Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
O MORRO DA CASA GRANDE
Romance de Dílson Lages Monteiro
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3. Gente grande?

 

Dílson Lages Monteiro
 
Entrou na casa santa já se ajoelhando. Braços erguidos, chapéu no ladrilho de tijolos – o cheiro de incenso colado nos bancos de madeira; nos santos quase vivos; na imagem do filho de Deus pregado à cruz; no altar-mor em que multidões se ajoelhavam em dezembro. Entrara pela lateral do templo, mas sairia pela porta da frente, para a saúde e a sorte da família, para não padecer de alguma praga se o ano fosse de campos secos e sóis puxados...
 
Quando se dirigia à porta de entrada, voltou a curvar-se para a lousa na parede, à lousa que no festejo dona Alzira, tataraneta de homem tão importante, sem esconder o contentamento, leu explicadamente para a gente da fazenda e, à memória dele martelava, quando entrava ou saia da igreja:
 
“Aqui jaz José Carvalho de Almeida
O benfeitor desta paróquia”.
 
Gente grande? Gente que mandou. Gente já esquecida na poeira que o tempo sepulta. Quando tivesse com os netos crescidos... iria contar tintim por tintim dessa história. A mesma que tantas vezes a avó do coronel lhe contara debaixo das frondosas galhas do pé de sapucaia da Aurora.
 
Trilhando vagarosamente os anos passados, Genésio pressionou a sela no lombo do animal, prendendo-a com justeza, passou o pé no estribo. Descer do Alazão, somente para organizar alguma bagagem, entregar a encomenda de Totonho, beber água ou acaso as exigências do percurso...
 
Atrás da Casa de Nossa Senhora, na bomba de gasolina, o Coronel Alexandrino – este sim coronel de nomeada - abastecia o Jipe, talvez no aperreio característico de sua pessoa. Criaram-se juntos, quase irmãos – laçavam bodes, brincavam em cavalinhos de carnaúba, caçavam preás nos pés das serras. Alexandrino viu que estava sendo observado e, levantando a cabeça em riste, gritou:
- Fala, cabra!
 
A fala do irmão do patrão foi o suficiente para sentir que começava a se atrasar. Definitivamente, firmou-se no cavalo. O regresso se faria como programado. Cumprira todas as ordens; até as riscou imaginariamente no canto da cabeça, onde supunha os dizeres do coronel se estendiam até a rígida execução de cada mandato. Ali se arquivavam. Ali as quebrara como fazia com o babaçu da ponta do machado... As determinações, quebrou-as uma a uma... com a lâmina afiada da severa presteza herdada do pai, do avô, do bisavô e de todos os antecedentes – vaqueiros de laços firmes, agricultores de extensas braças, jagunços de vencer desaforos e acertar o alvo com única bala.
 
Genésio passou as ásperas mãos no rosto, raspou o suor com o dedo e sacudiu-o para o chão. Tirou do bolso o fumo; tanta a pressa, tantos os encargos, esquecera-se de debulhar o fumo de corda e acomodá-lo no papel de embrulho, tragar a fumaça cortando o peito e admirar a paisagem em alívio, mesmo a pele se queimando pelas sucessivas cavalgadas na quentura da manhã. A quentura alargada pelas ruas poeirentas da cidade - da casa do coronel, a quem chamava de Major, ao mercado e finalmente à Botica, a hora era o sopro no bico da lamparina antes de dormir: o relógio não funcionava como na fazenda de noites e dias compridos como a vida inteira.
 
Tinha pressa e, quando tomou tento, depois de cruzar a Rua Grande, encontrou Augusto e Antônio Preto. Os cavalos alimentados; os jegues enfileirados. Homens e animais prontos para a travessia da mata.
 
 

 

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