Dilson Lages Monteiro Sábado, 11 de fevereiro de 2012
NEUZA MACHADO - LETRAS
Neuza Machado
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CONSCIÊNCIA DA LINGUAGEM: NOVO DINAMISMO PSÍQUICO

 

CONSCIÊNCIA DA LINGUAGEM: NOVO DINAMISMO PSÍQUICO

 

NEUZA MACHADO

 

 

“Uma imagem literária imitada perde a sua virtude de animação. A literatura deve surpreender. Certamente, as imagens literárias podem explorar imagens fundamentais – e nosso trabalho geral consiste em classificar essas imagens fundamentais –, mas cada uma das imagens que surgem sob a pena de um escritor deve ter a sua diferencial de novidade. Uma imagem literária diz o que nunca será imaginado duas vezes. Pode-se ter algum mérito em recopiar um quadro. Não se terá nenhum em repetir uma imagem literária” (Bachelard).

 

Em meados do século XX, o escritor mineiro Guimarães Rosa surpreendeu os meios intelectuais brasileiros valendo-se de uma linguagem fora dos padrões habituais para desenvolver a sua inigualável arte literária.  Naquele momento, Guimarães Rosa conseguiu a sua diferencial de novidade, recriando a antiga técnica de contar estórias exemplares, à moda do sertão de Minas, mas, retiradas criativamente de seu imaginário particular, singularíssimo. Graças a essa diferente forma de narrar, extraiu das recordações íntimas o aspecto altivo do homem sertanejo, sustentado pelo primitivismo de uma existência alheada dos valores modernos. O escritor, de origem sertaneja, rejeitando os valores da modernidade, as regras linguísticas formais, as imagens mascaradas (limitadas), e buscando o linguajar primordial (provocador), a imaginação material (reprodutora) aliada à imaginação criadora (dinâmica ), tornou-se um ativo modelador de um universo diferente. Não quis apenas contemplar o sertão da infância, recriou-o, domou a matéria terra, e venceu a natureza.

 

Guimarães Rosa, em suas primeiras narrativas, uniu terra e água em uma massa perfeita. Às vezes, sobressaindo-se mais a terra, outras, a água. Entretanto, se tivesse registrado apenas o seu ato de modelar o sertão da infância, por intermédio da imaginação reprodutora, não teria legado aos pósteros a sua indiscutível arte ficcional. Ele explorou as imagens reprodutoras, desenvolvendo inicialmente o ato de bem ver a realidade sertaneja. Por meio dessa exploração de imagens soube atingir o domínio de uma imaginação fundamentalmente criadora, quando rejeitou a cultura realista e passou a bem sonhar o seu passado inesquecível, “permanecendo fiel ao onirismo dos arquétipos que [estavam] enraizados [em seu] inconsciente” (Bachelard)

 

Nas recordações da infância, momentos de pura inspiração o impelem à modelação de trechos narrativos de alta criatividade. Por exemplo, reconstituindo as façanhas infantis de um grupo de crianças, em “A partida do audaz navegante” (Primeiras Estórias), propicia-nos um retorno ao regaço materno, seja qual for a significação que queiramos dar a esta expressão: retorno ao útero materno, retorno aos braços carinhosos da mãe, retorno às origens, ou, mesmo, retomada dos valores puros da terra/sertão.

 

Bachelard nos alerta:

 

“Afastar a criança da cozinha é condená-la a um exílio que a aparta dos sonhos que nunca conhecerá. Os valores oníricos dos alimentos ativam-se ao se acompanhar a preparação. Quando estudarmos os sonhos da casa natal, veremos a persistência dos sonhos da cozinha. Esses sonhos mergulham num feliz arcaísmo.  Feliz o homem que,  em  criança,  “rodou em volta”  da  dona da casa” (Gaston Bachelard)

 

Nesta narrativa, que assinala um dos mais inspirados momentos criativos de Guimarães Rosa, há um retorno ao regaço materno revelando o homem que, em criança, conheceu as delícias feitas em fogão de lenha. O sertão roseano é o invólucro do sonho da casa natal, repleno de lembranças e recordações. Assim, por exemplo, uma certa manhã de chuva (água) mistura-se com a terra, formando a massa de lembranças imperecíveis. Desse composto de água e terra evola-se  ficcionalmente  o cheiro dos alimentos de outrora somado às recordações do passado infantil, passado em que o menino de então observava sua mamãe mandando “Maria Eva estrelar ovos com torresmos e descascar os mamões maduros (op. cit.). Os sonhos da cozinha estão presentes e vivos nas lembranças (matéria ficcional) e recordações (matéria lírica) do narrador de antigas experiências infantis. Mas, o sonhador das vivências inesquecíveis, agora, já se aliou definitivamente à imaginação criadora e consegue transmitir ficcionalmente os inumeráveis planos de sua consciência singular.

 

Nos sonhos da casa natal, terra, chuva, cozinha e lama se misturam, para realçar a figura materna. Num meio repleto de primitividade, mamãe é a mais bela, a melhor, e “cuida com orgulhos e olhares as três meninas e o menino (op. cit.).

 

O Artista  aquele que saiu do sertão dos valores primitivos e adquiriu inúmeros talentos na moderna sociedade brasileira  remodela a figura materna por intermédio de um olhar infantil. Não estaríamos violando regras teórico-críticas, apoiados que estamos na idéia de compreensão do texto literário  fenomenologia , se afirmássemos que é ele  o Artista Ficcional Guimarães Rosa  o menino que admira a mãe, e que esta admiração só se revelará valiosa mediante a percepção infantil aliada à criatividade do adulto. Graças à percepção infantil aquecida pelo fogo familiar permanentemente aceso nas lembranças do passado, iluminando as recordações do adulto, a voz de mamãe se transforma em “uma voz de vogais doçuras e a manhã se faz de flores (op. cit.).

 

No início, o elemento fogo se sobressai para o cozimento da massa formada pela terra e pela água. Na cozinha das recordações, os alimentos se tornam saborosos, e a doce voz materna também se transforma em alimento, nutrindo a criança, oferecendo-lhe condições de desenvolver o corpo e os sonhos.

 

A cozinha é o gineceu do sertão roseano e a sua criação literária só foi possível graças a essa íntima e doce convivência com a terra e a água. Em seus devaneios de dilatação da massa que irá ao forno da criação literária, o criador sertanejo de um mundo ficcional (sustentado pelas lembranças de uma infância feliz), onde os valores poéticos se sobressaem, registra a imagem imperecível de mamãe, dosando açúcares e farinhas para a feitura de um bolo, enquanto as crianças entrefiam a estória do audaz navegante, descobridor de lugares além do cotidiano.

 

Esta narrativa, oriunda dos sonhos dilatados do amanhecer  dos devaneios da vontade de um sonhador-modelador que sabe trabalhar sua criatividade ficcional , é uma sensível massa de palavras bem dosadas. O estilo inconfundível de Guimarães Rosa se faz presente nesta aparentemente simples narrativa, mas, em suas camadas ocultas há uma profunda natureza complexa. “As verdadeiras fontes do estilo são fontes oníricas. Um estilo pessoal é o próprio sonho do ser” (Bachelard). Sob a proteção do olhar infantil, o inspiradíssimo narrador roseano acompanha os movimentos de mamãe, transforma Pele  a irmã  em uma criança diligentil, além de dar forma a uma imagem ímpar: Ciganinha  a outra irmã  lendo um livro sem virar a página. Percebe-se, neste discurso inovador, os valores imaginários da criança em seu mais alto grau. A massa perfeita encontrou seu elemento individualizador, pode transformar o audaz navegante e seu navio  núcleo de uma sub-estória dentro da narrativa  numa “coisa vacum, atamanhada, embatumada, semi-ressequida, obra pastoril no chão de limugem, e às pontas dos capins-chato deixado (op. cit.). Um cogumelo branco se transforma no audaz navegante, bamboleando em cima da tal coisa  o navio , que está prestes a ser tragada pela enchente produzida pela chuva anterior.

 

O escritor, agora vivenciando o cogito(3) da “consciência singular (Bachelard), possui total conhecimento da linguagem infantil. Graças a essa nova convivência com um plano de difícil acesso, próximo das “inconseqüências quânticas” (idem), a narrativa de um simples dia de chuva atrelado ao universo infantil transmite um novo “dinamismo psíquico” (idem). A imaginação material  matéria terrestre: o sertão composto de pedras, madeiras, metais e gomas  associa-se à imaginação das matérias inconsistentes e móveis  a água, o fogo e o ar , reprodutora da percepção e da memória. Desta associação, surge a imaginação criadora do Artista Ficcional, retirada de sua própria solidão do homem do século XX há muito apartado dos valores primários. O Criador Literário refaz a imaginação infantil, uma imaginação intermediária entre as pulsões inconscientes e as primeiras imagens que afloram na consciência. Surge, assim, um discurso diferente, insólito, renovando os arquétipos inconscientes da criança, aquela que repensa o itinerário de aventuras do Audaz Navegante.

 

Inspirado pela linguagem inerente à criança, o narrador roseano remodela a linguagem ficcional, enriquecendo-a com as recordações da infância. A narrativa surpreende e encanta, porque o leitor refaz também os primórdios de seu próprio passado. Todas as mamães se transformam em fadas, surgindo inesperadamente  de contra-flor , para socorrerem seus filhinhos.

 

O sonhador de um imaculado sertão (perfeição = matéria épica digladiando com a forma ficcional do século XX ), distante temporalmente de sua realidade imediata, reinventa seu infantil passado inesquecível, as possibilidades perdidas, os sonhos revividos nos momentos de solidão.

 

“No sonho, as palavras reencontram amiúde o seu sentido antropomórfico profundo. Aliás, pode-se observar que a modelagem inconsciente não é coisista; é animalista. A criança entregue a si mesma modela a galinha ou o coelho. Cria vida” (Bachelard).

 

As palavras remodelam o homem e a vida, refazem as imagens do inconsciente, dão substância aos pensamentos e, aqui, dão substância aos pensamentos de um criador ficcional que se apossa engenhosamente do universo infantil. A modelagem inconsciente, retirada dos sonhos da infância, faz o leitor-eleito retornar às alegrias primeiras da descoberta da vida. Nessa região psíquica, entre as pulsões inconscientes e as primeiras imagens da consciência infantil, o narrador-mirim de um sertão imaculado, avatar do narrador moderno (submetido diariamente a experiências comunitárias conflitantes), recria seu antigo mundo familiar, transformando uma manhã de chuva normal em uma narrativa onírica e poética, propulsora de profundas meditações para esse mesmo leitor.

 


NEUZA MACHADO (neumac@oi.com.br)


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