Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2012
NEUZA MACHADO - LETRAS
Neuza Machado
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DE VOLTA PARA O PASSADO: A BISAVÓ SINHÁ TONINHA MULATA DE ANTOINZINHO PAPAI - 6




   
DE VOLTA PARA O PASSADO: A BISAVÓ SINHÁ TONINHA MULATA DE ANTOINZINHO PAPAI - 6


NEUZA MACHADO



Antônio de Sousa Costa, meu pai Antoinzinho, filho do Zeca de Sousa, antigo sitiante da localidade denominada Choro (hoje conhecida como Santo Antônio do Arrozal, uma localidade campestre que fica entre Indaiá e Divino do Carangola, em Minas Gerais), apreciava relembrar a história de sua família materna. Então, os casos interessantes sobre a famosa bisavó Sinhá Toninha Mulata eram muitos. Alguns ficaram registrados em sua narrativa A História de Antônio (título criado por mim, depois do falecimento de meu pai Antônio).

 

A bisavó Sinhá Toninha Mulata foi uma mulher rica, graças ao seu casamento com o português João Pereira da Cunha (casamento na Igreja Católica, o que, à época, era o casamento oficial). Entretanto, apesar de ser uma Sinhá rica, a bisavó Toninha de meu pai, segundo o que ele nos contava, era uma mulher trabalhadora, dinâmica, e que tinha obrigações caseiras, como qualquer das suas escravas. A vida no campo é cheia de demandas que não podem ser adiadas, assim, seus habitantes aprendiam cedo a abolir o estado de preguiça. Ao contrário das damas da Corte, no período da colonização, as Sinhás da roça – nobreza rural – assumiam as suas obrigações diárias. Sendo que elas elegiam quais as tarefas que serviriam para si, unindo o útil ao agradável, já que, sem esses preenchimentos, suas rotinas diárias ficariam vazias.

 

No caso da bisavó Toninha, segundo o meu pai, o seu trabalho diário era a costura. A bisavó Toninha gostava de costurar para a sua numerosa família (filhos, noras, netos e agregados). Este gosto pela costura foi passado para as gerações seguintes. Sua neta Antoninha Pereira de Jesus (mãe de meu pai; os nomes próprios se repetiam em sinal de homenagem), no final do século XIX e início do século XX, mesmo sendo esposa do Sitiante José de Souza Costa (Sítio = Pequena Fazenda), também foi uma renomada costureira na localidade chamada Choro (Santo Antônio do Arrozal), perto de uma outra localidade chamada Indaiá. Assim, acredito, que ela estava perpetuando a arte da costura, que foi a tarefa escolhida pela primeira matriarca laboriosa, sendo esta uma das tantas mulheres pioneiras pelo mundo todo que buscaram a independência, demonstrando serem capazes de fazer coisas úteis, com arte, para o grupo a que pertenciam. Mulheres que, apesar de não ter o direito de falar o que pensavam, produziram bens que foram importantes para todos, e com isso, se tornaram imprescindíveis e dignas de serem lembradas pelas gerações futuras.

 

Meu pai foi testemunha da força e persistência das mulheres de sua família materna, a partir da Sinhá Mulata Antoninha (que foi orgulhosamente reverenciada por todos os que a conheceram), admirou-as, e soube valorizá-las, como demonstrou ao longo de sua vida e em seus registros escritos.

 

Leiam mais um trecho de A História de Antônio e comprovem (Antônio de Sousa Costa - 3 anos apenas de Escola Primária de roça - 1918 a 1920 mais ou menos).

 

 

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO

Antônio de Sousa Costa

 


João Pereira da Cunha, vulgo Barba de Argolão, era português, casado com uma mestiça, filha de índio com negro, por nome Antônia, mas era chamada de Antoninha.
Desse matrimônio nasceram sete filhos, sendo quatro homens e três mulheres. Nomes dos homens: Joaquim, Sebastião, João e Manuel. Nomes das mulheres: Joana, Antônia e Luiza. Carangola, até hoje em dia, é conhecida como uma cidade da Zona da Mata Mineira. Naquele tempo era mata virgem cerrada, com poucos moradores. A terra era posseada. O Governo da Regência Imperial oferecia as posses para os súditos portugueses. Cada morador português remarcava o seu pedaço de terra o quanto queria. João Argolão, como era chamado, tendo ele muitos escravos, demarcou uns quinhentos alqueires de terra. As divisas eram águas vertentes. Com os seus escravos, ele fez uma picada nos altos. De distância em distância, ele cortava uma árvore das mais grandes e dizia para os escravos: “– Esta é a divisa que tem que ser respeitada”. E, assim, formou uma grande Fazenda que, até hoje, tem o nome de Fazenda Cachoeira.

 

Quando João Pereira, vulgo Barba de Argolão, morreu, a Fazenda foi dividida entre os filhos. Meu avô Joaquim, sendo o mais velho dos irmãos, ficou com a Sede da fazenda, porque já morava perto. Os outros irmãos, que já eram todos casados, tinham as suas residências mais longe. Quando eu entendi-me por gente, ainda conheci a minha avó-bis, que morava com um filho, Sebastião Pereira. Sebastião Pereira era casado com Maria Luisa. Tio Sebastião Pereira possuía grande criação de carneiros e, todos os anos, quando chegava o Verão, ele tosquiava os carneiros, tirava a lã, e a tia Maria fazia cobertores de lã de carneiro, e fazia, também, de algodão; fazia até roupa de vestir em casa. Naquela época, só se vestia roupa de algodão em casa ou no trabalho pesado; para passear, usava-se roupa de seda para as mulheres e, para os homens, roupa de tecido de casimira inglesa (tecido da Caxemira), para os ternos, ou então linho de boa qualidade. Tio Bastião Pereira, como era chamado por todos nós, e tia Maria Luisa viviam muito felizes com seus oito filhos, morando perto, todos muito reunidos, e, todos os dias, iam à casa dos pais, para pedir a bênção aos pais, rezar ladainha, terço, juntamente com a avó, que era a minha avó-bis, já velhinha quando a conheci. Minha avó-bis, que era chamada de vovó Toninha, morreu aos noventa anos, sofreu o mal da velhice por vários dias; todos os filhos, netos e bisnetos iam fazer quarto a ela, durante a noite. Eu, nessa época, era bem menino, mas recordo-me o que meus pais e meus tios comentavam sobre ela. Eles falavam, até em espécie de uma brincadeira: “– A Vovó Toninha não quer morrer! Não podendo nem virar na cama, e sempre rezando, pedindo a Deus vida”. Vovó Toninha rezava assim: “– Pela Vossa Divina Luz, me conservai, me ajudai!”. 

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