Dilson Lages Monteiro Sábado, 29 de abril de 2017
OS SEGREDOS DA FICÇÃO - RAIMUNDO CARRERO
Raimundo Carrero
Tamanho da letra A +A

Literatura é imagem, cena e metáfora

Literatura é imagem, cena e metáfora

[Raimundo Carrero]

A literatura brasileira não tem uma grande tradição no tratamento de romances — ou prosa de ficção — metafóricos, sobretudo na questão política, optando, quase sempre pelo documento, a sociologia ou a antropologia e o panfleto, deixando o artesanato de fora, apesar de autores monumentais do porte de Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Osman Lins ou até Machado de Assis no século 19.

Por isso, tornou-se comum tratar das questões da ditadura no panfleto, na denúncia pura ou sistemática, ou naquilo que se convencionou chamar de romance-reportagem e romance-denúncia, jornalismo com jeito de literatura que servia, diretamente, aos objetivos políticos. Numa trilha muito pessoal e particular, surgiu o escritor goiano José J. Veiga (foto), aí pela década de 1960, com seus romances metafóricos, de grande qualidade literária, mas hoje basicamente desconhecido dos leitores.

Sombras de reis barbudos, deste autor é um grande romance metafórico ou simbólico, como foi rotulado na época, embora seja um romance da mais alta qualidade. Conta a história de opressão, pânico e falta de liberdade numa cidadezinha do interior, pela ótica de um jovem e, por isso mesmo, ainda mais opressiva. Na falta de material analítico, a crítica chamou-o também de livro fantástico ou de literatura fantástica, embora a rigor não seja uma coisa nem outra. Sombras de reis barbudos é apenas um romance, e um romance de alta qualidade artística, como de resto são os romances de Kafka.

Quando Kafka diz na Metamorfose que K. acordou transformado num inseto está realizando aquilo que se pode chamar verdadeiramente de obra de arte. Se escrevesse que K. acordou angustiado, humilhado, derrotado, teria feito um bom texto, sem dúvida, mas não passaria de jornalismo ou de ensaio. O ensaio diz as coisas como elas são, num sentido direto e definitivo, mas a literatura inventa, recria, estabelece tensão artística. Transformar o personagem num inseto faz com que ele atinja um grau superior de interpretação, de invenção e provoca, sem, dúvida, um número imenso de interpretações.

Um homem angustiado e humilhado é só um homem angustiado e humilhado, com força literária, sem dúvida. Mas falta-lhe qualidade artística. A qualidade transformadora. Um inseto é, em si mesmo, um inseto abjeto, nojento; portanto, na visão humana, derrotado, asqueroso. Como imagem, e literatura é imagem, transmite a visão caótica e dramática do homem.

Assim também funciona a obra de Clarice Lispector, cuja força superior está nas imagens e nos símbolos. A personagem de A paixão segundo G.H. come e vomita uma barata. Não poderia haver imagem maior para definir o nojo e a rejeição do mundo. Se ela escreve que a personagem vomitava o mundo talvez construísse também um texto muito forte, mas estaria fazendo jornalismo, por mais estranho que pareça.

A literatura se realiza, assim, no plano dos signos e das insígnias. E quando se trata de literatura, é preciso estar atento. Quando escrevi A história de Bernarda Soledade, que marca o início da minha vida literária, queria, com certeza, me engajar no Movimento Armorial, mas precisava de elementos para criticar a opressão e o medo, sem necessariamente fazer um discurso jornalístico ou ensaístico. Era, também, e ao meu modo, uma crítica ao regime autoritário vigente. Por isso fui buscar os elementos da cultura popular nordestina. Nada mais enriquecedor e verdadeiro. Segui, de propósito, as lições do mestre Ariano Suassuna, de quem sou discípulo orgulhoso.

Na foto, J. J. Veiga

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

27.03.2017 - Guardem as cinzas - Esta é a novela de Andrea Ferraz

09.02.2017 - Literatura é imagem, cena e metáfora

11.01.2017 - Escritor e escrevente

17.07.2016 - O narrador no movimento regionalista

18.05.2011 - Segredos que conquistam estudiosos

12.04.2011 - Sobre o estilo na obra de ficção

04.02.2011 - Mário de Andrade - criador de oficinas?

28.08.2010 - Sem personagem, a digressão se diverte

08.07.2010 - O princípio e o fim são conceitos vagos

20.05.2010 - Na dança das cenas, o psicológico se apresenta

08.04.2010 - Tem barulho ai? O cenário resolva

28.02.2010 - Andamento segue reto por linhas tortas

04.01.2010 - A narrativa é construída de cena em cena

12.12.2009 - Curvas e retas no caminho da ficção

25.11.2009 - Com acúcar e com afeto, o doce caminho das digressões

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

26.04.2017 - Afrânio Nunes

O autor traça o perfil biográfico de um importante político piauiense.

26.04.2017 - O manto de diamantes das estrelas

O manto de diamantes das estrelas

26.04.2017 - A saga da Capelinha de Palha

Seu pai, o senhor Daniel, comovido, ao ver a dedicação e o esforço da esposa em exercitar sua fé e religiosidade em local improvisado e sem conforto, por vezes sujeito a sol ou a chuva, resolveu erguer no local uma pequena capela de taipa.

24.04.2017 - Eliseu de Sousa Martins

O autor traça o perfil biográfico de um importante do político brasileiro, que atuou no tempo do Império.

24.04.2017 - O ódio inventado pelos bonzinhos

Por que o mundo todo pode viver e resolver seus conflitos, e nós não?

24.04.2017 - O fascínio dos nomes

Há uns anos, mandaram um fotógrafo do jornal Público para me fotografar (já nem me recordo bem a que propósito) e, quando lhe perguntei como se chamava, respondeu-me: Miguel Manso.

24.04.2017 - Aspas simples por ironia vale?

--- Tenho notado em vários textos o uso da ' (aspa simples), mesmo fora das

24.04.2017 - Dez verdades inteiras e uma mentira parcial

Está rolando este desafio no Facebook, e resolvi contribuir com os meus episódios.

23.04.2017 - A retrospectiva das horas

Alceu Amoroso Lima escrevia uma linha no fim do dia.

23.04.2017 - O começo do mundo e as sete cidades de pedra

O começo do mundo e as sete cidades de pedra

23.04.2017 - O adeus a Gomes Campos

o autor divulga texto escrito e publicado na imprensa, quando do falecimento do dramaturgo Gomes Campos, um importante intelectual piauiense.

23.04.2017 - Também existe fascismo na esquerda

Quem tem telhado de vidro não joga pedra no do vizinho.

23.04.2017 - A SABEDORIA DO ANDAR

A SABEDORIA DO ANDAR

22.04.2017 - O povoamento do Piauí

O autor faz análise crítica sobre obra historiográfica e sobre a colonização do Piauí

22.04.2017 - Poesia de Hoje

Versos Atuais.

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br