Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017
OS SEGREDOS DA FICÇÃO - RAIMUNDO CARRERO
Raimundo Carrero
Tamanho da letra A +A

Andamento segue reto por linhas tortas

Raimundo Carrero

Na coluna anterior começamos a mostrar como uma narrativa é construída cena após cena a princípio de acordo com o narrador e, em seguida, conforme a pulsação do personagem, no caso Inácio Ramos, do conto O machete, de Machado de Assis, lento, intimista, reflexivo. Em seguida falamos de Carlota, mais rápida, mais vibrante. É preciso ter o conto por perto para leitura e releitura. Um escritor não lê como o leitor comum: examina, questiona, pergunta.

Estamos aqui criando as bases da construção narrativa. É um estudo. Nada mais. Serve para criar a absoluta consciência narrativa. Não é um modelo, nem pode ser. Lembre-se dos artistas plásticos que até imitam os mestres. Tratamos de um exercício. Exercício para o salto. Para que você conheça a intimidade da história. Agora tratamos dos personagens principais - Inácio e Carlota; e, em seguida, do personagem ilustrativo - o pai de Inácio.

O narrador onisciente, então, recorre à técnica do personagem ilustrativo, no caso, o pai, que dá esse andamento lento, ou devagar, à história, mesmo que não pareça no primeiro momento. Verifique com atenção: a frase é pequena, breve, e o ponto cria uma distância proposital entre ela e a segunda. Há um corte, uma distância, como se, numa composição musical, a última nota se distendesse, deixando apenas o som pairar na narrativa. Assim:

Inácio Ramos contava // apenas dez anos // quando manifestou // decidida vocação musical //////

Nesse andamento, e com uma quebra narrativa, surge a segunda frase:

Seu pai, músico da imperial capela, ensinou-lhe os primeiros rudimentos de sua arte, de envolta com os da gramática, de que pouco sabia.

Entre a primeira e a segunda frases parece existir uma narrativa linear. Não é verdade. O narrador, com profunda leveza, afastou-se de Inácio, para introduzir o pai. Mais uma vez: quebra narrativa, proposital. Caso ele escrevesse: "(Ele) Estudou com o pai, músico da imperial capela", haveria, aí, um texto linear. A retirada da expressão "ele estudou com o pai" cava um abismo, interrompe a linearidade, e faz surgir um personagem, que será apenas ilustrativo.

A terceira frase, então, ainda mais lenta, provoca um movimento de absoluta distensão narrativa, compondo a pulsação do personagem:

Era um pobre artista cujo único mérito estava na voz de tenor e na arte com que executava a música sacra.

Observaram agora uma novidade? Machado de Assis retirou as vírgulas tradicionais, de forma que a frase manteve a lentidão rítmica e visual, e a limpeza visual fez a narrativa ganhar maior distensão, como uma espécie de eco que vai se movimentando no interior da frase.

Em geral, ela seria escrita assim:

Era um pobre artista, cujo único mérito estava na voz de tenor, e na arte com que executava a música sacra.

Ocorre que o escritor é extremamente hábil e não poderia, com o uso da vírgula, chamar a atenção para a ironia da frase: como pode ser um único mérito usar bem a voz e a arte? É pouco um artista ter o mérito de dominar a sua arte? Ou ele não é tão assim, porque era um "pobre artista"? Pobre artista em que sentido: por que não tinha recursos artísticos ou por que não tinha recursos financeiros? Não se esqueçam que a ironia e a ambigüidade são duas das melhores qualidades de Machado de Assis. Assim como a simulação. Então se conclui que ele retira as vírgulas, de um lado, para possibilitar a distensão do som na frase e, de outra maneira, para evitar que o leitor perceba o jogo de ironia e ambigüidade já no primeiro instante.

Na terceira frase:

Inácio, conseguintemente, aprendeu melhor a música do que a língua, e aos quinze anos sabia mais dos bemóis do que dos grandes mestres.

A narrativa diminui a intensidade, sobretudo com o uso do advérbio: "conseguintemente". Parece que houve rapidez, mas a lenta reflexão nos coloca diante de nova ambigüidade: como podia aprender melhor a música, "conseguintemente", se a única qualidade do pai eram a voz e arte? Vejam bem: a única vantagem de um pobre músico. Nesse ir e vir de informações do personagem ilustrativo percebe-se como o andamento lento sofreu nova retração, e ficou mais lento. A narrativa é montada e remontada, sem que ganhe velocidade e leveza.

Na próxima aula continuaremos a refletir sobre a criação de Machado de Assis, através da estrutura das cenas.

Quarta frase:

Ainda assim sabia quanto bastava para ler a história da música e dos grandes mestres.

Frase limpa, que permite avançar no andamento, desaguando numa informação elíptica:

A leitura seduziu-o ainda mais; atirou-se o rapaz com todas as forças da alma à arte do seu coração, e ficou dentro de pouco tempo um rabequista de primeira categoria.

Aí, sim, a frase começa a ganhar movimento, sobretudo por causa do verbo altissonante "seduzir", até o ponto e vírgula, tornando-me mais veloz nos movimentos finais, o que faz retornar ao mesmo movimento do princípio. Mas observe que o verbo altissonante relaciona-se com a leitura, e não com o pai: "A leitura seduziu-o ainda mais". Por último, a informação sobre a rabeca aparece rapidamente, sem nenhuma informação ou explicação para o leitor. Num autor convencional haveria, pelo menos, uma frase para introduzir a rabeca. Esta velocidade prepara o andamento mais rápido do próximo parágrafo.

Tudo isso para demonstrar de que maneira técnica o narrador de O machete procura encontrar os movimentos desejados para colocar o leitor no ritmo do texto. De forma que, agora, podemos fazer um exercício de cena interna com tônica psicológica. Sem o personagem ilustrativo. O que interessa é o exercício de cena externa.

Vamos fazer, em conjunto, uma cena interna, passo a passo. Neste caso, a cena interna com tônica psicológica pede um andamento lento, mesmo quando a narrativa avança. Mas escreva, neste momento, considerando suas idéias. Depois reescreva e reescreva. E escreva e reescreva. Estamos fazendo um exercício. Com cautela.

Exercício de cena interna

a) Argumento
Tome nota: Numa agência bancária, cinco pessoas trabalham numa sala. Quatro homens e uma mulher. A mulher é cortejada pelo chefe, mas decide não aceitar uma relação. Daí em diante o chefe passa a colocar em dúvidas suas qualidades funcionais. Ou seja: coloca defeito em tudo o que ela faz.

b) Início
Comece o exercício por uma cena interna com tônica psicológica, mostrando a formação da moça. Competente na escola, nas relações sociais, na família. Então faça o seguinte com a primeira frase do exercício:

Enquanto caminhava para a escola, todos os dias, Adélia projetava o futuro.

Encontre aí, a sua própria frase:

Enquanto caminhava para a escola, todos os dias, Adélia...

Ou assim:

Enquanto caminhava para a escola,........................, Adélia projetava.......................

Compartilhar em redes sociais

Comentários (1)

Sou uma estudante do Curso de Letras,amo ler e escrever,mas acho a matéria de literatura um pouco maçante demais.Só não é pior por que o meu professor faz com que nosso interesse aflore.

manuela
postado:
23-03-2011 02:13:14

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

09.02.2017 - Literatura é imagem, cena e metáfora

11.01.2017 - Escritor e escrevente

17.07.2016 - O narrador no movimento regionalista

18.05.2011 - Segredos que conquistam estudiosos

12.04.2011 - Sobre o estilo na obra de ficção

04.02.2011 - Mário de Andrade - criador de oficinas?

28.08.2010 - Sem personagem, a digressão se diverte

08.07.2010 - O princípio e o fim são conceitos vagos

20.05.2010 - Na dança das cenas, o psicológico se apresenta

08.04.2010 - Tem barulho ai? O cenário resolva

28.02.2010 - Andamento segue reto por linhas tortas

04.01.2010 - A narrativa é construída de cena em cena

12.12.2009 - Curvas e retas no caminho da ficção

25.11.2009 - Com acúcar e com afeto, o doce caminho das digressões

02.11.2009 - Supresa, o leitor chegou para o jantar

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

26.02.2017 - Carta à Tribuna da Imprensa, 22/7/1998

O que o passado pode ensinar...

26.02.2017 - SOBRE O ECLIPSE SOLAR

SOBRE O ECLIPSE SOLAR

25.02.2017 - SEM DOURAR A PÍLULA

Se dirijo a min ha atenção

25.02.2017 - OH, ABRE ALAS, PARA O CARNAVAL ...

OH, ABRE ALAS, PARA O CARNAVAL ...

23.02.2017 - Pensando o Piauí

O autor apresenta o livro Rodoanel, do intelectual piauiense Magno Pires.

23.02.2017 - OS MISTÉRIOS DE UNS VERSOS

OS MISTÉRIOS DE UNS VERSOS

22.02.2017 - A DANÇA DE BEETHOVEN

A DANÇA DE BEETHOVEN

22.02.2017 - LEÃO ENJAULADO

Após as oitenta primaveras, ficou bastante decrépito, e a saúde já não lhe permitia as libações etílicas, como costumava dizer o popular Pacamão

21.02.2017 - O PRÍNCIPE - PARTE FINAL

O final da história de um dos mais importantes matemáticos da ciência.

20.02.2017 - A PRIMEIRA ESTROFE DE 'LE BATEAU IVRE'

A PRIMEIRA ESTROFE DE 'LE BATEAU IVRE'

19.02.2017 - CASA ABANDONADA

CASA ABANDONADA

18.02.2017 - As vozes narrativas

As vozes narrativas

18.02.2017 - As memórias de Cunha e Silva Filho

Um amigo que tem muitas coisas a contar relata fatos de sua vida.

17.02.2017 - O PIANO, A TARDE

Minha tia Maria José

16.02.2017 - A Filha da Floresta, de Thales Andrade

Assim iniciou a literatura infantil brasileira.

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br