Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
OS SEGREDOS DA FICÇÃO - RAIMUNDO CARRERO
Raimundo Carrero
Tamanho da letra A +A

Sem personagem, a digressão se diverte

[Raimundo Carrero]

Isso quer dizer: ação mais ação mais ação. Até porque não se deve esquecer a fórmula razoável da cena: personagem mais ação mais seqüência, sugerida, ainda que, remotamente, por Aristóteles no livro famoso e definitivo: A poética. E quando a cena vem marcada de algum mistério, aí é o máximo. É o que dizem, não é? Leitor que se preze não quer saber de cenários, digressões, comentários, mesmo quando são seduzidos por eles, e nem sabem.

Exemplo marcante de cena sobre cena está no começo do conto As irmãs, de Joyce, por exemplo, com todo o envolvimento misterioso e rápido. Prestem a atenção:

Desta vez não havia esperança para ele: fora o terceiro ataque. Noite após noite, ao passar diante da casa (era tempo de férias), eu observava o retângulo iluminado da janela e, todas as noites, encontrava-o com a mesma luz pálida e uniforme. Se estivesse morto, pensava, eu veria o reflexo das velas nas cortinas escuras, pois sabia que duas velas devem ser colocadas à cabeceira de um defunto. Dissera-me várias vezes "não ficarei muito tempo neste mundo" e eu julgara vãs suas palavras. Sabia agora que eram verdadeiras.

É claro que estamos falando de Joyce, o genial, mas a rapidez das cenas - somadas ao mistério - não deixa dúvida de que esse é um começo que provoca o leitor e leva-a um longo duelo com o texto pela noite adentro ou, quem sabe, pelo dia adentro, com sol ou com chuva. E é claro também que uma ação provoca, aparentemente, mais entusiasmo do que um cenário - já ouvi dizer que os cenários estão mortos ou desaparecidos, puro engano, ledo engano - ou do que uma digressão - em muitos casos nem é bom falar em digressão.

Bem, pode ser - e sempre coloco a dúvida -, pode ser que seja assim, afinal o homem contemporâneo não tem tempo a perder. Quem acredita nisso colocaria em dúvida a qualidade, por exemplo, do primeiro capítulo de Dom Casmurro, o fabuloso romance de Machado de Assis. Porque se trata, na verdade, de uma digressão - digressão, aliás, que se estenderá por todo o livro - com aparência de cena de ângulo fechado - quando os personagens estão isolados e quando não se pode ver senão eles - na abordagem do poeta inominado ao personagem - Bentinho ou Casmurro - durante uma breve viagem de trem. Finge, o narrador finge. Mas ali não há apenas cena sobre cena e apenas uma digressão para que o narrador justifique o título do livro. Não adianta esperar a continuidade da ação: ela não virá. Além do mais, Machado de Assis adorava cenas de sono e vigília, que se repetirão em muitas das suas obras.

O que ocorre é que os narradores - autorizados pelos autores - costumam dissimular e é isso que os torna grandes. Narrar é o não-narrar. Sempre assim. Dizer é o não-dizer. Contar é o não-contar. Por isso, os leitores são seduzidos com tanta eficiência. Acreditam numa coisa e está acontecendo outra. Tudo isso, no entanto, é para demonstrar como o primeiro parágrafo de A educação sentimental, de Flaubert, é tão eficiente, mesmo parecendo um cenário humano quando na verdade é uma digressão. E os leitores nem gostam de digressão, não é? Ali, Flaubert consegue fazer uma digressão com ares de cenário humano, na expectativa de uma ação: afinal, o navio está prestes a sair e as pessoas estão desaparecidas? Desaparecidas, como? Tudo porque o narrador esconde os personagens mesmo com eles bem presentes. Frédéric está no leme - logo no leme -e ninguém ver. Frédéric o protagonista do romance. Nem aparecem Jacques Arnoux nem a Senhora Arnoux, por quem Frédéric arderá de paixão. Uma louca paixão de adolescente. Será que tem paixão de adolescente que não seja louca? Pudera.

Como isso acontece? Percebam:

No dia 15 de setembro de 1840, o Ville-de-Montereau, pronto a largar, soltava os seus grossos rolos de fumo junto do cais Saint-Bernard. Gente chegava esbaforida; barricas, cordas, cestos de roupa dificultavam a circulação; os marujos não respondiam a ninguém; as pessoas atropelavam-se; entre os dois cilindros eram içadas encomendas, e a vozeria perdia-se no silvo do vapor das máquinas que, escapando por entre as chapas de zinco, envolvia a cena numa nuvem esbranquiçada, enquanto a sineta , à proa, tocava sem parar.

Justamente isto: aí não há cena - apesar da citação do narrador - porque não há personagem importante para provocar a seqüência e a ação, e é cenário humano porque há pessoas se movendo mas sem objetividade narrativa. E como seria uma digressão? Porque o narrador finge apresentar um movimento objetivo quando é subjetivo: não tem efeito algum sobre a história, embora a história transcorra no navio. De propósito, ele retirou Frédéric que está no leme, mas não pode aparecer agora. Deve estar escondido para surpreender o leitor um pouco adiante. Não é assim?

É técnica pura. Frédéric, que deveria estar no cenário para transformá-lo em cena, está no leme, logo no leme, e o narrador esconde:

Um jovem de dezoito anos, de cabelos compridos, e que segurava um álbum debaixo do braço, conservava-se imóvel junto do leme.

Ou seja, não é verdade que o romance precisa somente - em muitos casos exclusivamente - de uma cena sobre cena na abertura do livro. O que é preciso mesmo é a sedução do narrador para atrair o leitor tanto em Machado de Assis quanto em Flaubert.

Exercício? Escreva uma cena, um texto de cenas sobre cenas, e depois retire os personagens, de forma que a narrativa se transforme em digressão. Para evitar problemas, use o artifício do cenário humano ou natural. É só um exercício; não precisa se preocupar.

 

 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

09.02.2017 - Literatura é imagem, cena e metáfora

11.01.2017 - Escritor e escrevente

17.07.2016 - O narrador no movimento regionalista

18.05.2011 - Segredos que conquistam estudiosos

12.04.2011 - Sobre o estilo na obra de ficção

04.02.2011 - Mário de Andrade - criador de oficinas?

28.08.2010 - Sem personagem, a digressão se diverte

08.07.2010 - O princípio e o fim são conceitos vagos

20.05.2010 - Na dança das cenas, o psicológico se apresenta

08.04.2010 - Tem barulho ai? O cenário resolva

28.02.2010 - Andamento segue reto por linhas tortas

04.01.2010 - A narrativa é construída de cena em cena

12.12.2009 - Curvas e retas no caminho da ficção

25.11.2009 - Com acúcar e com afeto, o doce caminho das digressões

02.11.2009 - Supresa, o leitor chegou para o jantar

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

19.02.2017 - CASA ABANDONADA

CASA ABANDONADA

18.02.2017 - As vozes narrativas

As vozes narrativas

18.02.2017 - As memórias de Cunha e Silva Filho

Um amigo que tem muitas coisas a contar relata fatos de sua vida.

17.02.2017 - O PIANO, A TARDE

Minha tia Maria José

16.02.2017 - A Filha da Floresta, de Thales Andrade

Assim iniciou a literatura infantil brasileira.

15.02.2017 - ENTREVISTA DE R. SAMUEL A LUIZ ALBERTO MACHADO

Não vi a riqueza de Maurice Samuel

15.02.2017 - CONCEIÇÃO

CONCEIÇÃO

14.02.2017 - Solveig von Schoultz, 1907-1996, Finlândia

Demos-lhe sementes; não muitas,

13.02.2017 - Paru

Filho da estrada e do vento, nunca se soube de onde vi/era, nunca se soube para onde foi.

12.02.2017 - NATUREZA MORTA

Oh, está morto, tudo está congeladamente morto.

11.02.2017 - A Coluna Prestes em Aparecida

O autor narra a passagem da Coluna Prestes na vila a'Aparecida, hoje cidade de Bertolínia, sua terra natal.

11.02.2017 - porta calada

porta calada

10.02.2017 - João Crisóstomo da Rocha Cabral

O autor discorre sobre o jurista e poeta João Cabral e sua obra poética Palimpsestos.

09.02.2017 - UNIVERSOS PARALELOS - CRÔNICA ANTIGA

UNIVERSOS PARALELOS - CRÔNICA ANTIGA

09.02.2017 - Literatura é imagem, cena e metáfora

A literatura brasileira não tem uma grande tradição no tratamento de romances — ou prosa de ficção — metafóricos, sobretudo na questão política, optando, quase sempre pelo documento, a sociologia ou a antropologia e o panfleto.

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br