Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 06 de fevereiro de 2012
O MORRO DA CASA GRANDE
Romance de Dílson Lages Monteiro
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28. Cristo em pó

 Dílson Lages Monteiro

- Compadre, eu estava lá no dia em que decidiram! Dona Deusimar ficou brava; as beatas da Rua Grande todas praguejaram. Não derrubariam não, mas padre tem poder – explicou Epitáfio para Genésio, esfregando a mão esquerda na testa.

- E foi o padre quem decidiu?
- Não, não foi.
- E quem decidiu?
- Quer dizer, foi. Fizeram uma reunião grande na igreja. Tinha gente que nem eu, que sei quem é pai de quem nessas Barras, conhecia. Nunca pensei que quisessem derrubar uma construção dessas só pra fazer uma nova, mais bonita.
- E o que decidiram lá, compadre? Foi só dona Deusimar que soltou os cachorros?
- Não, foi não. Era muita gente contra. Mas o padre perguntou: “Quem é contra?”. Muita gente era, que ele nem conseguiu contar direito. Então, perguntou de novo, mandando o povo se separar. Quem era contra ficava de um lado; quem não era, do outro. Quem é que vai ficar contra padre, compadre?
- Pois é? Quem?
- Não deu outra,.. Quem era contra votou a favor e passou de lado, menos eu, dona Deusimar, as beatas da Rua Grande e meia-dúzia de mocinhas. Eram contra e pronto. Então, tava certo que a igreja ia ao chão pra construírem uma nova, ” antes que a velha caísse sobre a cabeça de alguém”, como dizia o padre Barata.
- Lá pensei, sô, que o negócio tinha se dado assim.
Epitáfio prolongaria a conversa em detalhes ocultos, pormenores somente conhecidos por quem se enfurnava como ele nos movimentos da igreja. Prolongaria, não tivesse Ernesto gritado por ele, que mais ajuda nunca é desnecessária quando se necessita de força. Epitáfio era homem de cinquenta anos, mas não perdera ainda o vigor da juventude. Nem sequer possuía cabelos brancos e dona Quitéria já nem reclamava das namoradas que lhe surgiam. Era cabra de força e foi logo ajudando a esticar o cabo de aço e a retirar os pneus velhos da carroceria do automóvel. 
No Patronato, quase à frente da igreja, as professoras retiraram das salas de aula toda as crianças. Elas presenciariam um grande fato histórico. O velho daria lugar ao novo, mas era preciso salvar o Nosso Senhor. E Quem estava ali rezava para que o Cristo fosse salvo. Os mais peraltas perguntavam sem parar: “Fessora, é se cair no chão?”. E recebiam ordem para se calarem e não saírem dos lugares em que se localizavam. Ele mergulharia sobre os pneus, rodeados de palha de arroz e algodão, para suavizar a queda e evitar algum dano. Era uma unanimidade que Cristo se salvaria.
 
Marciano não quis ir à praça. Nem Deusimar. Para quê? Só para ficarem mais tristes e sentirem-se menores, porque nada podiam fazer?
Oito e trinta da manhã. Prendeu-se o cabo de aço no caminhão de Ernesto. O cabo já envolvera todo o corpo do Cristo. Genésio e Epitáfio, entre os que se certificavam de que pelo menos o santo se salvava. Quem duvidaria? Mediram-se os ângulos. À direita, à esquerda, ao centro. Ele cairia sobre os pneus e, dali a poucos meses, enfeitaria a nova igreja.
Ernesto entrou no carro. Pôs a chave no contato e começou a acelerar. Hesitante em movimentar o caminhão, como se avisado fosse de que a missão ficaria pela metade. Parou, repentinamente, à espera que as orientações de alguém com maior ângulo de visão lhe encorajasse.
- Pode vim; pode vim, seu Ernesto – gritava João da Concebida, gesticulando para que o amigo girasse o volante à esquerda. – Bem devagar! Bem devagar! – orientava otimista, de olho na rigidez do cabo e na distância entre os pneus e o adro da igreja, certo de que o Cristo despencaria no lugar certo. Quem duvidaria?
O caminhão acelerou e, como galhos de árvore apodrecida, os quais se partem do alto em tempestades, o Cristo despedaçou-se; despedaçou-se a alguns metros antes de onde deveria acomodar-se. Despedaçou-se no calçamento, sem pneus, algodão ou palha de arroz que evitasse. O estrondo dividiu a multidão curiosa e surgiu, em uma rapidez de assustar, gente de todas as ruas, às lágrimas, querendo levar para casa uma parte de Nosso Senhor, desfeito em minúsculos pedaços e em pó. Estava feito. Que a obra começasse. Em 60 dias, as largas paredes da igreja da matriz seriam pó como já era o Cristo.
Na Rua do Caquengo, a vendedora de espanadores, descontente com o espetáculo, parou à porta de Marciano, avisando dona Margarida:
- Cristo se esfarelou, dona Margarida!
Marciano, recluso ao quarto, às voltas com as páginas da história do Piauí, parou para ouvir a versão da vendedora, mas nada entendeu além da notícia esperada, e ocorreu-lhe a bisavô repetindo:
- Barras vai desandar! Barras vai desandar! Aqui não se teme nem os castigos de Nossa Senhora.
Veio-lhe nas entrelinhas da leitura o nome do construtor da Matriz. Quantos anos Carvalho de Almeida sonhando com a igreja do jeito que era... Do quarto, tentou novamente ouvir a voz baixa da vendedora de espanadores. Inútil... Abriu a página que marcara dobrando a ponta e leu:
“José Carvalho de Almeida nasceu no termo das Barras em 1770, e era filho dos abastados fazendeiros Antônio Carvalho de Almeida e sua mulher dona Ana Maria da Conceição.
Alistara-se na milícia da capitania em 1793, ocupava o posto de tenente do regimento de infantaria do termo de Campo Maior, em 1823, quando foi proclamada a independência, em cujas lutas muitos se distinguiu, dispensando a percepção de seus soldos de campanha. Promovido a capitão em 1844, foi depois nomeado coronel comandante superior do município das Barras, e em 1863, foi reformado no mesmo posto”.
Marciano Fechou o livro. Fechava-se também a igreja, onde se dizia que vaqueiros viram em tempos remotos a imagem de Nossa Senhora no morro em que existira a fazenda do dono de Barras. Fechava-se a história de várias gerações onde construíram um dia a Matriz de Nossa Senhora da Conceição das Barras, no morro da casa grande.
A manhã ia encorpando-se maior que o coração do desejo.
 

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