Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
PALAVRA ABERTA
Gelda Ribeiro
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ENTREVISTA COM ASSIS BRASIL – O SUPLEMENTO DOMINICAL DO JORNAL DO BRASIL E A CRÍTICA LITERÁRIA BRASILEIRA

ENTREVISTA COM ASSIS BRASIL – O SUPLEMENTO DOMINICAL DO JORNAL DO BRASIL E A CRÍTICA LITERÁRIA BRASILEIRA

ENTREVISTA COM ASSIS BRASIL – O SUPLEMENTO DOMINICAL DO JORNAL DO BRASIL E A CRÍTICA LITERÁRIA BRASILEIRA

O Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (SDJB), que circulou entre junho de 1956 e dezembro de 1961, na imprensa carioca, constituiu um espaço privilegiado para o jornalismo cultural brasileiro. O trabalho foi ganhando notoriedade e terminou por se tornar uma referência na história da cultura brasileira. As manifestações literárias ganharam alto índice de vitalidade ao longo de suas páginas, contando com várias colunas, ou mesmo, com páginas inteiras a elas dedicadas. Quer emitindo posicionamentos críticos – confirmando ou negando valores literários – quer divulgando novas produções, os críticos que ali escreviam, audaciosamente, expuseram uma versão consistente de um determinado momento da história literária. Conforme Assis Brasil, um dos críticos atuantes no SDJB, este revelou uma nova mentalidade acerca da produção literária, levando ao público textos críticos com exigências teórico-científicas, bem como publicou novas poesias e prosas cujas implicações resultariam naquilo que denominou de a Nova literatura.
Abaixo, segue uma entrevista que fizemos com Assis Brasil acerca do SDJB e da sua experiência enquanto crítico atuante em tal Suplemento.


Francigelda Ribeiro – Quando e de que modo ocorreu o seu ingresso como colaborador do SDJB?
Assis Brasil – Meu primeiro texto foi divulgado em 16/09/1956. Não faz muito, o ex-diretor do Suplemento, o poeta Reynaldo Jardim, em entrevista a um jornal, contou como alguns colaboradores tinham aparecido no SDJB. “O Assis Brasil, não sei como foi parar lá”, disse o poeta. De fato, ele tinha se esquecido, pois a maioria tinha sido levada por alguém... o amigo do amigo, o conhecido do amigo. Lembro que o Mário Faustino foi levado por Mário Pedrosa e, Faustino, por sua vez, levou o grupo de poetas paulistas, que já estavam preparando o movimento de poesia concreta.
Eu fui sozinho, como sempre fiz, atrás de algum editor quando queria publicar um livro. Um dia, por volta de agosto de 1956, eu estava almoçando no Restaurante dos Estudantes, no Calabouço, perto do Aeroporto Santos Dumont, quando um colega me mostrou um número do SDJB, que ainda não era conhecido por esta sigla. Doze páginas, uma feminina (nascedouro do Suplemento), poesias, ensaios, destaque para um conto de Willian Saroyan, autor de minha preferência, norte-americano, vivo, escritor de vanguarda, já extrapolando o Modernismo.

FR – Seu texto versava sobre o quê?
AB – Ernest Hemingway tinha publicado o romance O velho e o mar, que lhe daria, no conjunto da obra, o Prêmio Nobel de Literatura. Eu já tinha lido o livro e me impressionei; não sabia que havia lido apenas uma síntese do romance, lançado pela Civilização Brasileira – ainda hoje essa edição anda por aí, enganando o leitor brasileiro. Escrevi um artigo sobre o romance (para mim, uma novela) e decidi levá-lo para o Reynaldo Jardim, diretor do SDJB. Na verdade, eu não tinha perdido muito do livro, apenas uma longa introdução sobre o Golfo Streem e sobre a pescaria na região. Descobri isso ao confrontar o texto brasileiro com uma edição em poket norte-americana. A editora do Ênio Silveira – pertencente a uma tal de “esquerda festiva” – nunca se manifestou sobre o assunto.

FR – E a continuidade de sua produção no SDJB?
AB – Reynaldo Jardim publicara o meu trabalho sem me conhecer! Tenho que conhecer o homem pessoalmente, pensei. No dia seguinte, uma segunda-feira, passei numa livraria – como sempre fazia – e descobri o novo livro de João Guimarães Rosa, que acabara de sair, Grande sertão: veredas. Comprei o livro e o levei ao meu “regaço com fervor”, pois já sentia que se tratava de uma jóia...
Li o romance. Pretensão minha, enquanto alguns já estavam falando das dificuldades do livro? O fato é que eu já vinha da leitura de muitos romances de Willian Faulkner. Resolvi então escrever três artigos de crítica sobre o romance e levá-los, agora pessoalmente ao Reynaldo Jardim. Enquanto isso, alguns comentários obtusos começavam a sair sobre o romance. Lembro-me que Adonias Filho encimou um artigo sobre o Grande sertão com o titulo: “Um equívoco literário”.
Então fui ao Reynaldo Jardim com os três artigos debaixo do braço. Subi ao quinto andar, ele estava lá numa salinha de dois metros por dois, careca e visionário, míope, para que a sua visão não contaminasse a sua bela e sensível cabeça pensante... Eu sou o Assis Brasil. Ele me disse: publiquei o seu artigo porque gostei dele. Disse-lhe: trouxe agora uma série de três artigos sobre o Grande sertão: veredas. Ótimo, estão esculhambando o homem, ele falou. E você, Assis? Estou elogiando, mostrando a sua inventividade lingüística, que não é artificial, como dizem. Reynaldo sabia valorizar o trabalho intelectual. Pois bem, eu ainda estava esperando o elevador, quando de repente ele saiu da salinha, foi ao meu encontro e disse: Quando voltar, passe no caixa para receber a colaboração.
A partir de 29 de setembro de 1957, passei a assinar uma página intitulada Ficção nacional, com divulgação e crítica de obras. Criei a sessão O contista novo, onde publiquei José Lozeiro, J.J. Veiga, Maura Lopes Cansado, dentre muitos outros.

FR – A que aspecto você atribui a projeção alcançada pelo SDJB?
AB – O SDJB, além de ter divulgado a obra de romancistas, contistas e poetas sob um novo enfoque analítico, a crítica literária também teve o seu espaço, dentro de uma nova concepção estética. Final da década de 1950 e década seguinte, quando o modernismo de 1922 de 1930 e 1945 já tinha cumprido a sua destinação de renovação da literatura brasileira. Sendo assim, está claro que o Suplemento foi de grande importância para uma perspectiva nova de toda a literatura brasileira.

FR – Em que aspecto essa renovação crítica divulgada no SDJB se diferenciou daquela anteriormente praticada na imprensa brasileira?
AB – A crítica em voga era a chamada crítica de rodapé, foi uma tradição na área jornalística brasileira. Grandes nomes passaram por ela, sendo que a principal colaboração foi a de Afrânio Coutinho que tinha estado nos Estados Unidos e tinha trazido de lá a teoria da Nova Crítica, já desenvolvida na Alemanha e França. Para mostrar a novidade da crítica literária, Afrânio Coutinho usou exatamente o rodapé de jornal para a sua divulgação. A Nova Crítica, por ele defendida, ultrapassou o âmbito das Universidades, setor mais afim com seus critérios científicos. Diferença entre o Rodapé de jornal e da Nova crítica? A primeira remete ao chamado Impressionismo crítico, onde o que valia era mais a opinião pessoal. A segunda reflete uma postura mais objetiva, à procura de situar metodologicamente os valores estéticos, a partir mesmo da linguagem e suas nuances criativas, bem como de situar a inventividade do autor e não mais relacionar biografia e texto.
Bem, retomando a pergunta, o destaque em relação à crítica literária nova do SDJB foi que a atividade crítica estava relacionada com a atividade literária. Todos vivíamos essa dualidade. Por exemplo, os poetas e também ensaístas Haroldo de Campos e Augusto de Campos, ao lado de seus poemas, desenvolviam as teorias críticas do momento, numa tentativa, positiva de justificar, no caso, a poesia concreta.

FR – Além dessa dualidade, houve outros pontos comuns na condução do SDJB?
AB – Havia um denominador comum em relação à crítica no SDJB. Nada mais de análise aleatória ou impressionista. Todos nós, já imbuídos da concepção de que a crítica tinha mudado, primávamos pela objetividade, cada qual poderia fazer sua abordagem crítica, não partíamos necessariamente de critérios ou teorias literárias comuns, havia uma coerência, uma unidade em relação ao pensamento básico do Suplemento. Criamos, inclusive, um pseudônimo coletivo chamado Teresa Trota, que foi utilizado por todos. Por falar em pseudônimo, vale ressaltar que Rute Silver era o pseudônimo de Mary Ventura. Como jornalista, ela entrevistou vários escritores, de um modo geral sobre o próprio Suplemento, principalmente na época em que o SDJB completou um ano de existência; eu também fiz muitas entrevistas naquela época. O SDJB não foi apenas um suplemento literário, foi um órgão cultural, interessou-se por todos os setores do conhecimento: teatro, música, dança, artes plásticas, arquitetura... enfim, marcou uma nova mentalidade em relação às artes em geral.

 

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