Dilson Lages Monteiro Sábado, 27 de maio de 2017
OS SEGREDOS DA FICÇÃO - RAIMUNDO CARRERO
Raimundo Carrero
Tamanho da letra A +A

Curvas e retas no caminho da ficção

Raimundo Carrero

Na coluna passada, dissemos que há dois caminhos para o narrador do texto literário: 1) Digressão; 2) Comentários. E mostramos, claramente, que a digressão foge do objeto central, numa fuga com retorno técnico. Verificamos, agora, que o narrador onisciente tanto pode usar o comentário quanto a digressão, tomando como exemplo os dois primeiros capítulos de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Na técnica, os dois capítulos, vistos isoladamente, são comentários, isto é, na construção de cada. Mas unidos, os dois capítulos funcionam como digressão.

O comentário, de começo, meio e fim, traça uma linha reta. Na digressão há, pelo menos, uma reta, uma curva e, finalmente, uma reta. Pelo menos em princípio, para efeito de compreensão. Agora veremos que os dois capítulos são comentários, mas com classificação diferente. Estudamos, inicialmente, que há três formas de comentário:

1. Comentário ou análise de um fato;

2. Comentário que corresponde à reação ou momento do personagem;

3. Comentário ou crítica irônica ou maliciosa;

Ou seja, o capítulo Do título é (1) comentário de um fato, (2) ligeiro comentário ou crítica maliciosa, (3) seguindo-se o comentário de um fato e uma crítica ou comentário malicioso; e o segundo capítulo Do Livro é um comentário que corresponde a uma observação ou um momento do personagem. Por enquanto, vamos estudar apenas o primeiro capítulo, conforme os parágrafos.

1. Comentário de um fato:

Uma noite dessas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

- Continue, disse eu acordando.

- Já acabei, murmurou ele.

- São muito bonitos.

2. Comentário ou crítica irônica ou maliciosa:

Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota a meus amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: "Dom Casmurro, domingo vou jantar com você". - "Vou para Petrópolis, Dom Casmurro, a casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo". - "Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã, venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote; dou-lhe chá, e dou-lhe cama; não lhe dou moça".

3. Comentário à reação de um fato e comentário ou crítica irônica e maliciosa:

Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas lhes pôs o vulgo do homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando. Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até o fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.

Percebemos, agora, o que vem a ser a técnica geral e a técnica particular. Na técnica particular, há um comentário de começo, meio e fim. Na técnica geral, uma digressão. Ou seja, os dois comentários juntos formam uma digressão porque realizam uma curva até que o narrador chegue ao ponto central.

Assim temos a linha do capítulo:

Comentário a um fato     malicioso    fato e malicioso

Começo                           meio           fim

Apesar da diversidade de técnicas, o comentário não faz uma curva, não abandona a linha narrativa, não desloca o interesse do leitor. Por isso é comentário. O comentário obedece a um rigor técnico, mas sem engessar o texto, exato e certo. Por acaso, terá que ser sempre assim? Não. O escritor tem o direito e a obrigação de encontrar seus próprios caminhos. Mas os caminhos se tornam mais fáceis com o estudo e o exame dos clássicos. Sempre acreditando que o narrador pode fazer o que quiser, em todos os momentos. O estudo e o trabalho devem ser, porém, constantes.

EXERCÍCIOS
Vamos pensar juntos. Eu quero comprar uma roupa. É um fato? É. Pois bem, é preciso agora comentar este fato. Comece dizendo que foi a uma loja, no centro da cidade, e, ao entrar, foi recebido por um vendedor. Está bem assim? Se não quiser, mude de assunto. Conte como chegou à loja e como ocorreu o encontro com o vendedor. E, é claro, narre de que maneira foi recebido e os encaminhamentos. Ou seja, mostruário de roupas e os detalhes: cintura, perna, bolsos, essas coisas. Leia mais uma ou duas vezes o comentário de abertura do romance de Machado de Assis. Faça o exercício.

Vamos ao segundo comentário ou crítica irônica ou maliciosa. Como é isso? Você viu que Machado de Assis usa um ligeiro diálogo, depois do comentário do fato. Mostre uma cena que a roupa que lhe é apresentada parece feia e deselegante. Em seguida, crie o diálogo. Ou apenas uma narrativa. Fique livre para o que considerar melhor.

Continuando o exemplo, escreva o comentário do fato com um comentário malicioso. Ou siga o seu próprio exemplo.

Até mais.

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

27.03.2017 - Guardem as cinzas - Esta é a novela de Andrea Ferraz

09.02.2017 - Literatura é imagem, cena e metáfora

11.01.2017 - Escritor e escrevente

17.07.2016 - O narrador no movimento regionalista

18.05.2011 - Segredos que conquistam estudiosos

12.04.2011 - Sobre o estilo na obra de ficção

04.02.2011 - Mário de Andrade - criador de oficinas?

28.08.2010 - Sem personagem, a digressão se diverte

08.07.2010 - O princípio e o fim são conceitos vagos

20.05.2010 - Na dança das cenas, o psicológico se apresenta

08.04.2010 - Tem barulho ai? O cenário resolva

28.02.2010 - Andamento segue reto por linhas tortas

04.01.2010 - A narrativa é construída de cena em cena

12.12.2009 - Curvas e retas no caminho da ficção

25.11.2009 - Com acúcar e com afeto, o doce caminho das digressões

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

26.05.2017 - ROGEL SAMUEL: TEORIA DA CRISE

ROGEL SAMUEL: TEORIA DA CRISE

26.05.2017 - POEMA 'ÁGUA FRIA'

poesia

26.05.2017 - O RIO NEGRO

O RIO NEGRO

25.05.2017 - Teresina

O acadêmico Reginaldo Miranda escreve sobre a cidade de Teresina, capital do Piauí, por ocasião da outorga da Comenda Conselheiro Saraiva.

25.05.2017 - A enigmática Etrúria

Desprezada por muitos leitores, a Arqueologia é uma Ciência que vale a pena ser estudada pelos leigos, pois se revela muito interessante.

25.05.2017 - EM BUSCA DA POÉTICA DE J. G. DE ARAÚJO JORGE

EM BUSCA DA POÉTICA DE J. G. DE ARAÚJO JORGE

24.05.2017 - O dia em que saí no Ibrahim Sued

Era a sexta-feira do dia 17 de maio de 1985

23.05.2017 - UM AMIGO DE INFÂNCIA

No dia seguinte ao da mudança para a nossa pequena casa dos Campos, em Parnaíba, em 1896, toda ela cheirando ainda a cal

23.05.2017 - Fraternidade Espiritualista Universalista

Em pleno cerrado de Goiás...

22.05.2017 - Um livro infantil de Irá Rodrigues

A literatura infantil é parte importante de nossa cultura, pois devemos estimular nossas crianças ao saudável hábito da leitura.

22.05.2017 - As formas simples

Surfando pelos saites de revistas literárias encontrei um artigo da Los Angeles Review of Books

22.05.2017 - Viagem com livros

Quando viajo, seja de avião, seja de comboio, levo sempre um livro comigo.

22.05.2017 - HISTÓRIAS DE ÉVORA já nas Livrarias de Teresina

O romance Histórias de Évora, de Elmar Carvalho, já se encontra à venda nas livrarias Entrelivros, Anchieta e Mons. Melo (UFPI), pelo módico preço de R$ 20,00.

22.05.2017 - O PRIMEIRO TURNO DA PRIMAVERA

Difícil é dizer da guerra no Iraque, do dólar, da miséria, da fome.

21.05.2017 - Odilon Nunes e a construção de nossa história.

O acadêmico Reginaldo Miranda analisa a obra historiográfica de Odilon Nunes, um dos mais acreditados historiadores brasileiros.

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br