Dilson Lages Monteiro Sábado, 11 de fevereiro de 2012
O MORRO DA CASA GRANDE
Romance de Dílson Lages Monteiro
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2. O Cristo de braços abertos

2. O Cristo de braços abertos

Dílson Lages Monteiro

Entre Florisbela e Genésio, estabeleceu-se silenciosa distância. Cada qual agora para o espaço que a vida reservava. Florisbela, à cadeira atrás do balcão, de onde ouvia o cair das folhas secas das figueiras. Genésio, o caminho do Paquetá, onde tragaria o pó fino da tarde nas narinas ressequidas.
 
Aos primeiros trotes do Alazão, o agricultor percorreu os olhos em cada canto da praça central... O centro ficava em um morro de onde lenta declinação ligeiro se ia agigantando e arremessava a curiosidade ao rio e às curvas sinuosas da rua torta, a rua da Tripa; a rua que um dia se chamou José Antônio Rodrigues, sobre quem Genésio, com o peito extravasando o ar,  não cansava de repetir: "O bisavô do Major!".
 
Sim, dali avistava o rio: nele, viu o derradeiro banho no festejo - as margens se cobriam de paud’arcos, de araçás e de rasteira vegetação, enfeitados pelo bico das seriemas, na água morna, entrando-saindo com o dourado prisioneiro, ou pelos porcos esparramados na lama.
 
Tratou de apressar as rédeas; não sabia explicar, mas uma energia, embora a noite tivesse passado na travessia entre a cidade e a fazenda, pulsava em si, e percorreu os contornos do Cristo de Braços abertos no topo da igreja; o Cristo protegendo firmemente o Marataoã. A imagem ficaria por lá, no alto, a vida toda, garantindo a abundância luminosa das águas. Santo é alma boa que Deus conservou pra proteger a natureza e os desamparados...
 
Esquadrinhava cada detalhe da igreja. O cristo entre as duas torres. As catorze portas laterais. As janelas a perder a conta, no alto da elevação. O centro como a Fazenda Aurora num morro. Grandeza de gente superior? A fazenda do dono das Barras do Marataoã um dia fora ali, ao lado direito da igreja. As reses gordas dele, contadas no curral, onde se ergueu o Patronato. Dona Alzira sabia de muita coisa.
 
Genésio estava mesmo curioso para meter a vista no que ouvira falar à porta da bodega do Vitor Lopes, assim que entrou na cidade: queria ver se a estrutura realmente não sustentava mais o peso dos anos. Naquele 1957, algumas rachaduras de cima abaixo levavam o povo a dizer que a igreja despencaria. O homem não acreditava nisso, não somente porque era temente a Nosso Senhor, mas também porque ela estava ali para quase cem anos. Por que agora iria cair? Pura imaginação do povo.
 
Esquadrinhava a igreja quando o corpo pediu um trago de cana boa. O quiosque no centro da praça acendeu a coragem, e Genésio cavalgou como se tocasse os bois da fazenda. O vendedor, no quiosque, recebeu com sorriso aberto o peão.
 
- Vem de onde, peão?
 
- Da terra de seu Custódio. Pra esfriar essa manhã o siô me serve uma dose de pinga presse caboclo?
 
- Volta hoje? Tenho encomenda pro Chico Castelo e não encontro mensageiro. E com a estrada do jeito que anda não sai caminhão pro Mocambo não, não sai. Sei que é da confiança de seu Custódio, e passa no terreiro do coronel Castelo. Não quer levar essa encomenda não? Mas tem que ser com muito jeito. É carta do coronel Jofre.
 
- Pois vai com jeito. Ainda mais sendo prum homem da valia de seu Chico.
 
Pôs a carta num saco, amarrou as pontas dele para que o suor, na cavalgada, não atingisse as letras preciosas, para não ser repreendido. Isso não. Não era cabra de ser repreendido, sempre soube ser bem mandado.
 
Do Quiosque, ainda sentindo a queimação na garganta, ainda ouvindo o borbulhar da pinga destilada nos alambiques de Nezim, ele decidiu tomar benção a Nossa Senhora. Subiu o entorno do adro e percorreu o lado direito da igreja de uma ponta a outra, avistando em linha reta, o irmão do governador, em estado de permanente contemplação, na outra extremidade do quiosque.
 
Nem se dera conta do homem ali. Quem ia dizer, o irmão do governador. Ele conhecia o irmão do homem que mandou em tudo pra mais de dez anos; ele e um tal de Getúlio. Para o irmão do homem, entregava as mensagens no correio. O magrinho corcunda telegrafava para Parnaíba, onde morava, de junto dos cunhados estudados, o filho mais velho do patrão.
 
Com Pedro dos Correios, ele trocara algumas palavras e, um dia, mesmo conhecendo o seu lugar, com ele, em companhia do major, tomara um copo de cerveja, à sombra das árvores, no bar de Totonha. Um homem simples como a poeira vermelha dos chinelos, mas irmão do governador.
 

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