Dilson Lages Monteiro Sábado, 11 de fevereiro de 2012
OS SEGREDOS DA FICÇÃO
Raimundo Carrero
Tamanho da letra A +A

Andamento segue reto por linhas tortas

Raimundo Carrero

Na coluna anterior começamos a mostrar como uma narrativa é construída cena após cena a princípio de acordo com o narrador e, em seguida, conforme a pulsação do personagem, no caso Inácio Ramos, do conto O machete, de Machado de Assis, lento, intimista, reflexivo. Em seguida falamos de Carlota, mais rápida, mais vibrante. É preciso ter o conto por perto para leitura e releitura. Um escritor não lê como o leitor comum: examina, questiona, pergunta.

Estamos aqui criando as bases da construção narrativa. É um estudo. Nada mais. Serve para criar a absoluta consciência narrativa. Não é um modelo, nem pode ser. Lembre-se dos artistas plásticos que até imitam os mestres. Tratamos de um exercício. Exercício para o salto. Para que você conheça a intimidade da história. Agora tratamos dos personagens principais - Inácio e Carlota; e, em seguida, do personagem ilustrativo - o pai de Inácio.

O narrador onisciente, então, recorre à técnica do personagem ilustrativo, no caso, o pai, que dá esse andamento lento, ou devagar, à história, mesmo que não pareça no primeiro momento. Verifique com atenção: a frase é pequena, breve, e o ponto cria uma distância proposital entre ela e a segunda. Há um corte, uma distância, como se, numa composição musical, a última nota se distendesse, deixando apenas o som pairar na narrativa. Assim:

Inácio Ramos contava // apenas dez anos // quando manifestou // decidida vocação musical //////

Nesse andamento, e com uma quebra narrativa, surge a segunda frase:

Seu pai, músico da imperial capela, ensinou-lhe os primeiros rudimentos de sua arte, de envolta com os da gramática, de que pouco sabia.

Entre a primeira e a segunda frases parece existir uma narrativa linear. Não é verdade. O narrador, com profunda leveza, afastou-se de Inácio, para introduzir o pai. Mais uma vez: quebra narrativa, proposital. Caso ele escrevesse: "(Ele) Estudou com o pai, músico da imperial capela", haveria, aí, um texto linear. A retirada da expressão "ele estudou com o pai" cava um abismo, interrompe a linearidade, e faz surgir um personagem, que será apenas ilustrativo.

A terceira frase, então, ainda mais lenta, provoca um movimento de absoluta distensão narrativa, compondo a pulsação do personagem:

Era um pobre artista cujo único mérito estava na voz de tenor e na arte com que executava a música sacra.

Observaram agora uma novidade? Machado de Assis retirou as vírgulas tradicionais, de forma que a frase manteve a lentidão rítmica e visual, e a limpeza visual fez a narrativa ganhar maior distensão, como uma espécie de eco que vai se movimentando no interior da frase.

Em geral, ela seria escrita assim:

Era um pobre artista, cujo único mérito estava na voz de tenor, e na arte com que executava a música sacra.

Ocorre que o escritor é extremamente hábil e não poderia, com o uso da vírgula, chamar a atenção para a ironia da frase: como pode ser um único mérito usar bem a voz e a arte? É pouco um artista ter o mérito de dominar a sua arte? Ou ele não é tão assim, porque era um "pobre artista"? Pobre artista em que sentido: por que não tinha recursos artísticos ou por que não tinha recursos financeiros? Não se esqueçam que a ironia e a ambigüidade são duas das melhores qualidades de Machado de Assis. Assim como a simulação. Então se conclui que ele retira as vírgulas, de um lado, para possibilitar a distensão do som na frase e, de outra maneira, para evitar que o leitor perceba o jogo de ironia e ambigüidade já no primeiro instante.

Na terceira frase:

Inácio, conseguintemente, aprendeu melhor a música do que a língua, e aos quinze anos sabia mais dos bemóis do que dos grandes mestres.

A narrativa diminui a intensidade, sobretudo com o uso do advérbio: "conseguintemente". Parece que houve rapidez, mas a lenta reflexão nos coloca diante de nova ambigüidade: como podia aprender melhor a música, "conseguintemente", se a única qualidade do pai eram a voz e arte? Vejam bem: a única vantagem de um pobre músico. Nesse ir e vir de informações do personagem ilustrativo percebe-se como o andamento lento sofreu nova retração, e ficou mais lento. A narrativa é montada e remontada, sem que ganhe velocidade e leveza.

Na próxima aula continuaremos a refletir sobre a criação de Machado de Assis, através da estrutura das cenas.

Quarta frase:

Ainda assim sabia quanto bastava para ler a história da música e dos grandes mestres.

Frase limpa, que permite avançar no andamento, desaguando numa informação elíptica:

A leitura seduziu-o ainda mais; atirou-se o rapaz com todas as forças da alma à arte do seu coração, e ficou dentro de pouco tempo um rabequista de primeira categoria.

Aí, sim, a frase começa a ganhar movimento, sobretudo por causa do verbo altissonante "seduzir", até o ponto e vírgula, tornando-me mais veloz nos movimentos finais, o que faz retornar ao mesmo movimento do princípio. Mas observe que o verbo altissonante relaciona-se com a leitura, e não com o pai: "A leitura seduziu-o ainda mais". Por último, a informação sobre a rabeca aparece rapidamente, sem nenhuma informação ou explicação para o leitor. Num autor convencional haveria, pelo menos, uma frase para introduzir a rabeca. Esta velocidade prepara o andamento mais rápido do próximo parágrafo.

Tudo isso para demonstrar de que maneira técnica o narrador de O machete procura encontrar os movimentos desejados para colocar o leitor no ritmo do texto. De forma que, agora, podemos fazer um exercício de cena interna com tônica psicológica. Sem o personagem ilustrativo. O que interessa é o exercício de cena externa.

Vamos fazer, em conjunto, uma cena interna, passo a passo. Neste caso, a cena interna com tônica psicológica pede um andamento lento, mesmo quando a narrativa avança. Mas escreva, neste momento, considerando suas idéias. Depois reescreva e reescreva. E escreva e reescreva. Estamos fazendo um exercício. Com cautela.

Exercício de cena interna

a) Argumento
Tome nota: Numa agência bancária, cinco pessoas trabalham numa sala. Quatro homens e uma mulher. A mulher é cortejada pelo chefe, mas decide não aceitar uma relação. Daí em diante o chefe passa a colocar em dúvidas suas qualidades funcionais. Ou seja: coloca defeito em tudo o que ela faz.

b) Início
Comece o exercício por uma cena interna com tônica psicológica, mostrando a formação da moça. Competente na escola, nas relações sociais, na família. Então faça o seguinte com a primeira frase do exercício:

Enquanto caminhava para a escola, todos os dias, Adélia projetava o futuro.

Encontre aí, a sua própria frase:

Enquanto caminhava para a escola, todos os dias, Adélia...

Ou assim:

Enquanto caminhava para a escola,........................, Adélia projetava.......................

Compartilhar em redes sociais

Comentários (1)

Sou uma estudante do Curso de Letras,amo ler e escrever,mas acho a matéria de literatura um pouco maçante demais.Só não é pior por que o meu professor faz com que nosso interesse aflore.

manuela
postado:
23-03-2011 02:13:14

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

18.05.2011 - Segredos que conquistam estudiosos

12.04.2011 - Sobre o estilo na obra de ficção

04.02.2011 - Mário de Andrade - criador de oficinas?

28.08.2010 - Sem personagem, a digressão se diverte

08.07.2010 - O princípio e o fim são conceitos vagos

20.05.2010 - Na dança das cenas, o psicológico se apresenta

08.04.2010 - Tem barulho ai? O cenário resolva

28.02.2010 - Andamento segue reto por linhas tortas

04.01.2010 - A narrativa é construída de cena em cena

12.12.2009 - Curvas e retas no caminho da ficção

25.11.2009 - Com acúcar e com afeto, o doce caminho das digressões

02.11.2009 - Supresa, o leitor chegou para o jantar

19.10.2009 - Machado sabia bater a carteira do leitor

09.09.2009 - Você coloca qualquer nome no seu filho?

03.07.2009 - Ponto de vista não é ciúme de você

Ver mais

Dicionário de Escritores Entretextos Editora On-line
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos

Twitter

Carregando...
Últimas matérias

10.02.2012 - ÓCIO E TRABALHO

..............................................................................................

10.02.2012 - Conceitos da Comunicação de Massa (21)

A Teoria da Cauda Longa, de Chris Anderson

10.02.2012 - Planeta-Casa de América anuncia seus finalistas

Planeta-Casa de América anuncia seus finalistas

10.02.2012 - Traduções de Poe

Quando organizei minha antologia de 2010, Contos Obscuros de Edgar Allan Poe, minha idéia era publicar em português alguns contos que, apesar de muito bons, eram menos conhecidos

10.02.2012 - Menos ais, mais vivas e satisfações, leitor!

Os hedonistas geralmente são alvos da crítica pelo apetite ao prazer

10.02.2012 - O contador de histórias

Nunca se soube se ele sabia ler e escrever.

10.02.2012 - Cidades Maranhenses recebem novas bibliotecas

Cidades Maranhenses recebem novas bibliotecas

10.02.2012 - Tentando entender o Brasil e o mundo

Mais um componente desfavorável desponta

10.02.2012 - A morte de Maurice Girodias, em 1990

O dono da famosa editora Olympia Press, de Paris, sofreu aos 71 anos um enfarte quando estava sendo entrevistado, ao vivo, numa emissora de rádio francesa

10.02.2012 - Lucilene Gomes Lima: FICÇÕES DO CICLO DA BORRACHA NO AMAZONAS

Estudo comparativo dos romances A selva, Beiradão e O amante das amazonas

10.02.2012 - cronicasdesabado - nosso noticiário etc.

cronicasdesabado - nosso noticiário etc.

09.02.2012 - Antônio de Pádua é eleito titular da Cadeira 48 da ALRESC

Antônio de Pádua é eleito titular da Cadeira 48 da ALRESC

09.02.2012 - Jennifer Egan na Flip

Jennifer Egan na Flip

09.02.2012 - Lucilene Gomes Lima: FICÇÕES DO CICLO DA BORRACHA NO AMAZONAS

Escritores brasileiros abordaram amplamente os ciclos econômicos através de sua prosa.

08.02.2012 - O amante das amazonas: o ciclo sob o olhar de um analista-autor

Dissertação de mestrado: Estudo comparativo dos romances “A selva” (FERREIRA DE CASTRO), “Beiradão” (ÁLVARO MAIA) e “O amante das amazonas” (ROGEL SAMUEL),

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Loja 21 (segundo piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br