos, a travessia. Dezoito anos, o envelhecimento. “Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais”. A afirmação é reveladora de um visceral sentimento de desgaste diante das vicissitudes da vida, do sentimento de incapacidade diante da efemeridade do tempo e da inevitável solidão que os anos impõem aos que permanecem. No caso, a precocidade em evidência é que fornece o toque da peculiar personalidade da narradora. Na balsa, em travessia, estava só, proteção lhe era uma sensação inatingível. O contato com a família seria reduzido, enfatizando o que já se fazia no convívio diário. Os dois irmãos e a mãe, num círculo que jamais completo, possibilitaram lacunas vastas e tão acentuadas, que esferas dicotômicas se firmaram, com grande ímpeto, diante das experiências da moça: menina-mulher.
(...) acho que falei sobre o amor que dedicamos a nossa mãe mas não sei se falei do ódio também (...), a história do amor como a história do ódio e que foge ainda à minha compreensão, é ainda inacessível para mim. (p.30)
O tom dilacerante da sua relação com o mundo, aspecto relevante ao longo de toda a trajetória narrada, advém dos primeiros laços rompidos. Mais incisivo se torna, porque a ruptura se faz de elos firmados com as pessoas que lhe são mais próximas; sobretudo, com a mãe. Estaria sozinha nas desgastantes conquistas a serem empreendidas para a sua sobrevivência. Tomava consciência de que teria de realizar “a busca degradada e, por isso, inautêntica, de valores autênticos, num mundo de conformismo e convenção” (Lukács).
Pela conduta e preferências, a figura materna passou a lhe transmitir uma significativa carga de instabilidade, cuja intensidade atingiria, conseqüentemente, as diversas áreas do convívio social da filha. O afeto diferenciado ao filho mais velho em detrimento dos demais é, das impressões repassadas pela narradora, a de maior devastação.
Creio que somente do mais velho ela dizia: meu filho. Às vezes o chamava assim. Dos outros dois ela dizia: os mais novos. (p.67)
Em virtude de uma infância e adolescência reclinada a um plano secundário, lembranças dúbias e inconstantes perseguiram-na como se tivesse sempre que vencer os mais infernais enigmas. Órfã não só de pai, mas de muitos outros afetos que poderiam suprir suas carências, uma solidão ser-lhe-á inerente, como o próprio ato de respirar. Uma certa frieza da narradora diante de acontecimentos que, normalmente, incitam emoção (a exemplo da primeira relação sexual); é, provavelmente, resultado de uma distorção ocasionada a partir dessa lacuna familiar. O irmão mais velho estará sempre associado às impressões mais sórdidas, era o mais amado pela mãe, todavia inescrupuloso e desonesto. O irmão mais novo, cujo nome é mencionado: “nosso pequeno Paulo”, representa o que a vida lhe propiciou de melhor. Essa relação triangular tem como ápice o irmão mais novo, é dele que emana a força que lhe atrai ao elo familiar.
Com a morte de meu irmão mais novo ela morreu para mim. Bem como meu irmão mais velho. Não consegui vencer o horror que me inspiraram subitamente. (p.33)
O irmão mais velho, acho que não o vi nenhuma vez durante a guerra. Nesse tempo já não me importava saber se estava vivo ou morto. Vejo a guerra exatamente como ele era, espalhando-se por toda a parte, penetrando em tudo, roubando, aprisionando. (p.70)
Esse amor insensato que lhe dedico continua sendo um mistério insondável para mim. Não sei por que o amava a ponto de querer morrer com a sua morte. (p.116)
A mãe e os irmãos representam as cavidades abissais de suas relações afetivas, os focos côncavos e convexos (afeto e repulsa) os quais lhe permitirão analisar o ser humano. E no seu contingente mundo, os fatos concorrem para que se sinta, constantemente, em uma eterna fuga. Esse aspecto da sua personalidade tomará proporções maiores, a posteriori, quando conhece um rapaz do Norte da China, durante a travessia do rio Me
kong – o amante – cujas impressões deixaram-lhe marcas menos profundas que singulares.
Torná-lo em título da obra, confere-lhe o mínimo de reconhecimento, embora não anule os vestígios da banalidade com a qual fora, freqüentemente, tratado. Um chinês doze anos mais velho que a jovem branca, elegante, sempre na sua limusine preta e responsável pela iniciação sexual da adolescente. O pai dele, milionário, nunca permitiria o enlace matrimonial do filho com uma moça sem prestígio social. “Ele diz: você veio porque tenho dinheiro. Digo que o desejo tanto quanto ao seu dinheiro”. Separaram-se tempos depois. Ele se casou de acordo com os desígnios do pai.
Ao longo da narrativa, a imagem mais profunda captada pela lente da narradora, em ângulo introspectivo e inesperado, é a construção de si própria: expondo-se, revelando-se, confessando-se – a narradora-personagem revela os traços polimórficos do seu comportamento. Desde o início da obra, já se pode prever que não se tratará de uma personagem tipificada, todavia tentar moldá-la sob qualquer enunciado taxiológico, é correr o risco de cometer um imperdoável reducionismo. O chinês, dadas as circunstâncias da narrativa, pôde revelar sua complexidade psicológica. As demais personagens são voláteis como fios de lembranças. Todos os acontecimentos narrados são frutos de recordações que, emergem pela força sugestiva de cada momento, embebido por afetos e desafetos. Não há linearidade no fluxo narrativo, mas reminiscências que se unem por nexos de pessoas e espaços reincidentes. No entanto, importa menos os fatos; a escrita sucumbe diante da chama que a mantém acesa – o desconhecido e as adversidades são as vozes ecoantes rumo ao inesperado.
Jamais escrevi, acreditando escrever, jamais amei, acreditando amar, jamais fiz coisa alguma que não fosse esperar diante da porta fechada. (p.30)
A instabilidade da sua vida interior revela uma caracterização fragmentária de si mesma. A insatisfação de não compreender nem a si mesma, nem ao mundo que a cerca, é registrada pela câmera que transmite ao leitor sua angustiante busca ontológica. Tanto a narradora quanto as demais personagens oscilam entre palavras, memórias e desabafos. Todos são reflexos de reminiscências, agradáveis ou não, que, inevitavelmente, vão compondo os fios tecidos para a convencionalização da obra.
O chinês, não perdendo o encanto que lhe fora cravado pela jovem de chapéu de feltro, resolveu lhe telefonar, anos mais tarde, depois de casado, declarando que as marcas deixadas pela menina branca do pensionato do Estado continuavam representando mais que uma lembrança, confessou “que a amava ainda, que jamais poderia deixar de amá-la, que a amaria até a morte”. Ele, desde aquele primeiro encontro na balsa, mergulhou nas águas encantadas daqueles indeléveis olhos; e, ouvindo o seu canto de sereia, rendeu-se ao instigante mundo exposto à sua frente. Representou para ela passeios suntuosos, prazer, erotismo, uma novidade desconhecida. Para ele, a moça era o fim da sua “procura psicológica”, no dizer de Georges Bataille (1987), uma companheira que lhe proporcionara um momento de completude, um impedimento da “nostalgia da continuidade perdida”. Escondia-se do pai, era frágil para vencer todos os interditos que surgiam contra a realização plena dos seus sentimentos; ademais, a pequena adolescente nunca demonstrou corresponder à intensidade dos seus sentimentos.
Ela diz: preferiria que você não me amasse. Ou, mesmo me amando, que se comportasse como se comporta com as outras mulheres. (...) Ele diz que está sozinho, terrivelmente sozinho com esse amor. Ela responde que também está sozinha. Não diz com quê. Ele diz: você veio até aqui comigo como teria vindo com qualquer outro. Ela responde que não pode saber, que nunca foi com ninguém para nenhum quarto. (p.42-43)
As palavras dilacerantes da narradora revelam sua personalidade descontínua, com ânsia de realizar o que Bataille denomina de erotismo dos corpos, caracterizado pelo abandono da sexualidade envergonhada e o retorno à sexualidade animal. Chegando, por vezes, a tal ponto de provocar manifestação de algolagnia, classificada de dois modos, segundo o neurologista e psiquiatra alemão, Krafft-Ebing (1840-1902): algolagnia ativa (sadismo) e passiva (masoquismo). Segundo o psicanalista, discípulo de Freud, William Stekel(1931), os praticantes da algolagnia são normalmente indivíduos em conflito com as formas de lei. Freud conclui que tais manifestações estão intimamente ligadas ao complexo de castração e à consciência de culpa. No entanto, não há explicações universalmente válidas para a prática da algolagnia; na obra, a causa pode ser explicada pelos traumas da personagem. Para tal fim, dois aspectos podem ser revogados:
1. Ter uma infância oprimida pelo irmão mais velho e pela dedicação desmedida da mãe por esse filho, fato que pode ter desencadeado o desejo de repetir o sentimento de opressão, ainda que em situação diversa;
2. Estar agindo contra a ordem imposta pelas regras familiares e sociais; assim, como estratégia de fuga, julga-se “má”, portanto merecedora de punição, sem negar o caráter prazeroso da ocasião.
Ainda que não esteja evidente o caráter de perversão no caso analisado, pela ausência de maus tratos físicos, há uma satisfação causada pela sujeição – a narradora se submete a uma sessão de masoquismo e o amante, por seu turno, esboça na sua pulsão sexual, um expressivo sadismo. Ambas as atitudes, a ativa e a passiva, resultam na possibilidade de uma estratégia de fuga – a moça para não se entregar à emoção, aos sentimentos e o rapaz para não admitir a paixão que o domina e o sufoca.
Fecho os olhos para o prazer intenso. (...) Ele me chama de puta, de nojenta, diz que sou seu único amor, somente isso, e é isso que deve dizer e é isso o que se diz quando não se controlam as palavras, quando se deixa que o corpo faça, que procure e encontre e possua o que deseja. (p.48)
O erotismo é tema de vasta discussão para estudiosos das diversas áreas: biologia, literatura, religião, psicologia, etc. Bataille(1987) destaca que a violência se relaciona ao erotismo na própria distensão dos órgãos genitais, ao passar do repouso para a excitação, fato que caracteriza desequilíbrio orgânico. A agressividade, característica peculiar da algolagnia, está intimamente relacionada à pulsão sexual, sendo um aspecto inerente à libido. Tal relação entre libido e agressividade constitui-se resíduo de desejos canibalísticos. À dor está inerente a possibilidade de uma sensação prazerosa, segundo postulados de Freud.
Eu gostaria de comer os seios de Hélène Lagonelle como são comidos os meus no quarto da cidade chinesa aonde vou todas as noites aprofundar-me no conhecimento de Deus. Ser devorada por aqueles seios maravilhosos que são os dela. (p.81)
As forças indicativas da personalidade da narradora, com o passar do tempo, até permitiriam alguns momentos de maior aproximação com o amante, todavia os cuidados dele conquistaram tão somente um sentimento classificado por ela como filial: “Assim me transformei em sua filha. Ele havia se tornado outra coisa também para mim”.
Às vezes dizia que tinha vontade de me acariciar porque estava certo de que eu queria e porque desejava ver-me no momento do prazer. Ele o fazia e me olhava e me chamava como se chama uma filha. (p.120)
O termo Complexo de Electra foi introduzido na psicanálise por Yung e corresponde ao apego erótico da filha para com o pai. Não obtendo emancipação, a menina poderá sofrer, futuramente, conflitos capazes de gerar perturbações neuróticas. No texto, pode-se detectar que advém do interior da narradora a percepção dos gestos do amante como sendo de natureza paternal. Dos seus desejos adolescentes, podem emergir abstrações que correspondam às suas expectativas. Aspectos inerentes ao Complexo de Electra, no entanto, são evidenciados: ele é, consideravelmente, mais velho, e goza de posição social elevada, podendo oferecer-lhe certa proteção, mais que financeira, além de passar uma sensação de segurança. Adentrar mais a questão, requereria mais informações acerca do relacionamento da filha com o pai, o que não é fornecido nem pelas palavras da mãe, indiretamente; nem pela filha, diretamente, uma vez que ficara órfã de pai, precocemente.
Certo é que o dinheiro do amante beneficiava toda a família da narradora; embora tendo consciência da transgressão cometida pela filha, a mãe deliberava em favor daqueles encontros rentáveis, autorizando o retorno da escola mais tarde que o horário habitual, diante das supervisoras do pensionato.
Saíam, em família para jantar nos grandes restaurantes chineses, saboreavam os exorbitantes preços dos pratos servidos e despediam-se do chinês com o silêncio: “Nunca um muito obrigado pelo bom jantar, nem boa-noite”.
É, também, com o silêncio que o chinês se despediu da jovem. Permaneceu no porto da embarcação isolado, dentro da limusine preta. Ela partira para a França. “Não falava dessa dor, jamais disse uma palavra”. Por diversas vezes as lágrimas do rapaz banhavam a cama dos amantes. Apaixonado pela adolescente e fragilizado diante das proibições do pai, chorava e a amava:
O homem de Cholen sabe que a decisão do pai e da menina são as mesmas e que ambas são inapeláveis. Aos poucos, começa a compreender que a viagem que vai levá-la para longe é a grande oportunidade que têm na vida. Que ela não é o tipo de mulher talhada para o casamento. (p.107)
Ele começava a tomar consciência da efemeridade daquele relacionamento díspar diante das injunções sociais. Não obstante à idade que não lhe permitia os abusos da adolescência, demonstrava-se um tanto perdido perdido em meio às bifurcações da vida. Sua insegurança instalava-se como uma barreira àquela conquista e como o alvo certeiro do pai para exercer o domínio acerca do seu futuro. O universo da moça, embora mais jovem, era de uma projeção além do que ele poderia alcançar. Ela não demonstrava inclinação para as convenções estabelecidas, queria ser diferente. A mãe ambicionava-lhe um curso de licenciatura em matemática, mas ela se contrapunha: “o que eu quero é escrever”. Quanto à escolha profissional, não admitia intervenções. Ao contrário do chinês, era de sentimentos volúveis, mas de firmes atitudes. Talvez a atenção escorregadia da mãe e os desmandos do irmão mais velho, tenham-lhe sugado alguns referenciais fixos.
Vestindo-se de forma exótica, carregando um chapéu masculino de feltro, com roupas de “prostituta infantil”, dirigia-se, diariamente ao Liceu. Depois do encontro erótico no apartamento do chinês, retornava ao pensionato, onde revia a amiga, Hélène Lagonelle, que chegara já no meio do período letivo. Morena, filha de um funcionário dos postos. Dotada de um corpo exuberante, segundo descrições da narradora, tornou-se uma imagem atrativa aos seus olhos: “Sinto-me extenuada de desejo por Hélène Lagonelle”. Oscilando entre o prazer proporcionado pelo chinês e os encantos de Hélène, que costumava andar nua pelo quarto, a narradora se depara com uma outra face das suas descobertas sexuais: o homoerotismo.
São diversas as teorias que buscam as causas da inversão sexual, todavia um diagnóstico acertado, ainda, não se configura no âmago dos estudos voltados para o comportamento humano. Freud distingue três tipos de inversão sexual:
a) inversão absoluta: o invertido tem como objeto sexual apenas seres do mesmo sexo;
b) inversão anfígena: o invertido tem como objeto sexual seres que pertencem tanto ao mesmo sexo quanto ao outro (hermafroditas sexuais);
c) inversão ocasional: tornando-se inacessível o objeto sexual normal, o invertido encontra satisfação no ato sexual com pessoas do mesmo sexo.
Em alguns casos de inversão, os indivíduos investigados por Freud registraram lembranças longínquas, até onde fosse possível a memória alcançar; em outros casos, só se faziam notar aspectos referentes à inversão em determinados momentos próximos da puberdade. Os casos de inversão variam no que tange à temporariedade, pois alguns são conservados por toda a vida; outros são temporariamente suspensos; alguns podem constituir-se, ainda, em um episódio a caminho do desenvolvimento normal, bem como pode se fazer notar pela primeira vez, somente, após um longo período de atividade sexual normal, segundo conclusões de estudos psicanalíticos.
Convém observar que em nenhum ser humano são ausentes as marcas do sexo oposto, esses vestígios assinalam uma predisposição à bissexualidade; todavia, no curso do desenvolvimento biológico, alguns membros se atrofiam, possibilitando a monossexualidade. Ao contrário, haveria o hermafroditismo, que se caracteriza tanto pelo desenvolvimento dos dois tipos de aparelho sexual, como também pela coexistência desses órgãos atrofiados, característica dos casos mais recorrentes.
Anatomicamente, em todo indivíduo coexistem elementos masculinos e femininos; com efeito, nos seres heterossexuais, uns se desenvolveram de modo superior aos outros. Segundo a psicanálise, a conduta sexual definitiva só ocorre após a puberdade e resulta de inúmeros fatores físicos e mentais ainda não devidamente estudados, esses fatores podem chegar a uma intensidade desmedida, atraindo o resultado final para a “normalidade” ou não. Assim, inexistindo uma característica universal da inversão, a psicanálise não apresenta conclusões acerca da sua origem. Freud observa que, dentre os elementos que exercem influências acidentais sobre o objeto de desejo do indivíduo, destacam-se a frustração (intimidação sexual precoce) e o papel exercido pelos pais. A ausência do pai durante a infância (no caso dos seres masculinos) pode vir a favorecer a inversão.
S. Ferenczi(1914), psicanalista húngaro, estabelece uma distinção entre dois tipos de homoeróticos: os homoeróticos quanto ao sujeito (sentem-se como um ser do sexo oposto e se comportam como tal) e os homoeróticos quanto ao objeto (são, aparentemente, considerados normais, apenas inverteram o objeto de desejo). Estes são concebidos como intermediários sexuais e aqueles como neuróticos obsessivos. Apenas nos casos dos homoeróticos quanto ao objeto, poder-se-ia proceder ao tratamento através de terapia.
Tais conjecturas da psicanálise podem auxiliar no entendimento da postura da narradora-personagem, ao declarar-se atraída pela colega de pensionato, Hélène Lagonelle.
Em nem um outro momento posterior, a narradora confessa a reincidência de desejo semelhante. Talvez a atração tenha durado enquanto durara o seu chapéu masculino de feltro... O objeto invertido fora único. Portanto, em virtude da peculiaridade do fato, pode-se concluir, observando as investigações psicanalíticas, que houve um caso de inversão anfígena temporária. Ademais, partindo do pressuposto freudiano de que as primeiras moções depois da puberdade são extraviadas sem danos permanentes, é provável, diante dos acontecimentos narrados, que a atração da narradora por uma pessoa do mesmo sexo reflita não mais que uma atividade enérgica desprovida de compulsividade patológica. Sentia-se tão à vontade diante dos seus impulsos, que natural e abertamente, revelou seu desejo íntimo e voraz, não expondo sinais de culpa ou receio em suas palavras. É de modo, igualmente espontâneo, que revela o anseio de entregar Hélène nos braços do amante chinês.
Quero levar comigo Hélène Lagonelle para lá, onde todas as noites, com os olhos fechados, me é dado o prazer que me faz gritar. (...) para que ele o fizesse nela. Tudo na minha frente, fazendo o que eu mandasse (...) Seria por meio do corpo de Hélène Lagonelle que o prazer chegaria até o meu, só assim definitivo. (p.82)
Há uma forte inclinação, por parte da narradora, em aproximar seus objetos de desejo – Hélène e o chinês – que configuram, no momento, o alvo da sua pulsão sexual: “Vejo-a como sendo da mesma carne que o homem de Cholen”. Em descoberta dos impulsos sexuais, aos quinze anos, ela dá vazão às manifestações mais íntimas e mais ousadas das suas excitações libidinosas.
De acordo com os postulados da psicanálise, embora o indivíduo evite as manifestações incestuosas a que todo ser humano se submete pela ocasião da relação afetiva com os pais durante a infância, jamais poderá livrar-se inteiramente da sua influência. Envolver-se com rapazes mais velhos, que transmitam certo protecionismo ou revelem aspecto de autoridade, seria um exemplo desse tipo de influência nas moças. A afeição pelos pais é a recordação da infância que, recobrada na puberdade, encaminha mais diretamente à escolha do objeto de desejo.
Na obra, o relacionamento entre mãe e filha é marcado por uma inexorável dicotomia sentimental – amor e desamor. A concepção bipartida da figura materna transformou-se em um reduto de instabilidade que aplaca a conduta sentimental da narradora face aos seus mais amplos ou restritos relacionamentos. A exceção, dentro da família, é feita ao irmão mais novo, que se torna o receptáculo do córrego que emana das suas mais viscerais sentimentalidades. A ele, toda a admiração. Fronteiras não se levantam frente a esse fascínio. Destarte; é unicamente por ele que se constitucionaliza a convivência familiar. A narradora, projetada sob a profundidade do próprio sentimento, desconhece a dimensão das possibilidades que se estendem dentro do elo estabelecido entre si e o irmão.
Sinto-me enfraquecida pela beleza do corpo de Hélène reclinado ao lado do meu. É um corpo sublime (...) Até o corpo de pequeno cule do meu irmão mais novo desaparece diante de tanto esplendor. (p.79)
Há, na declaração feita, uma manifestação evidente de fixação incestuosa da libido, firmando um triângulo, cuja atração sedutora, interliga-se mutuamente através do fluxo memorialístico da narrativa. A narradora permite que recordações margeadas por um certo vestígio onírico desnudem as emoções que marcaram suas primeiras descobertas sexuais. O amante, Hélène e o irmão mais novo surgem interligados na travessia da sua infância para a adolescência. A cadeia formada por eles adquire nuances relativas à força particular de cada um sobre os elementos que lhe são sedutores, segundo aspirações mais íntimas: a imagem do corpo do irmão mais novo sucumbe diante do esplendoroso corpo de Hélène; essa, por sua vez, não deverá saciar diretamente ao desejo da narradora, mas fazê-lo através de um contato corporal com o amante, que proporcionando prazer a Hélene, também o faria a ela própria, definitivamente. O amante, possuidor das condições cabais para complementar o círculo do desejo objetal da narradora, representa o acesso ao auge do prazer. Assim, torna-se mais compreensível o título dado à obra. Ele, o amante, pela recordação, pelo amor, pelo erotismo, constitui-se em reminiscências infindáveis, uma vez transformado em arte.
Duras consegue através do refinamento estilístico, retratar por meio não só de O Amante, mas dos seus romances, a dimensão a que chegou tal gênero. Demonstra a expressividade do noveau roman no progresso literário. Conjugando dores e conquistas, fez das palavras uma exigência para a versão da sensibilidade em arte genuína. Sua peculiaridade resulta dessa relação, cabendo ao leitor, na rede semiológica do texto, dar aos componentes textuais convenções e horizontes igualmente aprofundados.
REFERÊNCIAS
BRAIT, Beth. A Personagem. São Paulo: Ática, Série Princípios, 1993.
CANDIDO, Antonio; ROSENFELD, Anatol; PRADO, Décio de Almeida e GOMES, Paulo Emílio Sales. A Personagem de Ficção. São Paulo: Editora Perspectiva, 2002.
CLARK, Sylvia Teresa Pereira. Do Papel da Voz na Estrutura de O Amante, de Marguerite Duras. Pontifícia Universidade Católica do rio Grande do Sul, 2002.
DURAS, Marguerite. O Amante. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, Coleção: Mestres da Literatura Contemporânea.
FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Traduzido por Paulo Dias Corrêa. Rio de Janeiro: Imago, 2002.
JESUS, Joselita Isabel. O Erotismo no Poesia de Florbela Espanca: o processo de expressão do desejo em Charneca em Flor. Dissertação de Mestrado. Porto Alegre: PUCRS, 2000.
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