Dilson Lages Monteiro Domingo, 26 de março de 2017
OS SEGREDOS DA FICÇÃO - RAIMUNDO CARRERO
Raimundo Carrero
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Mário de Andrade - criador de oficinas?

[Raimundo Carrero]

Costuma-se dizer que as oficinas de criação literária nasceram, no Brasil, com Cyro dos Anjos – o festejado autor de “O Amanuense Basílio”, em torno de sessenta, sessenta e um, do século passado, na Universidade de Brasília, então fundada por Darcy Ribeiro, se não me engano, o seu primeiro reitor. É claro, sim, em sala de aula. Está certo. Não se discute. O mineiro Cyro era um estudioso e tanto da arte da ficção.

      Mas me parece – sem contestar, sem brigar – que o criador mesmo das oficinas literárias no Brasil foi e é o mestre Mário de Andrade. Lembrei-me dele enquanto lia a matéria de Fernando Portela, na “Revista da Cultura”, - da Livraria Cultura, deste bandeirante chamado Pedro Herz- sobre este assunto tão polêmico e tão apaixonante. Numa época em que o Correio gastava semanas e semanas para entregar uma carta, o escritor paulista – notável em toda a sua dimensão – se debruçava sobre livros que recebia, também pelo lento Correio, e examinava palavra por palavra.

      Assim aconteceu com Fernando Sabino. A correspondência entre os dois – “Cartas a um jovem escritor”  publicada pela Editora Record, 1981 – é um desses grandes documentos de aprendizagem. De respeito e de determinação. Li ardentemente essas páginas, quase que dormia com elas sob o travesseiro, acordava pela madrugada para relê-las. Me colocava humildemente diante de cada palavra. Alguém estava dizendo como é que se escreve, com a maior generosidade. Discutia cenas, capítulos, situações, indicava leituras, planejava.

      Na primeira carta, por exemplo, Mário diz algo que deve ser reproduzido por todos os aspirantes a escritor, e até por escritores consagrados, e disposto sobre a mesa de trabalho, de preferência na parede à frente: “Se você não fizer coisas maravilhosamente bem feitas como técnica, como estilo, como arte de escrever, como bom gosto espiritual, você será apenas mais um”. Sem pretensão, sem vontade de ultrapassar o lugar comum, sem um grande esforço diário, nada se consegue. A primeira grande aula de Mário, criador de oficinas.



 

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