Dilson Lages Monteiro Domingo, 23 de abril de 2017
OS SEGREDOS DA FICÇÃO - RAIMUNDO CARRERO
Raimundo Carrero
Tamanho da letra A +A

Com acúcar e com afeto, o doce caminho das digressões

Raimundo Carrero

O escritor precisa sempre acreditar na única lei que lhe é imposta: nenhuma regra lhe pode ser imposta, nenhum decálogo e, claro, nenhum regulamento. Tenho repetido muito isso, não é? Ocorre que muitos equívocos são lançados sobre as oficinas literárias. É preciso esclarecer. O estudo da técnica torna o artista consciente, e não serve para ser copiado. Mas um romance, por exemplo, pode ter dois caminhos seguros, que favorecem a crítica do próprio trabalho. São eles: digressão e comentário. Pode parecer, no entanto, não são a mesma coisa, não é. Eis a diferença: na digressão, o narrador se afasta do objeto central; no comentário, o mesmo narrador não larga este objeto.


Compreendo que escrever uma digressão não é tarefa fácil. No entanto, percebe-se logo que ela pode e deve ser usada quando for necessário seduzir ainda mais o leitor, sobretudo com relação a enredos ou com relação a mudanças de enredo, ou técnicas ainda mais sofisticadas. Machado de Assis era mestre nesta arte, que aprendeu com Lawrence Sterne e não esqueceu mais. Veja bem o exemplo de Dom Casmurro:

Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir meu nome e escondi-me atrás da porta. A casa era a da rua de Matacavalos, o mês de novembro, o ano é que é um tanto remoto, mas eu não hei de trocar as datas da minha vida só para agradar às pessoas que não amam histórias velhas; o ano era de 1857.

Dá para perceber? Olhando - ou lendo - bem, o objeto central da narrativa é a frase:

Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir meu nome e escondi-me atrás da porta.

Não é verdade? Mas na frase seguinte, o narrador parece esquecer o que afirmou e investe na digressão, afastando-se do objeto central e levando o leitor com ele. Algo feito com muita calma, lentamente.

A casa era a da rua de Matacavalos, o mês de dezembro, o ano é que é um tanto remoto, mas eu não hei de trocar as datas da minha vida só para agradar às pessoas que não amam histórias velhas.

Uma conversa leve, de narrador experiente que, num rápido momento, desvia o leitor numa conversa desconfiada, até retornar ao objeto central:

O ano era de 1857.

Manobra de quem sabe o quer e para aonde vai. Faz uma curva narrativa, distrai o leitor e volta ao começo ainda que por outro caminho. Isto é uma digressão legítima. Sim, para efeito de estudo e de consciência literária, o que é uma digressão? E para que serve?


Sempre assim: no momento em que for preciso distrair o leitor para que ele não acompanhe o rigor do enredo, a digressão precisa ser realizada, da mesma forma que fazemos com as pessoas quando pretendemos surpreendê-las. Para exemplo, vamos recorrer aos meninos, que são mais hábeis no destino narrativo. E refletimos sem gravidade. O menino da história e o menino de Clarice Lispector.
Só uma brincadeira infantil, que ajuda a refletir, sem forçar. Vamos ver:

- Eu quero uma mordida neste doce.
- Não dou.
- Veja como a torre da igreja está brilhando.
- Onde?
- Veja com cuidado.
- Não consigo.
- Ah, você não sabe olhar.
- Ih, cadê meu doce?
- O gato comeu.

O que aconteceu? Enquanto distraímos o amigo, aí está a digressão, o doce foi roubado. Mudança de rumo ou de assunto. Não é mesmo? Certamente o outro vai olhar a torre da igreja - onde, com certeza, não está acontecendo nada - e lhe roubamos o doce. Qual o objeto principal: o doce. Não é assim? E qual é a digressão? A torre da igreja. O exemplo é ingênuo e infantil, concordo. Mas, creio, eficiente.
Assim podemos, então, trabalhar a digressão:

Objeto central:
- Eu quero uma mordida neste doce.
- Não dou.

Digressão:
- Veja como a torre da igreja está brilhando.
- Onde?
- Veja com cuidado.
- Não consigo
- Ah, você não sabe olhar.

Objeto central:
- Ih, cadê meu doce?
- O gato comeu.

Não é mais do que isso. Em princípio, com essa tranqüilidade. É claro que coloquei diálogos, mas se há uma narrativa, então é preciso escrever da seguinte maneira:

O menino queria uma mordida no doce do colega, mas não lhe foi permitido. Ele apontou a torre da igreja chamando a atenção para o brilho que estava surgindo. O colega não viu, embora olhando com muito cuidado. O doce lhe foi roubado pelo gato. Que gato? Difícil era esconder a boca cheia.

Agora o desenvolvimento, mais uma vez:

Objeto central:
O menino queria uma mordida no doce do colega, mas não lhe foi permitido.

Digressão:
Ele apontou a torre da igreja chamando a atenção para o brilho que estava surgindo. O colega não viu, embora olhando com muito cuidado.

Objeto central:
O doce lhe foi roubado pelo gato. Que gato? Difícil era esconder a boca cheia.

Digressão é isso: desvio da atenção pela mudança de rumo ou de assunto, dependendo da função e do efeito.

Veja o que diz Houaiss sobre o assunto: "Desvio do assunto principal ou de rumo".

EXERCÍCIOS
Em princípio copie, copie mesmo, copie o diálogo. Divida em partes: objeto central, digressão, objeto central. Agora copie, copie mesmo, a narrativa. Divida em partes: objeto central, digressão, objeto central. Isso não é gratuito, é fundamental. Não se entende apenas com a mente, mas com a escrita. Repita. Memorize. Repita. Memorize. Escreva, escreva, escreva.


Vamos a um exercício. As palavras do objeto central são de Clarice Lispector. De propósito, inventei a digressão.

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Muita gente nas calçadas e os vendedores gritando, misturando-se um com os outros, pregando as delícias das prendas, e aquele menino sozinho encostado no poste. Um ar desvalido, de abandonado. Ela depositou o volume no colo e o bonde começou a andar.
 
Agora invente a sua digressão, tomando como base o movimento dos carros na outra rua:

Objeto central:
Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde.

Digressão: (fazer o exercício)

Objeto central:
Ela depositou o volume no colo e o bonde começou a andar.

Então vamos a outro exercício, com invenção livre na digressão - ou seja, não copie o texto de Clarice mas invente outro:

Objeto central:
Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde.

Digressão: (fazer o exercício)

Objeto central:
Ela depositou o volume no colo e o bonde começou a andar.

Estes exercícios são fundamentais. Não adianta apenas dizer: compreendi, entendi - tem que fazer. Se possível, repete e repete e repete. Até considerar o domínio do texto.
 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

27.03.2017 - Guardem as cinzas - Esta é a novela de Andrea Ferraz

09.02.2017 - Literatura é imagem, cena e metáfora

11.01.2017 - Escritor e escrevente

17.07.2016 - O narrador no movimento regionalista

18.05.2011 - Segredos que conquistam estudiosos

12.04.2011 - Sobre o estilo na obra de ficção

04.02.2011 - Mário de Andrade - criador de oficinas?

28.08.2010 - Sem personagem, a digressão se diverte

08.07.2010 - O princípio e o fim são conceitos vagos

20.05.2010 - Na dança das cenas, o psicológico se apresenta

08.04.2010 - Tem barulho ai? O cenário resolva

28.02.2010 - Andamento segue reto por linhas tortas

04.01.2010 - A narrativa é construída de cena em cena

12.12.2009 - Curvas e retas no caminho da ficção

25.11.2009 - Com acúcar e com afeto, o doce caminho das digressões

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

23.04.2017 - A retrospectiva das horas

A retrospectiva das horas

23.04.2017 - O começo do mundo e as sete cidades de pedra

O começo do mundo e as sete cidades de pedra

23.04.2017 - O adeus a Gomes Campos

o autor divulga texto escrito e publicado na imprensa, quando do falecimento do dramaturgo Gomes Campos, um importante intelectual piauiense.

23.04.2017 - Também existe fascismo na esquerda

Quem tem telhado de vidro não joga pedra no do vizinho.

23.04.2017 - A SABEDORIA DO ANDAR

A SABEDORIA DO ANDAR

22.04.2017 - O povoamento do Piauí

O autor faz análise crítica sobre obra historiográfica e sobre a colonização do Piauí

22.04.2017 - Poesia de Hoje

Versos Atuais.

22.04.2017 - O BRASIL QUE VIRÁ

O BRASIL QUE VIRÁ

21.04.2017 - C@ARTA AO POETA CHICO MIGUEL

Diria que o amigo é um poeta do coração e da razão, no perfeito equilíbrio dessas duas vertentes.

21.04.2017 - SOMOS MEMBROS UNS DOS OUTROS

Isto é citado por Laín Entralgo

20.04.2017 - MEUS MORTOS HÃO DE VIR NO FIM DA TARDE

Só dá para ler este belo texto quem o situa na Manaus da década de 50

20.04.2017 - E O CONGRESSO?

Oh, Amigos, não esqueçamos o futuro Congresso.

19.04.2017 - SER BUDISTA

Quando o queriam reprovar, diziam que ele era budista.

18.04.2017 - POR QUE KAFKA ESCREVIA EM ALEMÃO?

POR QUE KAFKA ESCREVIA EM ALEMÃO?

18.04.2017 - CONFLUÊNCIA

CONFLUÊNCIA

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br